Irmã Clara Cachia, osb

Mosteiro de Martigné-Briand (França)

 

Os estudos de teologia no mosteiro

 

Não se entra no mosteiro para fazer estudos de teologia, mas para se servir de um caminho de libertação interior que nos conduzirá a nada ter de mais caro que Cristo. Entretanto, pode acontecer que as circunstâncias permitam estes estudos, e que eles sejam benéficos para a vida monástica. Este pequeno testemunho pretende ser eco disso.

Os estudos de teologia podem começar desde o noviciado, graças à aulas recebidas, às leituras pessoais que é bom poder realizar de modo aprofundado no princípio da formação monástica. Após a profissão temporária, é costume entre nós que seja reservado um ano à inserção em comunidade pelo trabalho e a vida fraterna. Entretanto, durante este ano, pude realizar um trabalho muito enriquecedor sobre Santo Ireneu, uma boa porta de entrada na teologia, em ligação com um professor da universidade católica de Angers. Em seguida pude participar do STIM, ciclo comum durante três anos, que além de um ensino de qualidade, permitiu-me viver trocas e encontros com outros jovens monges e monjas, e alguns laços tecidos nesta ocasião perduram até hoje. Depois, realizei o ciclo do Bac em parceria com o Centro Sèvres e o seu método pedagógico bem concluído. Depois pude completar o segundo ciclo de teologia na universidade católica de Angers em quatro anos através da assistência de uma única tarde de presença por semana na faculdade, até à obtenção da licenciatura canônica. Enfim, os meus estudos acabaram com a realização da tese na universidade católica de Angers, debruçada sobre o estatuto da percepção sensível nas Questões a Talassios de Máximo o Confessor. A meu ver, todos os estudos de teologia até à licenciatura canónica visam obter uma certa cultura em teologia, o que representa um grande trabalho tendo em conta a nossa tradição de pensamento cristão. Mas com o trabalho de tese, trata-se verdadeiramente de um compromisso pessoal e criador onde é possível acrescentar a sua pequena pedra ao edifício do estudo teológico, podendo assim contribuir com uma base de trabalho para outros que continuarão a tarefa. Realizei estes longos estudos em paralelo com as tarefas que me eram confiadas em comunidade, primeiro a cozinha, depois o ateliê de doces, o ateliê de cerâmica, a horta e o pomar.

Gostaria de resumir brevemente quais os contributos dos estudos de teologia para a vida monástica.

O primeiro ponto concerne à nossa tradição monástica. A Regra de São Bento aconselha partilhar o tempo que não é dedicado ao opus Dei entre a lectio divina e o trabalho manual. A lectio divina é o estudo da Bíblia e dos Padres, um estudo orante e nutriente, sendo totalmente possível encontrar este alimento da alma nos estudos de teologia desde que estes sejam abordados na sede do mistério, e não com a secreta intenção de daí retirar uma glória pessoal. Esta implicação é por outro lado também presente no trabalho manual, e São Bento não deixa de sublinhá-lo. Deve-se acrescentar que é nos mosteiros que a cultura da antiguidade tem podido ser conservada no Ocidente e sobreviver aos devires da história e aos acontecimentos políticos. Nos nossos dias, os abalos que agitam a nossa sociedade fazem dos mosteiros lugares que permitam a transmissão de uma cultura e, note-se, a das línguas antigas, cujo ensino tem sido brutalmente diminuído nestes últimos tempos.

A segunda vantagem dos estudos de teologia é o de um equilíbrio humano. A nossa natureza é feita para se desenvolver em todas as suas faculdades, e tal como o trabalho físico permite desenvolver harmoniosamente as forças do corpo, também o estudo permite exercer as forças do espírito de modo proporcional. Os estudos permitem pois encontrar um equilíbrio, se nisso tivermos gosto. Concentrar-se sobre um objetivo e aprofundá-lo é uma disciplina que permite descentrar-se dos seus problemas pessoais, abrir-se ao pensamento de outro e alargar o seu mundo interior.

Enfim, o terceiro ponto que gostaria de sublinhar é o mais importante. Os estudos de teologia podem ser um apoio necessário à própria vida monástica. Na época em que vivemos atualmente, a vida monástica submete-se ao desafio de brutais mudanças culturais. É absolutamente necessário dimensionar o porquê de termos escolhido esta vida, no que ela tem de essencial, e do que se pode transformar sem a desvirtuar. Para efetuar este discernimento, os estudos de teologia são preciosos sob diversos pontos de vista. Pela confrontação com o pensamento de cristãos apaixonadamente comprometidos com a sua fé, eles podem suscitar uma experiência de fé pessoal e intensa. Eles permitem igualmente a expressão desta experiência , porque dão a possibilidade de pôr em palavras realidades interiores, dando-lhes assim mais força, mais convicção e tornando-os comunicáveis a outros. Enfim, eles podem tornar-se um alimento para a fé e um motor para o progresso na união com Deus. Confrontar-se com um autor de modo regular e aprofundado com a perspectiva de dever prestar contas do seu trabalho obriga a entrar num arranque de pensamento bem mais consistente do que se ler livros conforme as suas inclinações pessoais. Trata-se da edificação de um tipo de construção interior capaz de resistir às tempestades e aos ventos contrários, e que permite a construção de uma personalidade intelectual, uma riqueza que é também possível transmitir à sua volta e aos que dela têm sede.