Dom Gregory Polan, osb

Abade Primaz

 

A formação para a vida monástica

 

PolanGO esforço essencial da formação monástica é a transformação do coração. Para falar do coração humano é um bom ponto de partida ver a perspectiva bíblica. Na Bíblia o coração é o lugar que poderíamos descrever como o resultado da união da capacidade mental com a consciência emocional.

A filosofia da Grécia antiga, que fundou e influenciou o pensamento ocidental durante séculos, separava o espírito e o coração em duas funções distintas, numa pessoa. No que vou dizer agora, gostaria de adotar a visão bíblica e considerar que o espírito e o coração podem funcionar em harmonia. Durante nossa formação monástica adquirimos muitas informações sobre as tradições antigas, personagens históricas e sobre o modo como homens e mulheres desenvolveram a vida monástica ao longo dos séculos.

O que é assim recebido, deve ser meditado para que cada um o torne seu, ao longo do tempo, para fazer dele uma disposição interior. Não é verdade que escolhemos integrar as tradições, os valores e os ensinamentos da formação monástica na nossa vida, para trazer mudanças úteis para o bem da nossa alma? Esta união harmoniosa do espírito e do coração tem uma importância duradoura, na medida em que consideramos o processo de formação como uma coisa para a vida toda. Os começos são particularmente importantes porque estabelecem um ritmo exigido para a conversão e transformação do nosso coração, ao longo de toda a vida.

Colocar o coração no centro é uma empresa para toda a vida; poder-se-ia dizer que a formação é uma viagem do coração, que uma vez começada, fica atenta ao sussurro discreto da voz de Deus nas nossas vidas. O Antigo e o Novo Testamento oferecem exemplos que podem ajudar a encontrar um sentido para o caminho da formação.

No Antigo Testamento o povo hebreu progrediu no deserto da escravidão do Egito para a liberdade na Terra Prometida, e isto sob o olhar providencial de Deus. Ao longo da viagem conheceu todos os aspectos da experiência espiritual: tentações, frustrações, traições, medo, misericórdia, compaixão, conversão e, finalmente, a realização da promessa de Deus (Dt 8, 1-18). Tendo vivido o encontro com seu pecado, e beneficiado da redenção, foi constituído por Deus como povo de fé.

No Evangelho, Lucas conta a história do mistério pascal de Jesus como uma viagem, uma espécie de relato de uma peregrinação espiritual.

“Moisés e Elias falavam da sua saída, que devia se realizar em Jerusalém (...) Quando se completou o tempo em que Jesus ia ser levado para o céu, Jesus com determinação visível no rosto, tomou o caminho de Jerusalém” (Luc 9, 31. 51).

O próprio Jesus viveu as mesmas experiências que seus antepassados na fé, quando do êxodo: tentação, frustração, traição, medo, misericórdia, compaixão, aceitação e, finalmente, a realização da promessa de Deus. Tendo partilhado totalmente nossa condição humana (com exceção do pecado), Jesus fez a viagem humana do nascimento até à morte, e finalmente a ressurreição.

Aquele que quer verdadeiramente fazer esta viagem, que quer seguir Jesus sobre o caminho da cruz, deve passar por uma série de transformações, cada vez mais profundas, no seu coração. O coração é o lugar em que a crença, o fervor e a convicção iniciais devem dar lugar a um engajamento vital, um compromisso que dura a vida toda.

CellaA formação para a vida monástica deve ter em consideração o mundo atual em que vivemos, a cultura em que fomos educados, os valores que assumimos inconscientemente. Os progressos tecnológicos que aceleram o ritmo da vida, a cultura do consumo em que estamos, talvez involuntariamente, integrados, o nível de barulho a que nos habituamos, tudo isso faz parte da nossa vida, sem que o realizemos verdadeiramente.

Mas se os problemas tecnológicos fazem diminuir, ou parar nosso sentimento de progresso, ou de produtividade, realizamos logo o impacto que a tecnologia pode ter na nossa vida cotidiana. É quando não podemos usar uma coisa, que vemos como éramos dependentes dela. É só quando nos encontramos num lugar, ou numa atmosfera de silêncio absoluto, que percebemos o papel do ruído, uma vez ausente.

Tais tomadas de consciência podem tornar-se ocasiões de revelação e de auto conhecimento. São momentos em que podemos fazer estas perguntas de aprofundamento: “Que faço da minha vida? Para onde vou? Como penso atingir meus objetivos? E tenho paz interior que me permita responder a perguntas tão profundas?”

Penso que o periodo de formação mais importante para nós é o que se situa entre os 20 e 30 anos. Saímos da adolescência e entramos na idade adulta; começamos a nos voltar para o futuro e vemos as questões e os problemas que terão impacto na nossa vida, nos anos futuros.

É durante esses anos que acontecem as mudanças no modo de viver, de se comportar e de acreditar. Dirigimo-nos para a vida monástica durante esses anos de formação, ou mais tarde, depois que uma formação significativa já tenha acontecido; esses anos têm um efeito duradouro sobre o modo como nos vemos, vemos o nosso mundo e sobretudo como vemos Deus.

São os anos em que muitas coisas mudam: na nossa vida, no nosso corpo, na nossa visão do mundo, nas nossas capacidades intelectuais, no modo de captar certos valores. A palavra “conversão” tem muito sentido no nosso mundo de hoje. Uma conversão é muitas vezes vista como um outro modo de conceber a vida e seu sentido, de a ver de modo diferente; o termo sugere uma mudança radical na vida e no olhar.

Mas existem também “pequenas conversões”, modificações mais discretas no modo de viver, às vezes só no fim da vida. Certas pessoas escolhem não se casar, não formar família senão depois de ter já uma sólida carreira. Outros decidem ter diplomas universitários para terem um emprego antes de escolher o casamento ou a vida monástica. O que é importante é saber até que ponto a pessoa sondou seu coração para tomar essas decisões. A pessoa conhece-se? Tem uma vida interior? Deu a si mesmo tempo e ocasião, meios, para conhecer seu coração?

Há uma virtude que deve ser praticada durante a viagem monástica às profundezas do coração: a confiança. A virtude da confiança não é evidente hoje, num mundo de promessas não mantidas, de mentiras, de corrupção em pessoas com postos importantes, neste mundo centrado na tecnologia e que muda profundamente, e a uma velocidade vertiginosa. No entanto para o trabalho e o processo de formação a confiança é essencial.

A confiança deve permitir-nos fazer esse ato de fé importante: contar com alguém, confiar-se a, submeter-se a um Deus que, embora seja invisível aos olhos humanos, faz maravilhas aos olhos daqueles que têm fé.

Abraão é um dos principais modelos para a confiança. Sabendo somente que alguma coisa no seu íntimo o chamava para mudanças importantes na sua vida, Abraão confiou nessa voz interior discreta; nossa firme convicção é que o impulso interior que o moveu era a voz de Deus (Gen 12-14; 22, 1-19). A virgem Maria é igualmente um modelo de confiança tanto no seu chamado, como na sua vida de fé (Luc 1,38; 2,19; 2,51b).

Engajar-se num caminho de formação e permanecer nele, exige um nível de confiança que fará aceitar as instruções que nos são dadas; elas provam os espíritos, sondam as profundezas no processo de apropriação, e deixam sempre tempo para encontrar o lugar do coração. Neste processo de exploração interior, a confiança é um componente essencial: vão aparecer inevitavelmente dificuldades no começo, mas é normal, porque passamos de uma perspectiva de um estado de vida laica, para a da tradição monástica. Os dois têm alegrias e dificuldades, mas pelo menos deve-se tomar a decisão de entrar nessa viagem da formação monástica com confiança. O salmista dá, aliás, uma instrução simples e direta a todos os que se encontram nesta situação: “Hoje se ouvirdes a voz do Senhor, a palavra de Deus, não fecheis os vossos corações” (Sal 94 / Heb 95, 7b-8a).

Quando uma pessoa está pronta para confiar, isso a faz crescer. A confiança nos encoraja a pegar tempo suficiente para poder assimilar os valores novos e importantes, que nos serão propostos. Mas, também, a confiança vai exigir que se deixe certas coisas do mundo. Para que uma verdadeira evolução do coração possa acontecer, precisamos abandonar comportamentos e atitudes do passado, mesmo que tenham sido atraentes e sedutores. A confiança pode ser um verdadeiro desafio: pode acontecer que a resposta que damos ao que nos é pedido seja tímida e transitória, porque receamos perder para sempre o que nos é familiar e confortável. Cada um de nós terá de enfrentar momentos difíceis, em que só a confiança e o amor, que se desenvolvem lentamente, mas com segurança, nos farão avançar. Tais situações nos obrigam muitas vezes a reconhecer que é necessária a obediência.

A raiz da palavra “obediência” é latina: Audire=escutar. Alguns dicionários sugerem uma nuance “escutar a partir do interior”. Sabemos como esta “escuta interior” era importante para São Bento, para a vida monástica: é o primeiro imperativo da Regra. Além disso São Bento diz para “escutar com o ouvido do coração”. Uma tal escuta não será o fundamento do edifício interior da confiança? Pelo modo como fala disso na Regra podemos ver que importância São Bento dava à virtude da obediência para assegurar o crescimemnto e o desenvolvimento da vida monástica. Escreve no Prólogo “para que voltes pelo labor da obediência àquele de quem te afastaste pela desídia da desobediência” (v. 2). E no fim da Regra, no capítulo 71 sobre a obediência mútua escreve: “Não só ao Abade deve ser tributado por todos o bem da obediência, mas da mesma forma obedeçam também os irmãos (e as irmãs) uns aos outros, sabendo que por este caminho da obediência irão a Deus” (RB 71 1-2). São Bento começa a Regra descrevendo a obediência como um trabalho difícil, e termina descrevendo-a como uma benção, um bem.

Depois de ter realizado um trabalho verdadeiramente importante, podemos considerá-lo como uma benção, como uma coisa que nos fez crescer na virtude, uma experiência de vida nova. Degrau a degrau, experiência a experiência, evoluimos para uma obediência de coração, favorecida pela confiança que cresce em nós.

A carta aos Hebreus apresenta a obediência de Jesus de forma a nos inspirar e encorajar: “Embora Filho, aprendeu a obediência pelos sofrimentos de sua Paixão e assim levado à perfeição, tornou-se para todos os que lhe obedecem causa de salvação eterna”(Heb. 5, 8-9). É estranho ter de meditar sobre isto: Jesus teve de aprender a obediência! O texto nos ensina igualmente que a obediência de Jesus foi redentora para nós. Não é difícil compreender que a nossa própria obediência seja redentora, em nossas vidas e na vida dos outros. Na sua humanidade Jesus, como nós, compreendeu e aceitou a obediência para com aquele que chama Abba, assim como aos pais a quem o Pai o confiou. Lembremos a passagem em que o jovem Jesus ficou em Jerusalém para conversar com os doutores da Lei, enquanto seus pais o procuraram ansiosamente. Quando, preocupados com ele, o interrogam, ele afirma que isso fazia parte do plano de Deus para ele, o que é muitas vezes traduzido por “se ocupar das coisas do Pai” (Luc 2, 49). O texto conclui: “Desceu com eles para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração” (Luc 2, 51). Duas coisas impressionam aqui: a obediência de Jesus, homem-Deus, a seus pais humanos e a identificação do coração de Maria, como lugar de sua meditação sobre o acontecimento, acontecimento carregado de mistério, e sobre as palavras ditas e a experiência vivida. Jesus na sua humanidade é-nos apresentado de forma a que possamos constatar o progresso nele: progresso para a maturidade perfeita que o leva a ter confiança na vontade do Pai, como um caminho bom para a sua vida. A nova humanidade de Jesus é a nossa meta aqui na terra.

Ao longo de retiros, muitas vezes falei sobre como é importante ter dias de reflexão tranquila para escutar o coração. E no entanto, e é de nos admirar, o coração, o centro do nosso ser, é o lugar para onde escolhemos algumas vezes ir, outras vezes evitamos ir, e até em certos casos resistimos à possibilidade de ir. Mas é essencial desde o começo da formação descer ao mais profundo do coração, ter um ritmo de vida que nos leve a aí voltar; senão corremos o risco de separar a nossa vida exterior do nosso eu mais profundo, e de Deus também... Uma das coisas mais tristes que pode acontecer durante a viagem da vida é evitar e até mesmo rejeitar o verdadeiro autoconhecimento. Cair em tal situação pode nos levar a sermos estranhos a nós mesmos. Voltemos muitas e muitas vezes ao coração na oração, nas provações, nas bençãos, nas nossas buscas, nos erros, nas dúvidas, e – sim – nos nossos pecados: aí encontraremos Deus, que nos ama infinitamente.

Este amor se revelará no consolo divino que nos traz, na consolação, no ensinamento outros benefícios e bençãos. Põe-nos em relação com o Deus que nos deu a vida e continua a nos ajudar. O verdadeiro caminho da formação está bem expresso na oração do salmista:

“Meu coração fala convosco confiante, Senhor é vossa face que eu procuro: não me escondais a vossa face” (Sal. 26,8 / 27,8).

Mesmo nos momentos em que o rosto de Deus parece escondido, só temos que nos voltar para o coração, aonde encontraremos o Deus de amor e de misericórdia, sempre pronto para nos receber e renovar.