Viagem à Argentina, outubro de 2019

Dom Jean-Pierre Longeat, OSB

Presidente da AIM

 

Segunda feira, 23 setembro

Destino: Argentina para o encontro do EMLA, reunião dos superiores dos mosteiros da família beneditina para toda a América Latina.

A Argentina conta com uma quinzena de mosteiros da família beneditina : três nascidas a partir da Abadia de Santa Escolástica de Buenos Aires (Córdoba, San Luis, Rafaela); a comunidade de Córdoba fundou por sua vez a do Paraná ; entre os mosteiros masculinos, há o de Luján e o de Los Toldos e ainda o de Niño Dios (que fundou uma outra comunidade na Argentina, El Siambón); existem dois mosteiros trapistas no território, um de monges (Azul) e um de monjas (Hinojo), duas comunidades de Tutzing em Buenos Aires e Los Toldos e uma comunidade de beneditinas em Santiago del Estero. É uma rica história que começou no fim do século 19. Durante a viagem tive a oportunidade de visitar sete destas comunidades.

No aeroporto de Buenos Aires, fui acolhido por duas irmãs de Santa Escolástica e partimos para o seu mosteiro que ficava a uma hora de carro. Após instalar-me na hospedaria, pedi para celebrar a missa antes do almoço. Fi-lo na cripta, e, para minha grande surpresa, um certo número de irmãs estava presente para uma celebração improvisada. Celebrei em francês, mas a bibliotecária forneceu os livros para que as irmãs pudessem seguir e responder nessa língua.

À tarde, fiz um passeio junto a um braço do Oceano que fica a apenas 15 minutos. No regresso, tivemos um encontro com a comunidade, numa vasta sala, em círculo. Após voltarmos a escutar o Evangelho do dia, falámos livremente sobre todo o tipo de questões tocando as nossas vidas. Ambiente caloroso que dá bem o tom desta estadia argentina.

 

Terça feira, 24 setembro

Levantei-me às 4 horas da manhã. As Vigílias são às 5 h 15, Laudes às 7 h 30 e a missa às 8 h 30. A manhã passou-se em visita ao mosteiro.

Escondida nos arredores de Buenos Aires, não longe das margens de la Plata, esta comunidade de monjas beneditinas deseja ser para todos os habitantes da cidade um farol pela sua vida de oração e contemplação, e pelo seu trabalho.

As crônicas relatam que, durante numerosos anos, o P. Andrés Azcárate, monje de Silos (Espanha) e prior-fundador da Abadia de San Benito em Buenos Aires, desejou fundar na Argentina um mosteiro de monjas… Numerosos jovens argentinos, atraídos pela vida beneditina encorajaram o P. Andrés na sua tentativa. O Padre Prior, conhecendo bem as Abadias espanholas e o fervor da sua observância, enviou então as primeiras candidatas a Estella (Navarra), para abraçar a vida monástica e formarem-se aí. Mas a guerra civil em Espanha travou estes projetos. Em 1937, o Padre Prior dirigiu-se à Abadia Santa Maria de São Paulo, Brasil, cuja abadessa e fundadora é Madre Gertrudis Cecília da Silva Prado, para empreender esta obra de formação. A Abadia de Santa Maria pertence à Congregação Beneditina Brasileira, mas as suas primeiras religiosas tinham sido formadas na Abadia Nossa Senhora da Consolação, em Stanbrook, Inglaterra, que iniciou a fundação em 1911. A Abadia Santa Maria seguiu, à semelhança de Stanbrook, os costumes da vida beneditina estabelecida por Dom Guéranger para as religiosas de Sainte-Cécile de Solesmes.

ArgentineStaEscoEm Santa Maria, em 15 de outubro 1938, o D. Prior pediu à Madre Abadessa e à comunidade a admissão das primeiras filhas argentinas para a fundação de Santa Escolástica. A Madre Abadessa aceitou o pedido e abriu largamente as portas da sua Abadia às sete candidatas.

A 8 dezembro do mesmo ano, solenidade da Imaculada Conceição, foi colocada a primeira pedra do edifício. Enquanto o mundo se batia em guerras terríveis, um novo mosteiro beneditino nascia na Argentina, conformemente à divisa «PAX». A igreja abacial seria colocada sob a proteção da Rainha da Paz.

A 17 de setembro de 1940, a profissão da primeira noviça teve lugar em Santa Maria e a 21 novembro, a das seis outras Argentinas. Entretanto, o número de argentinas reunidas no noviciado de Santa Maria aumentou, sendo todas muito fervorosas.
Hoje a comunidade é composta por cerca de 30 monjas. As suas atividades consistem num ateliê de ornamentos, um outro de objetos de arte, um ateliê de encadernação, uma impressora de convites e cartões-postais, uma chocolataria e uma hospedaria.
A liturgia é ao mesmo tempo em espanhol e canto gregoriano. Os edifícios do mosteiro são espaçosos; o terreno estende-se por três hectares no meio das habitações da cidade de Victoria.

À tarde, a Madre Abadessa delegouduas irmãs para me acompanharem à beira do rio Luján na cidade de Tigre. Caminhámos um pouco ao longo do rio e discutimos muito sobre a situação do país e da Igreja. A secularização é galopante, as bases da fé são postas em causa, enquanto por outro lado a devoção popular permanece muita viva. Em todo o caso, a questão da transmissão da fé, na Argentina como de resto no mundo, está em vias de conhecer uma fase particularmente difícil. Evidentemente, isto envolve o futuro da vida religiosa. A comunidade de Santa Escolástica, que é contudo bem viva e dinâmica não recebe noviças desde há oito anos.

 

Quarta feira, 25 setembro

ArgentineSBenitoDe manhã, dirigimo-nos à antiga Abadia de San Benito no centro de Buenos Aires. Como já disse, esta fundação foi obra da Abadia de Silos em 1914. Perdurou neste lugar até 1973, data em que os monges se transferiram para Luján.

Fomos recebidos pelo padre Pedro, monge de Luján, que permanece ali para o que agora serve de pouso para os monges do seu mosteiro. A comunidade de Luján é proprietária dos espaços e tentam alugá-los: vários organismos se sucederam desde os anos 70.

O que impressiona de imediato é a desproporção desta construção que se queria originalmente ao serviço de um projeto muito grande. Com efeito, o padre Andrés, prior e fundador, construiu, por etapas, uma Abadia que pudesse alojar uma centena de monges. Mas a fundação nunca foi bem sucedida. No auge da sua maior glória, pôde albergar cerca de 50 monges, mas que vinham todos de Espanha, recrutados essencialmente entre os “oblatinhos” de Silos. A visita dos edifícios, desprovidos de locatários desde há alguns meses, é eloquente. Ademais, a construção não pôde ser acabada : o claustro apresenta dois lados com arcadas que se elevam sobre o vazio, e as torres da igreja não estão completas. Imagina-se os esforços desenvolvidos para chegar a sustentar este projeto gigantesco!

ArgentineTutzingVoltamos para o jantar nas irmãs beneditinas congregação beneditina missionária de Tutzing, instaladas muito perto daí. São cinco. Todas cheias de vitalidade, mantêm diversas tarefas como a animação de uma pensão para jovens moças em situação de emigração, nomeadamente da Venezuela ; o acompanhamento de jovens do bairro em dificuldades; o acolhimento de hóspedes na sua hospedaria, e também claro a vida regular. Como é frequente, nas irmãs de Tutzing , a comunidade é muito internacional: a prioresa é brasileira, duas são argentinas, uma coreana e uma namibiana. A atmosfera é muito livre e despretensiosa. Há duas comunidades de Tutzing na Argentina.

No princípio da tarde, partimos com o P. Pedro para o mosteiro de Luján onde vou permanecer todo o dia seguinte. Mas antes, fazemos uma parada na catedral de Buenos Aires para orar em comunhão pelo Papa Francisco que aí foi por muito tempo arcebispo. Atravessamos a cidade de Buenos Aires que conta 3 milhões de habitantes, alargada em 14 milhões pela aglomeração.

Após uma hora e meia de viagem, chegamos ao mosteiro de Luján onde fomos acolhidos pelo Padre Abade Jorge, recentemente eleito (a 14 setembro de 2019) após um tempo como prior administrador.

Após o jantar, encontro a comunidade durante a «recreação». São 15 monges com várias gerações representadas. Os mais jovens têm mais de 30 anos e os dois mais idosos têm 92 e 93 anos.

 

Quinta feira, 26 setembro

Após o café da manhã, Laudes e missa, partimos com o Padre Abade visitar a basílica de Luján a alguns quilômetros do mosteiro.

A pequena estátua em barro cozido de 38 centímetros, conhe cida hoje como a Virgem de Luján, data de 1640. Um proprietário rural queria fazer construir no seu domínio uma capela consagrada à Virgem Maria. Pediu a um amigo que vivia em Pernambuco, Brasil, que lhe enviasse uma estátua da Virgem, e ele enviou-lhe duas: uma de Nossa Senhora da Compaixão (a Consolata), e uma outra da Imaculada Conceição.

À época, os caminhos eram em terra, e enquanto a carroça transportava as estátuas do porto em direção ao campo, no norte da cidade, a noite caiu e a carroça teve de parar junto às margens do rio Luján. Mas no dia seguinte, no momento de retomar a rota, os bois não se moveram. Os boiadeiros descarregaram a caixa contendo uma das estátuas, mas a carroça não se mexia de todo. Eles voltaram a colocá-la na carroça e desceram a outra estátua, e a carroça rolou normalmente. Eles constataram então que o que a impedia de avançar era a estátua da Imaculada Conceição. Concluíram que se tratava de um milagre: a Virgem queria permanecer naquele lugar.

Testemunha do milagre, o «negrito Manuel» era, dizia-se, um homem caloroso e simples a quem foi confiada a missão de guardar a imagem porque, como havia dito o seu mestre de então, «não havia ninguém mais que servisse» senão ele. Durante quarenta e um anos, a estatueta permaneceu num eremitério a 25 km da atual basílica. Em 1671, ela foi transferida para um oratório, donativo de doña Ana de Matos, e ao fim de um certo tempo começaram os trabalhos de construção do primeiro santuário do qual se descobriram as ruínas. É nesta capela que têm lugar as primeiras peregrinações e os primeiros milagres.

E o guardião de Nossa Senhora, encarregado de acolher os peregrinos, será até ao fim da sua vida o «negrito Manuel», que morreu em odor de santidade. Foi enterrado por trás da capela, que existiu até 1740.

No fim do século 19, apos a coroação pontifical da pequena estátua e a primeira peregrinação oficial vinda de Buenos Aires, em agradecimento pelas graças concedidas durante a epidemia de febre amarela, empreendeu-se a construção da monumental basílica, hoje um dos centros de peregrinação mais importantes da América latina. Esta construção deveu-se à iniciativa de um padre francês, o padre Salvaire.

Após a basílica, visitamos a cripta onde estavam reunidas reproduções de estátuas da Virgem de numerosos países do mundo. Fiquei impressionado pela variedade de todas estas estátuas. Nunca medira o quanto a apropriação da imagem da Virgem permitia a cada cultura nacional ou regional identificar-se com aquela que foi a primeira discípula de Jesus, e que se tornou assim a mãe de todos os que seguem o seu filho. É uma forma de tornar a fé mais acessível.

No regresso, paramos numa antiga casa nas terras do mosteiro (a propriedade estende-se por 300 hectares à imagem das grandes explorações agrícolas da Argentina!). Este edifício foi transformado em centro de formação agrícola para as jovens da região. Esta obra está sob a responsabilidade de uma fundação dedicada a este gênero de projeto. Há quarenta alunos atualmente, que se repartem em dois anos de formação. Os professores e animadores são pessoas convictas e muito empenhadas. O estabelecimento é acompanhado no plano espiritual pelo Opus Dei: uma capela está aí em vias de construção. Entretanto o pessoal compromete-se em nada ensinar que se oponha às diretivas dos poderes públicos, nomeadamente em matéria de ética familiar e social ou de bioética.

ArgentineLujanDurante a tarde, o Padre Abade levou-me a visitar as atividades econômicas do mosteiro: a loja situada a 1 km dos edifícios monásticos e é mantida por uma família empregada pelos monges; a criação de gado bovino (90 vacas leiteiras), igualmente confiada a empregados leigos; a confeitaria onde trabalham os monges mas igualmente alguns leigos. Visito também os arredores: em particular uma antiga fiação montada por uma família vinda da Bélgica no século passado. O fundador desta empresa tinha uma perspectiva social segundo o ideal da doutrina social da Igreja. Além da fábrica, criou todo um conjunto de atividades para ajudar a população a sair da pobreza : grupo escolar, atividades de lazer, piscina coberta… As crianças herdaram a obra mas não a puderam prosseguir e finalmente esta faliu. A escola permaneceu lá, mas as outras atividades pararam definitivamente. O mosteiro contribuiu muito para o acompanhamento das pessoas que se depararam com o desemprego assim que a fábrica fechou.

No final da tarde, tomamos um tempo para ler em conjunto o Evangelho do dia e partilhar o que ele nos inspirava. Para tanto pusemo-nos perto de um rio pertencente à antiga fiação onde as pessoas do país vêm descansar.

Ao longo do dia, o Padre Abade fala abundantemente da situação do país. Este atravessa uma crise política profunda. A pobreza ganha terreno. O contexto político é particularmente tenso. Muitos na Igreja da Argentina estão fortemente comprometidos com os pobres: os bispos intervêm frequentemente a este respeito.

De noite, novo encontro com a comunidade. Trocamos alguns presentes porque amanhã será a partida para outras comunidades em vista da sessão do EMLA nos dias que se seguirão.

Continua na próxima edição.