Irmã Marie-Pierre Nhu Ý, OSB
Priorado de Lôc-Nam (Vietname)

Liturgia dos mortos:
Tradições do Vietname e ritos monásticos

 

LiturgieSPierreDos funerais tradicionais aos funerais cristãos: as lições da história

A correspondência entre os ritos funerários tradicionais, no Vietnã, e a tradição da Igreja teve uma longa história. Não é somente o trabalho de alguns especialistas, ou o fruto de pesquisas eruditas, mas foi a ação de todo o povo de Deus, no qual se reflete o autêntico sentido da fé, seio de seu amadurecimento. Para bem entender isto é preciso percorrer os debates históricos na China e no Vietnã, que levaram à decisão de retomar o culto dos antepassados.

 

Na China e no Vietnã

LiturgieBoudhNa época da “disputa dos ritos” do séc. 16, tempo de vivas controvérsias entre os missionários de diversas Ordens religiosas, a questão do culto dos antepassados, em ligação com o rito do funeral, foi aguda[1]. Que há de “verdadeiro e de santo” no culto dos antepassados aos olhos da Igreja Católica?

Diante desta pergunta o Papa Clemente XI, por Decreto de 20 de novembro 1704, pôs fim a esta disputa, proibindo os cristãos de fazerem oblações em honra dos antepassados nos templos e nas casas particulares, assim como de guardarem suas placas funerárias. Na Constituição Ex Illa, de 19 de março de 1715, renovou estas proibições e ordenou a todos os missionários que fizessem um juramento diante das autoridades apostólicas e de sua Missão. O Papa Clemente XII, na sua Bula Ex Quo Singulari, de 11 de julho 1742 manteve as decisões de seu antecessor.

Para restabelecer a unidade de pensamento e de ação entre os missionários nas missões da China e seus vizinhos, o Legado, Mons. Messabarba, por meio do Mandato de Macau de 4 de novembro de 1712, autorizou os cristãos chineses e vietnamitas a fazerem oferendas e gestos diante das placas dos antepassados defuntos; o decreto estipula que estas oferendas e estes gestos podem também ser feitos na casa de culto, diante do caixão, ou do túmulo do defunto, porque expressam respeito e piedade.[2]

LiturgieThuDucancetresMas o mandato não acalmou as controvérsias no interior da comunidade cristã. Por oposição, Mons. Saraceni, Vigário Apostólico de Chan-si e de Chen-si proibiu o uso de licenças relativas às placas no seu Vicariato. Mons. de la Purification, bispo de Pequim, por outro lado, deu licença.

Depois, sob o governo dos Papas Clemente XII (1730-1740) e Bento XIV (1740-1758) a questão do culto dos antepassados, ligado ao rito funerário não parece ter sido regulamentada definitivamente.

Nesse momento, para evitar todo o equívoco, os Vietnamitas católicos renunciaram instalar altares, assim como placas, em honra dos antepassados em suas casas. Mas ficaram fiéis a fazer a lembrança piedosa de seus mortos, mantendo o hábito de se reunir e mandar celebrar missas pelo repouso de suas almas.

No final do séc. 17[3], os missionários da Companhia de Jesus defendiam que o culto dos antepassados era só uma homenagem puramente civil, um testemunho de piedade filial e de reconhecimento por seus antepassados e seus pais falecidos. Esta tomada de posição foi partilhada por chineses cultos.[4]

Dois séculos mais tarde, a Congregação Propaganda fide, na sua instituição Plane compertum de 8 de dezembro de 1939, aprovada pelo Papa Pio XII considerou que:

“É lícito, e conveniente, para os católicos, fazer inclinações de cabeça, e outras manifestações de respeito civil pelos mortos, ou diante de suas imagens e diante das placas que têm seus nomes”.[5]

Graças à congregação Propaganda fide, o culto dos antepassados em ligação com o rito funerário é hoje permitido: consiste em atos exclusivamente de veneração dos antepassados e dos pais defuntos. E este rito deve ser, por isso, purificado de toda a superstição.

O culto dos antepassados é permitido, tudo bem, mas como praticá-lo sem nenhuma superstição?


O debate sobre o culto dos antepassados.
A oposição ao culto dos antepassados

LiturgieShangaiQuando chegou ao Vietnã, em 1628, Mons. Alexandre de Rhodes percebeu logo que certas práticas funerárias eram supersticiosas e ridículas, como por exemplo, o queimar papéis votivos. Assim não hesitou em condená-las. Condenou também a festa, Cung Giô, que os vietnamitas celebram em memória de seus pais defuntos. Observando o que os vietnamitas faziam e acreditavam Mons. Alexandre de Rhodes concluiu que a cerimônia Cung Giô assentava em três erros: o primeiro consiste na crença de que as almas dos defuntos voltam à casa dos seus filhos, quando lhes agrada e quando os filhos as chamam; o segundo é a certeza que os mortos se alimentam com as oferendas preparadas sobre o altar dos antepassados; o terceiro, o mais absurdo, é a crença que a vida e a prosperidade material dependem dos pais defuntos e que eles podem tirar isso, se os filhos faltarem ao dever de realizar Cung Giô, sinal de ingratidão.[6]

Mas segundo a tradição sino-vietnamita, a virtude fundamental sobre a qual repousa o culto dos antepassados, é a piedade filial, ou “Hiêu”. Ao contrário, a “Bât Hiêu”, ou a falta de piedade filial, é considerada crime.

O Padre Lou Tseng Tsiang[7] definiu com muita perspicácia o que é “Hiêu”, nestes termos: “A piedade filial é o fundamento de toda a perfeição moral, a fonte de toda a fecundidade e não há nenhum ato humano que escape às suas leis. Todos os homens têm de se inspirar nela, em todas as coisas e praticá-la”.[8]


A revalorização do culto dos antepassados

O culto dos antepassados tem caráter religioso? Se tem, por que então não é aceito aos olhos dos missionários? Reconhecendo que os mortos estão presentes no meio dos vivos e que os ritos realizados em sua honra estão bem fundamentados, Tran Van Chuong escreve: “O culto dos antepassados tem por fim fazer os vivos lembrar os mortos; nasce da moral que ordena fidelidade na lembrança”.[9]

Hô Dac Diêm expressa a mesma coisa:

“Este culto vem da piedade filial. Um filho piedoso deve sempre ter presente na sua memória a lembrança imperecível de seus pais”.[10]

Depois o Padre Cadière fez a seguinte observação :

“É preciso fazer distinções: todos os atos rituais que dizem respeito ao culto dos antepassados, não têm, em si, um carater religioso, mas isso é só exceção. Para a imensa maioria dos Vietnamitas, os antepassados, depois da morte, continuam a fazer parte da família”.[11]

Finalmente, após longas discussões, os missionários chegaram à conclusão:[12] “As oferendas aos mortos nos ritos funerários devem ser feitas na plenitude de um amor e de um respeito sólido e perfeito”. “Amar e honrar os pais depois de sua morte, como durante sua vida”.

Em 1675 a Instrução do seminário das Missões Estrangeiras, na sua 2ª diretriz indica: “Não coloqueis nenhum zelo, nem nenhum argumento para convencer esses povos a mudar de ritos, ou de costumes, a menos que sejam claramente contrários à religião e à moral… Não introduzais nossos países no país deles, mas sim a fé, que não expulsa, nem fere os ritos, nem os costumes de nenhum povo”.[13]

Assim, já o percebemos, a Igreja pede que se tome o tempo e a prudência e um bom discernimento.

Vai ser preciso esperar, no entanto, o Concílio Vaticano II para que a questão do culto dos antepassados seja totalmente resolvida.

 

Proposta de adaptação do ritual do funeral monástico
à cultura vietnamita

Para a grande maioria dos Vietnamitas, os antepassados continuam a fazer parte da família. Para muitos o culto dos antepassados é, em certo sentido, uma religião de adoração dos antepassados. Por exemplo: no dia da comemoração dos antepassados, os túmulos são enfeitados e todos os membros da família devem reunir-se na casa ancestral para mostrar gratidão e reforçar os laços familiares, por meio da partilha de uma refeição. À meia-noite, na passagem do ano, assiste-se à cerimônia mais solene do culto dos antepassados, etc.

É por isso que, mesmo os cristãos do Vietnã de hoje, não querem parecer diferentes aos olhos de seus concidadãos. Por quê? Outrora os cristãos eram olhados pelos compatriotas não cristãos como pessoas cortadas de suas raízes, quer dizer suspeitas de abandonar o dever de prestar culto aos antepassados, depois do rito do funeral, e esta condenação dura até hoje, embora a Igreja do Vietnã tenha tentado adaptar os ritos do funeral, segundo a tradição.

Como adaptar o ritual monástico à cultura do Vietnã? Como e o que harmonizar, o rito do funeral com os costumes do Vietnã, especialmente na vida contemplativa no país?

Parece-me que antes de adaptar há que compreender que:

- o ritual do funeral da Igreja, particularmente na vida monástica, não se contenta em pôr em cena um simbolismo funerário, é também um culto, quer dizer celebração do desígnio salvífico de Deus, e proclama a sua fé no kerygma : Cristo morreu, ressuscitou, e com ele todos os que creem em seu nome.

- O acento é colocado no defunto, que participa pela última vez na assembleia litúrgica, e por quem se reza, como também pelos vivos que precisam de consolação e de esperança.

- O corpo faz parte integrante da pessoa. Mesmo sem vida não é colocado no nível de simples objeto. É o corpo de tal pessoa, um corpo que manifestou o amor, a ternura, a amizade, que foi marcado pela doença, por toda a história da pessoa. Um corpo cujas feridas estão chamadas a serem transfiguradas na Ressurreição. O corpo do defunto batizado tornou-se templo do Espírito, marcado pelos atos sacramentais da Igreja, alimentado pela Eucaristia. O modo como é honrado no funeral mostra a imensa dignidade de sua vocação para a eternidade. [14]

Depois o rito é expressão de uma teologia. Primeiro esta teologia expressa o laço entre a Páscoa de Cristo e a do defunto. Esta participação no mistério pascal de Cristo está ligada ao batismo, por meio do qual somos incorporados ao Cristo. O caráter pascal da morte é também marcado pelo fato de ser um verdadeiro “transitus”, passagem para a vida eterna, que é uma comunhão dos santos para a alma já purificada e que espera “in corpore” (no seu corpo) a ressurreição dos mortos.

Mais ainda, a teologia contida no ritual lembra que a Igreja não cessa de acreditar que a comunhão de todos os membros do Cristo “obtém para uns um socorro espiritual, oferecendo aos outros a consolação da esperança”.

Finalmente, o rito sublinha a importância de honrar os corpos dos defuntos, pois que eles foram templo do Espírito Santo.

Assim a proposta que fazemos é que precisamos evitar o perigo de manter nas expressões da piedade popular para com os defuntos, os elementos, ou aspectos inaceitáveis do culto pagão dos antepassados, como a invocação dos mortos por meio de práticas de adivinhas. Mais ainda, sendo cristãos, devemos nos familiarizar com o pensamento da morte e aceitar essa realidade na paz e serenidade, pois o Cristo morreu e ressuscitou.

Mas esta proposta de adaptação comporta, ao mesmo tempo, uma grande dificuldade diante das tradições enraizadas há muito no Vietnã.

 

[1] Os atos exteriores, por exemplo as inclinações, as prosternações, as oferendas são praticadas tanto no culto dos antepassados e nas cerimónias das obséquias. Mas têm o mesmo sentido?

[2] Ver a tese de DUONG QUYNH, Antoin “Un aperçu historique de la controverse en Chine” na adaptação dos ritos funerários cristãos em vista de uma inculturação no Vietname, ISL Paris 2001 p. 96-106.

[3] Ver Wieger, Histoire des Croyances religieuses en Chine, 1ère leçon – CADIERE, Croyances et pratiques religieuses des Vietnamiens, p. 266-273 – HOUANG, Âme chinoise et Christianisme, Ch. 1 TRAN VAN HIEN MINH, La conception confucéenne de l’homme, Saïgon 1962 p. 57.

[4] O estudo da filosofia da China e dos antigos livros em que se inspiram os ritos, leva a com- preender que o saacrifício oferecido aos antepassados constitui apenas uma homenagem de reconhecimento e de profundo respeito, que exclui qualquer implicação religiosa.

[5] Cf Sagrada Congregação da Propagação da Fé, “Instructio circa quasdarn ceremonias et juramentum super Ritibus Sinensibus” in AAS, 32 1940, p. 24-26 tradução francesa em DC 41, 1940 Col 183-185.

[6] Cf Alexandre de RHODES, Histoire du Royaume du Tonkin, Paris 1999 p. 70-77.

[7] Dom Pierre Célestin Lou Tseng Tsiang foi o 81º abade titular de Saint-Pierre-le-Grand, Abadia de Saint-André-les-Bruges.

[8] Dom P. C. Lou Tseng Tsiang, La rencontre des humanités et la découverte de l’Évangile, p. 51.

[9] Tran Van Chuong, Essai sur l’esprit du Droit sino-vietnamien, p. 17.

[10] HÔ Dac Diêm, La puissance paternelle dans le droit vietnamien, Paris 1928 p. 30.

[11] P. Cadiere, Ibid p. 41.

[12] Citado no conjunto dos documentos apresentados pelos padres Jesuítas à Santa Congregação, para responder às “questões sobre a China e seus vizinhos” (arquivos das Missões Estrangeiras).

[13] G. Goyau, Les prêtres des Missions Étrangères, Éditions Ouvrières, Paris, p. 24.

[14] Pierre Jounel, La célébration des Sacrements, Desclée, Paris 1983 p. 905.