Renunciar ao sono da morte

Irmão Ireneu Jonnart,
Abadia de Chevetogne (Bélgica)

 

“A vinda do Filho do Homem vai ser semelhante ao que aconteceu no tempo de Noé” (Mat 24,37): identificar a boa nova da salvação com a violência de um dilúvio que vai engolir todos os seres vivos, parece uma coisa inacei- tável. A não ser que se veja atrás deste quando apocalíp- tico, a chegada de um mundo novo, regenerado e rico em promessas - começar pela que o Senhor fez, quando disse que nunca iria fazer de novo tal destruição. (Gen 8,21) !

E de fato, o contexto evangélico convida a entender a referência a Noé, como um apelo à vigilância, à espera confiante de um acontecimento feliz, que se deve acolher desde já. Mas para isso convém acordar. É que o mundo está dormindo! Não se vê dormir, mas ontem como hoje ”comiam, bebiam, davam-se em casamento…” Mas há uma diferença entre uma existência biológica, indispensável – alimentar-se e procriar – e uma vida em plenitude, consistindo em pôr-se em diapasão com um élan vindo do além e que age na pessoa de modo irresistível, assim como o movimento do amor.

É esta vida em plenitude que vem a Noé, ao penetrar na arca, símbolo da interioridade humana mais profunda. Neste santuário está a fonte da luz e da vida, como o comutador a que se deve estar ligado. É lá também que reside o Filho do homem. Assim convém acolher a vida que dorme em cada um de nós. Isto exige uma purificação: tal é o sentido do dilúvio! Um banho que regenera o homem mergulhado no coração das águas primordiais, as dos primeiros dias do mundo, como as águas onde vive o feto, um batismo que acorda a memória profunda das origens da vida, em si e no seu desenvolvimento.

Mas e os outros homens que estão fora da arca salvadora? “Dois homens estarão no campo, um será tomado e o outro deixado”. Aqui como sempre que dois tipos de pessoas aparecem nos evangelhos, temos de ter consciência que os dois são um só, são as duas faces de uma mesma pessoa, ou seja nós mesmos.

Trata-se de purificar o velho homem que está em cada um de nós, a fim de fazer espaço, de deixar vir um homem novo, um ser despertado para a vida, capaz de se tornar vigilante. Uma pessoa vigilante, estando sempre não em estado de alerta permanente – velar não quer dizer vigiar – mas despertar para lutar contra a própria inércia e suas ideias concebidas sobre o que deve acontecer, pois “é na hora em que menos pensais que virá o Filho do homem”. Não se apoiar sobre esquemas de pensamento preestabelecidos, mas acolher o que vem. E pelos outros homens, pois vigiar consiste também em cuidar dos outros, vigiar pelos outros.

Tal é o ensinamento de Noé: ele tem consciência de uma certa responsabilidade na chegada de uma nova criação. Depois dele, cada um é convidado a experimen- tar que a purificação do mundo, e o desenvolvimento da Vida em plenitude passa por sua própria interioridade e acontece graças a sua capacidade de vigiar.