Humberto Rincón Fernandez, OSB
Abade do mosteiro da Epifania, Guatapé (Colômbia)

Eucaristia e serviço, missão de acolhimento
nos nossos mosteiros
Jo 13,1-15

 

“Amou-nos até ao fim” (Jo 13,1)

 

Orelato do lava-pés não evoca nada do que costumamos chamar de “Eucaristia”, resumido no gesto e nas palavras de Jesus sobre o pão e o vinho. No entanto no 4º Evangelho, a última Ceia, portanto a Eucaristia, é o lava-pés.

Dponto aos especialistas o cuidado de aprofundar o debate sobre o que aconteceu, realmente, durante a Ceia : ato sacramental sobre o pão e o vinho, ou ato profético do lava-pés, como o faziam os escravos? Li que parece que no começo da vida da Igreja os dois gestos estavam ligados, e que foi, pouco a pouco, por razões de facilidade que se privilegiou o do pão e do vinho.

O 1º versículo do cap. 13 do Evangelho de João é muito solene e muito profundo.

(13,1) “Antes da festa da Páscoa sabendo Jesus que chegara a sua hora, de passar deste mundo para o Pai, ele que amou os seus que estão no mundo, amou-os até ao fim.”

Estamos antes da festa da Páscoa, e Jesus prepara a celebração da sua Páscoa. Ele sabe que chegou a hora de passar deste mundo para o Pai, quer dizer a hora da sua glorificação, a hora de se manifestar definitivamente, de manifestar totalmente o Pai, de manifestar sua glória, seu ser, sua essência.

Jesus tinha mostrado ao longo de sua vida o seu amor pelos seus, mas agora, nesta hora, leva o amor até ao extremo, até ao fim, até às últimas consequências (até à morte, a morte de cruz, até à morte de um escravo crucificado).

(13,2) “Durante a refeição… (13,4) Jesus levanta- se da mesa, tira o manto, toma uma toalha com que se cinge (13,5) derrama água numa bacia e começa a lavar os pés de seus discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido.”

“Levanta-se da mesa”, quer dizer abandona o lugar que é o seu, o lugar de honra. Já tinha dito isso num outro texto do Evangelho. Quem é o maior? O que está à mesa, ou aquele que serve? Não é o que está à mesa? Ora eu estou no meio de vós como aquele que serve. (Luc 22, 27)

“Tira o manto”. São Paulo em Fil. 2, 6 e seguintes explica assim:

”Ele que tinha a condição divina, não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente. Mas esvaziou-se a si mesmo, assumiu a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens; E achado em figura de homem, humilhou-se e foi obediente até à morte e morte de cruz.”

“Começa a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido” o que significa que faz um trabalho próprio de escravo e dos servidores da casa, ou das mulheres, nessa sociedade patriarcal em que os homens ocupam o primeiro lugar. E na lógica do hino dos Filipenses, é este abaixamento que o faz Senhor, que o leva a ser exaltado, a receber o Nome, que está acima de todo o nome. Quer dizer que o leva a ser reconhecido como Filho de Deus, que Deus age assim com os homens, e que tal é o amor de Deus pelos seus.

(13,8) “Pedro diz-lhe: jamais me lavarás os pés”! Jesus respondeu-lhe: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (13,9). Simão Pedro respondeu-lhe: “Senhor não apenas os meus pés, mas também as mãos e a cabeça”.

Pedro, por respeito pelo mestre, ou talvez por falsa humildade, ou talvez por um cálculo premeditado (se me deixar lavar, ele vai-me pedir para fazer a mesma coisa), recusa o gesto de Jesus. É muito engajamento! Mas diante da ameaça de Jesus, anunciando-lhe que, sem isso, não terá parte com ele, quer dizer não teria sua amizade e perderia a relação de mestre-discípulo, reage e pede para ser todo lavado. Este gesto amoroso do Senhor parece tocá-lo profundamente.

(13,12) “Depois que lhes lavou os pés, retomou o seu manto, voltou à mesa novamente e lhes disse: “Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais de Mestre e de Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou (13,13). Se, portanto, eu, o Mestre e o Senhor vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns aos outros (13,14). Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (13,15).

Detalhe notável: Jesus retoma o manto, mas sem tirar a toalha com que se tinha cingido. Mesmo à mesa, continua servo, escravo. O fato de ser Senhor e Mestre, não o dispensa de continuar servo.

Depois vem a ordem que corresponde ao relato do pão e do vinho: “Fazei isto em memória de mim”. Esta expressão é utilizada ao mesmo tempo para o lava-pés e para a refeição da Ceia, a Eucaristia.

(13,14) Se vos lavei os pés, eu o Senhor e o Mestre, vós também deveis lavar os pés uns aos outros, pois é um exemplo que vos dou: o que eu fiz, fazei-o vós também.

Lavar os pés uns dos outros. Tal é o mandamento. Fazermo-nos escravos e servos do próximo, decorre da participação da Ceia do Senhor. Dar a vida, como ele fez, até às últimas consequências.

 O capítulo continua com o anúncio da traição de Judas e da negação de Pedro. Desde o começo está bem presente a possibilidade de que aqueles que participam da Ceia possam trair e negar o Mestre. Para o Senhor, pouco importa o que possa acontecer; ele continua a convidar-nos para a sua mesa, a mesa do seu amor e do não se admirar com nada.

Quero voltar ao outro gesto que nos é mais familiar: o do pão e do vinho. Jesus faz uma declaração sobre esses dois elementos. Identifica-se com eles: esse pão sou eu, que me dou por vós. Faço-me pão para ser rompido, partilhado, distribuído. Sou a vida entregue, partilhada. O vinho deste cálice é meu sangue que vai ser derramado para celebrar uma nova aliança. Este vinho é meu sangue derramado, para dar uma vida nova.

E depois encontramos a mesma ordem do capítulo 13 “Fazei isto em memória de mim”. A realização deste ato sacramental em cada Eucaristia nos compromete tanto como o lava-pés. Comer o corpo do Cristo e beber o seu sangue compromete-nos a ser, uns para os outros, um corpo dado, sem nada reter, totalmente; ser sangue derramado engaja-nos a dar a nossa vida, gota a gota, pelos outros.

Estes dois gestos têm relação com a vida monástica. A participação na Eucaristia deve traduzir-se na vida concreta de cada monge e de cada monja, no serviço do lava-pés, simbolicamente não somente no acolhimento e serviço dos hóspedes, o que é mais fácil, mas no de qualquer irmão ou irmã com quem partilhamos o mesmo ideal de vida.

Esta coerência entre Eucaristia e vida, que nos é pedida no acolhimento dos outros, deve ser total, a começar no nosso mosteiro, na comunidade. Não pode haver acolhimento autêntico do hóspede, sem uma vida fraterna verdadeira e autêntica no interior da comunidade monástica. Quer queiramos ou não, os hóspedes percebem isso quando visitam nossos mosteiros. Muitas vezes só têm contato com o porteiro, o hospedeiro, ou eventualmente um acompanhante espiritual, mas deixam nas mensagens escritas que fazem a gratidão para com todos os monges pelo testemunho de vida que dão, sua atenção, a comunhão fraterna, e também, mais fundamentalmente a relação com o Senhor, que perceberam nas celebrações e nas atenções discretas que receberam. Quando acontece serem testemunhas de divisão, de inveja, de maledicência, de incoerência de vida, percebem-no também. Não ousam expressar isso por escrito, mas falam e guardam um sabor amargo. É um contra testemunho.

Quando falamos de Eucaristia, falamos de comunidade. É a comunidade que celebra a Eucaristia. Uma pessoa sozinha, mesmo sendo padre, não pode celebrar uma Eucaristia (de fato a Apresentação Geral do Missal Romano (nº 252) exige que haja pelo menos um ministro para assistir o padre; somente em casos excepcionais e justificados que se pode celebrar sem um ministro, ou sem um fiel (nº 254). O Ite missa est é um envio no plural; isto significa que a missão que decorre da participação na Eucaristia, não é uma missão privada. Isto aplicado ao nosso tema significa que o hospedeiro ou a hospedeira que representa a comunidade não age como se o cargo fosse coisa sua. Isto quer dizer, aquele que está de serviço, que age em nome da comunidade, e não à margem, ou pior contra a comunidade. Em consequência, há também uma exigência para todos os monges e monjas: como assistem ao hospedeiro (a), atentos ao que fazem e disponíveis para dar uma ajuda?

O serviço da hospedaria é uma missão dada pelo superior ou superiora da comunidade. O hospedeiro (a) deve estar em comunhão com eles e mantê-los a par do que se passa na hospedaria.

 

São Bento, quando fala do acolhimento dos hóspedes, no cap.53 da Regra, nos envia ao primeiro gesto que comentamos: o do lava-pés. No Evangelho, o Cristo, o Mestre, lava os pés dos seus discípulos,seus irmãos, e convida-nos a lavar os pés mutuamente, como irmãos, a fazermo-nos escravos e servos do próximo, como ele fez. Na suaRegra, São Bento sublinha um ponto muito interessante: o hóspede não é somente um irmão, mas o Cristo em pessoa, que vem nos visitar.

“Que se recebam todos os hóspedes, que se apresentam, como ao próprio Cristo, pois ele mesmo disse: fui hóspede e me recebestes.”

É uma referência ao cap. 25 do Evangelho de São Mateus (Mt 25, 31-46) sobre o Juízo Final, aonde está dito: “Em verdade vos digo, cada vez que o fizestes a um destes irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (v. 40).

Isto significa para São Bento, que não é somente o sacramento do Corpo e do Sangue que envia para a missão do serviço do acolhimento no mosteiro, mas também o sacramento do irmão. Este tema volta muitas vezes na Regra : o irmão não somente representa o Cristo, mas é o próprio Cristo que nos vem visitar; é por isso que se deve ter o maior cuidado.

Creio que todos nós fazemos esta experiência: os hóspedes não são perturbadores, uma coisa que atrapalha e que devemos suportar na nossa vida monástica. São verdadeiras testemunhas do que fazemos e do modo como o fazemos, testemunhas da autenticidade do que fazemos, às vezes distraidamente ou como uma rotina. Eles mesmos nos dão o testemunho da força de sua fé e do esforço de coerência que tentam ter nas suas vidas, do modo como lutam na sua vida para ficarem fiéis, levando uma vida corajosa, lutando para ganhar o pão de cada dia, para gerirem bem sua casa, para serem responsáveis no trabalho, que não abandonam por qualquer motivo, etc.

Para concluir, gostaria ainda de citar São Bento. Nesse mesmo cap. 53, ele dá indicações sobre a escolha do hospedeiro. Como em todas as coisas no mosteiro, este serviço vive-se no temor de Deus, quer dizer na presença de Deus. Na fé, eu sei que minha vida está sempre presente a seus olhos. Não para me vigiar e ver minha falha, para me castigar, mas para me amar com seu olhar e seu amor miseri- cordioso. Sou amado por Deus e minha vida irradia esse amor nas minhas relações com os outros.

Vivemos tempos difíceis na Igreja, com o problema dos abusos sexuais sobre menores. Não vou abordar aqui essa questão, que não é do meu campo, mas gostaria de aproveitar o que o Papa desenvolve a esse respeito em várias de suas intervenções: o abuso sexual é precedido por abuso de poder e abuso de consciência.

O monge ou a monja representam uma realidade muito especial aos olhos dos fiéis e das pessoas que vêm ao mosteiro. Consideram-nos mais ou menos como santos. E isto cria em nós, inconscientemente a ideia que somos superiores aos outros. Isso significa ter poder. E a partir daí podemos cair facilmente no abuso de poder. Podemos aproveitar dos outros, especialmente dos hóspedes: para cumular carências afetivas, para ter amigos cheios de solicitude fora do mosteiro, para conseguir, de maneira indelicada, vantagens econômicas para o mosteiro, para que nos façam presentes, ou que nos venerem, ou o que é pior ainda, para desviar, em nosso proveito, os dons que os hóspedes deixam para o mosteiro.

Em tudo isto, cegos sobre o abuso de consciência, achamos facilmente razões para motivar nosso comportamento. Sou hospedeiro (a), tenho de ser amável com nossos visitantes, não posso ser frio, ou seco com eles… Não faço nada de mal (e nada de bem também)… Eu também preciso de compensações… Trabalho bastante para merecer uma recompensa, etc.

Lembremo-nos do que disse: nosso serviço de acolhimento está fundamentado na Eucaristia. Acolhemos e servimos aqueles que vêm ao mosteiro, pois queremos oferecer-lhes o humilde serviço de Cristo na última ceia, queremos dar nossa vida, como Ele. Nós acolhemos o hóspede e todos os visitantes, pois é a pessoa mesmo de Cristo que vem a nós. E tudo isto o fazemos com o coração puro, sem outras intenções, pois trata-se do próprio Cristo, nosso Senhor, que deu sua vida por nós, morrendo e ressuscitando.