Dom Armand Veilleux, OCSO
Abadia de Scourmont (Bélgica)

Dom Ambrose Southey

(1923-2013)

 

DAmbroseKevin Southey nasceu em Whitley Bay, na diocese de Hexham e Newcastle a 22 de janeiro de 1923. Alguns meses antes do seu 18º aniversário de nascimento, a 25 de setembro de 1940, entrava na Abadia de Mount Saint Bernard, Leicestershire. A Abadia, cujo encerramento fora levado a cabo pela Ordem alguns decênios antes, conhecia então um renovação de vida particularmente excepcional sob o abaciado de Dom Malachy Brasil, vindo de Roscrea em 1933.

O jovem noviço recebeu o nome de Ambrose quando da sua tomada de hábito. Fez a sua profissão solene em 1945 e foi ordenado presbítero em 1948. Alguns anos mais tarde, foi enviado a Roma para aí fazer estudos em Direito Canônico (1951-1953). Depois do regresso a Mount Saint Bernard, foi nomeado subprior e, no ano seguinte, prior. Quando Dom Malachy, muito afetado pela doença, apresentou a sua demissão, em 1959, após mais de vinte cinco anos de abaciado, Dom Ambrose foi eleito abade. Alguns anos mais tarde, em 1963, a comunidade de Mount Saint Bernard, sempre florescente, pôde fazer uma fundação em Bamenda, Camarões, e o seu jovem abade foi gradualmente assumindo importantes responsabilidades no seio da Ordem. Em 1964, era eleito Abade vicarial e em 1974 Abade Geral. Toda a sua vida iria em diante, estar estreitamente
ligada à da Ordem, num período particularmente importante da evolução desta. Era quase impossível recordar uma sem recordar a outra. Assim que Dom Ambrose Southey apresentou a sua demissão como Abade Geral da Ordem Cistercience da Estrita Observância no Capítulo Geral de 1990, a Santa Sé acabava de aprovar as nossas novas Constituições. Esta aprovação era o ápice de um longo processo de aggiornamento começado com o concílio Vaticano II. A humildade e discrição de Dom Ambrose eram tais, que poucos conheciam todo o papel que desempenhou neste processo desde o seu começo. Vale a pena recordá-lo.

No Capítulo Geral de janeiro de 1964, no qual Dom Ignace Gillet foi eleito Abade Geral, Dom Ambrose foi escolhido para Abade vicarial. Sob o regime das nossas antigas Constituições, este papel era mais importante do que é hoje. O Abade vicarial era o promotor do Capítulo Geral. Dom Ambrose fez-se notar nesta função de promotor pela sua capacidade de escuta e o seu igual respeito por cada pessoa do processo colegial.
O Capítulo Geral de 1964 foi assaz breve porque se tratava de um Capítulo de eleição de um novo Abade Geral, Dom Gabriel Sortais, falecido no outono, no princípio da segunda sessão do Concílio Vaticano II. A ordem do dia compreendia mesmo assim alguns outros pontos considerados urgentes. Tratava-se aí em particular da questão dos irmãos conversos longamente estudada sob o mandato de Dom Gabriel. O abade de Westmalle, Dom Edouard Wellens, pediu que não se adiasse a marcação de um novo Capítulo Geral, «vista a urgência e a importância das questões que muito preocupavam os elementos jovens e ferverosos das nossas comunidades» (Compte rendu, p. 11). Um pouco tomado desprevenido diante desta situação e não querendo dividir a questão, Dom Ignace decidiu criar uma comissão especial para estudá-la. Dom Ambrose recebia o cuidado de presidir a esta reunião.

Desde a abertura da reunião, Dom Ambrose precisou os objetivos deste: «Tratar-se-á de estudar a natureza e as origens das dificuldades experimentadas pelos jovens religiosos em certos países diante das formas exteriores da nossa vida, e de propor ao Padre Reverendíssimo conclusões ou “vota”, que poderão eventualmente ser submetidos ao Capítulo Geral». (Relatório, página 1 – Arquivos da Casa generalícia). Dom Ambrose conduziu com habilidade esta reunião que, no relatório que fez ao Abade Geral, propunha reunirem-se de novo para continuar a sua preparação do Capítulo Geral.

A segunda reunião, que teve lugar em Monte Cistello, em dezembro 1964, foi, como a primeira, presidida por Dom Ambrose. Jamais um Capítulo Geral fora tão bem preparado, de tal modo que o Capítulo de 1965 decidiu que uma comissão semelhante chamada
«Comissão de preparação» prepararia o Capítulo seguinte. Esta comissão ia tornar-se um importante órgão da Ordem.

Dom Ambrose estreou como Promotor no Capítulo Geral de 1965, que teve lugar antes da conclusão do Vaticano II. Era durante os três capítulos seguintes que a sabedoria e a perícia do novo Promotor iriam se revelar.

O Capítulo Geral de 1967 teve lugar em Cîteaux de 20 maio a 5 junho. A 6 agosto do ano anterior, Paulo VI promulgará o Motu Proprio Ecclesiae Sanctae dando um certo número de normas para aplicação de Perfectae caritatis. O documento previa para este período de renovação um Capítulo Geral especial, que poderia acontecer em várias sessões sucessivas e durar alguns anos. Ele dava assim a este Capítulo Geral o poder de aprovar ad experimentum um certo número de mudanças nas Constituições. O Capítulo Geral de 1967 permitiu pois às comunidades um certo número de experiências, em particular no domínio litúrgico.

O Abade Geral, Dom Ignace Gillet, estava sinceramente convencido de que algumas destas decisões, em particular o uso da língua vernacular na liturgia e a possibilidade de modificar a estrutura do Ofício divino, constituíam uma desobediência às decisões do Concílio. Algumas das suas intervenções junto da Congregação dos religiosos criaram um mal-estar na Ordem, tanto que quando da abertura do Capítulo de 1969, um importante número de capitulares eram da opinião que o Abade Geral devia apresentar a sua demissão. Num encontro pessoal de Dom Ambrose com Dom Ignace surge um compromisso que iria permitir ao Capítulo continuar o seu trabalho com serenidade. Este Capítulo, durante o qual se votou com quase unanimidade a Declaração sobre a vida cisterciense e o Estatuto sobre a unidade e o pluralismo, e onde se decidiu pedir à Santa Sé uma Lei-quadro permitindo uma renovação da liturgia a respeito da experiência espiritual de cada comunidade, foi uma virada na evolução da nossa Ordem na época moderna. Pôs-se também em marcha o processo de renovação das nossas Constituições que iria permanecer ativo até 1990.

Assim que Dom Ignace se demitiu no Capítulo de 1974, conformemente à intenção que havia exposto a Dom Ambrose no seu «encontro apoteótico» durante o Capítulo de 1969, este último foi eleito Abade Geral logo no primeiro escrutínio com uma grande maioria dos votos.

Logo após a eleição de Dom Ambrose, este anunciou com o fair play pelo qual era conhecido, por respeito para com a maioria dos capitulares que haviam votado a favor de um mandato com termo determinado, que se submeteria de novo ao voto dos capitulares quando do segundo Capítulo que se seguiria ao de 1974.

No decorrer do generalato de Dom Ambrose, e sobre a sua pacífica e apaziguante conduta, a Ordem abordou um determinado número de questões fundamentais, cuja solução permitiria terminar a redação das nossas Constituições. Foi o longo debate sobre a «colegialidade», objeto de árduas discussões entre as regiões da Ordem que apresentavam mais sensibilidades culturais diferentes do que divergências, concernindo as relações entre os dois ramos da Ordem, a feminina e a masculina. Estas trocas conduziram à visão de uma Ordem única composta por monges e monjas, sob a autoridade de dois Capítulos Gerais interdependentes. Uma evolução posterior conduzirá à aceitação pela Ordem e por Roma de um Capítulo único.

Dom Ambrose presidiu, durante este período, a três Capítulos Gerais de grande importância na história moderna da Ordem. Os primeiros a por em prática as novas Constituições foram os monges de Holyoke, nos Estados Unidos em 1984. No ano seguinte, as monjas do Escorial. Finalmente, a primeira RGM (Reunião Geral Mista) de Roma em 1987, onde monges e monjas estabeleceram o texto definitivo das suas Constituições, que após um exame pela Congregação dos Religiosos e das discussões com esta, foi promulgado por Roma no Pentecostes de 1990.

Fiel à sua promessa, Dom Ambrose manifestou ao fim de seis anos a vontade de apresentar a demissão ou de se submeter a uma votação do Capítulo. No que foi dissuadido, pois a opinião inteiramente unânime na Ordem era que ele devia permanecer no governo da Ordem até à conclusão do longo trabalho sobre as novas Constituições. Apresentou a sua demissão no Capítulo geral de setembro de 1990. Para todos e, em particular, para os que haviam vivido com ele vários Capítulos Gerais sucessivos, foi uma alegria ter a sua presença como convidado de honra em cada Capítulo Geral seguinte até ao de 2011.

O Abade Geral na Ordem Cisterciense da Estrita Observância pode exercer uma grande autoridade moral porque detém muito pouco poder jurídico. No Capítulo geral de 1951, após a demissão de Dom Dominique Nogues, Dom Gabriel Sortais, enquanto Abade vicarial, fez uma particularmente longa alocução explicando o que se esperava de um Abade Geral. Era uma espécie de «programa » que ele de resto pôs em prática ao longo do seu generalato de doze anos. Ele via-se como o irmão mais velho dos outros abades, ajudando-os a não se deixarem soçobrar nas circunstâncias difíceis. Regozijava-se pelos «poderes» muito limitados do Abade Geral vendo a sua autoridade na base da confiança, do afeto e da persuasão. (Ver Prestação de contas das Sessões, 1951, pp. 36-39)

Foi neste espírito que Dom Ambrose exerceu o seu serviço durante dezesseis anos. Tendo uma formação de canonista, sabia que o Capítulo Geral é um colégio e que um colégio é por natureza uma pessoa moral em que as decisões são tomadas com igualdade de direitos. Ninguém exerce a autoridade sobre o Capítulo, mas no seio deste há um Presidente que tem a responsabilidade de convocar o Capítulo, de estabelecer a agenda e de zelar para que todos possam exercer aí os seus direitos. Dom Ambrose sabia, através de intervenções pouco frequentes, exercer uma autoridade moral muito forte quando os valores fundamentais da Ordem eram postas em causa e que decisões importantes deviam ser tomadas.

Dom Gabriel Sortais havia habituado a Ordem a uma longa carta circular do Abade geral no princípio de cada ano. Dom Ambrose, tal como o seu predecessor, Dom Ignace, manteve esta tradição mas com um estilo próprio, muito apreciado. Enquanto as cartas circulares de Dom Gabriel se tornavam facilmente em longos tratados de vida espiritual, as de Dom Ambrose eram mais ao espírito dos Padres do monaquismo, uma partilha de experiência sobre questões bem concretas.

Tendo sempre permanecido si próprio sem se identificar com a sua função, Dom Ambrose, tornou-se naturalmente sub regula vel abbate, desde o momento da sua demissão. Pouco tempo depois, sondaram-no para um posto importante na Congregação dos Religiosos, no Vaticano. À pessoa encarregada de lhe perguntar se aceitaria uma tal função respondeu sem hesitar: «Vou falar ao meu abade». No dia seguinte, após ter dialogado com o seu abade, respondeu que tendo deixado o seu serviço de Abade Geral, não por estar fatigado, mas simplesmente porque pensava que era tempo para ele, após tantos anos de deslocações, regressar à vida monástica comum, não seria lógico nem coerente da sua parte aceitar um posto que o retirasse de novo do mosteiro. Isto não o impedia de permanecer disponível para servir a Ordem em situações mais humildes.

À época em que Dom Ambrose era jovem abade de Mount Saint Bernard, teve entre os seus monges o bem -aventurado Cyprian Tansi. Era pois normal que viajasse a Onitsha, na Nigéria, para a beatificação deste último por João Paulo II a 22 março 1998. Não era todos os dias que se podia assistir à beatificação de alguém de quem se foi abade! E contudo, durante todas estas festividades, Dom Ambrose, Abade Geral emérito, juntou-se com muita modéstia aos outros monges e monjas vindas para a circunstância, sem nunca tentar atrair sobre si as atenções.

DAmbrosetbA fundação monástica em vista da qual Michael Cyprian Tansi veio a Mount Saint Bernard não pôde realizar-se na Nigéria mas sim nos Camarões, em 1964, durante o abaciado de Dom Ambrose. Logo que, pouco tempo após a sua demissão como Abade Geral, a comunidade de Bamenda teve necessidade de um superior ad nutum, aceitou de boa vontade prestar este serviço. Fez o mesmo, alguns anos mais tarde em Scourmont, na Bélgica. Tendo a princípio aceitado este serviço em Scourmont por um ano, consentiu em permanecer aí um segundo ano, mas encarregou-se de procurar alguém mais jovem que pudesse assumir o serviço por pelo menos alguns anos. O que não o impediu de permanecer em Scourmont ainda alguns anos para aí preencher o cargo de mestre de noviços. De seguida, sempre no mesmo espírito de serviço, preencheu durante vários anos o ministério de capelão do mosteiro de Vitorchiano, na Itália, antes de regressar à sua Abadia de Mount Saint Bernard para aí viver pacificamente os últimos anos da sua vida.

Expirou em paz, pouco depois de ter participado na concelebração comunitária, na manhã de 24 agosto de 2013. Tinha 90 anos, 71 de profissão monástica e 64 de sacerdócio. Tinha quinze anos de abade da sua comunidade e dezesseis de Abade Geral.
Uma longa vida ao serviço de Deus e da Ordem num grande espírito de simplicidade e de modéstia.