Pr Roger Gil, neurologista
Diretor de um Espaço de reflexão ética (França)

 

As lições de vida de Paulo
Diante da doença e da morte

 

O New England Journal of Medecine (NEJM) tem como vocação publicar artigos ligados ao que se pode chamar de lado científico da medicina, justamente aquele que tem por objeto as novidades no plano do diagnóstico, preventivo ou curativo. Mas acontece, de tempos em tempos, que esta revista se abra para realidades humanas e éticas da medicina. O exemplo mais famoso é, sem dúvida, o artigo de Henry Beecher publicado em 1966[1] que provocou uma tomada de consciência da medicina ocidental, apresentando um certo número de trabalhos científicos que relatavam pesquisas feitas sobre o ser humano, e que não respeitavam a dignidade da pessoa humana. Em 2016 o NEJM prestou-lhe uma grande homenagem[2] mostrando assim que a reflexão ética não é um freio para a pesquisa, mas condição para sua humanização.

Em Agosto de 2018, o NEJM publicou um artigo que trata do lado humano da medicina, contando uma história clínica intitulada “Lições de vida de Paulo diante da morte”.[3]

Paulo é um rabino que morreu três anos depois de lhe ter sido diagnosticado um câncer do cólon já com muitas metástases. Tinha 64 anos quando dores abdominais levaram à descoberta de um câncer do cólon em estágio IV já espalhado. Fez uma colostomia (ânus artificial) por causa dos tratamentos mais inovadores que se seguiram e morreu 34 meses depois do diagnóstico. O autor do artigo, médico, e seu irmão, descreve três lições que Paulo deu aos seus, durante o tempo de vida que a medicina lhe proporcionou.

 

Olha para trás para aprender a viver voltado para o futuro

Paulo nunca tinha feito nenhum teste de câncer do cólon. Não lamentou a respeito disso nenhum arrependimento, e estava de acordo com a filosofia de Kierkegaard segundo a qual a vida deve estar voltada para o futuro, mas deve ser compreendida a partir do passado. Assim incentivou sua esposa e filhos a fazerem o exame do câncer. Sabia que não podia mudar nada daquilo que lhe acontecia, mas sabia que contando sua história, podia ajudar outros a não terem o mesmo destino que ele. Ajudou as pessoas que tinham medo de fazer o exame do câncer do colon, o desconforto do exame era passageiro, mas a recompensa durável.

 

Faz teu trabalho

Paulo, rabino, pertencia à corrente conservadora do judaísmo, um ramo entre os reformadores e os ortodoxos: tinha ideias de abertura e de inclusão, de respeito pela diversidade e pela fé dos outros. Apesar de sua doença, e mesmo quando passava por quimioterapias pesadas, permanecia a serviço de sua comunidade, assumia a presidência de cerimônias religiosas. Três meses antes de sua morte, oficiou o funeral de um membro de sua comunidade. E disse antes de morrer, esperava que pudessem fazer a mesma coisa por ele, quando da sua morte. E assim aconteceu.

 

Ter um objetivo

Por causa de sua doença o casamento de sua filha teve de ser adiado. Quarenta e oito horas antes das núpcias, foi hospitalizado com um sangramento intestinal. Reuniu todas as suas forças para estar presente algumas horas antes da cerimônia. Seus familiares próximos ajudaram-no a vestir-se e a juntar-se aos seus de cadeira de rodas. Falou então à família e aos amigos e disse-lhes que aquele fim-de-semana pertencia aos jovens esposos. E com seu jeito desarmante, encontrou as palavras para pôr cada um à vontade e pôs humor numa situação, que poderia ter sido vivida como dolorosa. Quando nessa noite seus familiares o ajudaram a deitar-se, era claro que ele tinha chegado ao objetivo. E dentro dos dez dias que se seguiram, escreve seu irmão, foi chamado para Deus.

E o autor diz que seu irmão fez o melhor uso possível desse tempo de prolongamento de vida que a ciência médica lhe concedeu. Seu irmão, tal como ele, estava reconhecido aos cientistas, aos médicos, aos doentes que aceitaram arriscar ensaios clínicos, graças aos quais ele pode beneficiar de novos medicamentos e ter mais tempo de vida. Mais de dois anos para uma doença que vinte anos atrás o teria levado a uma morte dolorosa em alguns meses. E ele usou desse tempo para ensinar como viver, e seus mais próximos usaram esse tempo para aprender a viver.

O progresso da medicina alcança o verdadeiro sentido permitindo às pessoas atingidas pela doença, de continuarem a dar sentido à vida. Pois é só assim que uma medicina, dita personalizada, mas que é uma medicina de alta precisão, que corre o risco de tornar-se desencarnada, fará aliança com uma medicina para a pessoa. Uma das missões da bioética é promover esta aliança.

 

 

[1] H.K.Beecher, “Ethics and Clinical Research” The New England Journal of Medicine 274 nº 24 (16 de Junho 1966): 1354-60, https//doi.org/10.1056/NEJM196606162742405.

[2] David S. Jones, Christine Grady, et Susan E. Lederer, «“Ethics and Clinical Researh” The 50th anniversary of Beecher’sBombshell», New England Journal of Medicine 374, nº 24 (16 juin 2016): https//doi.org/10.1056/NEJMms 1603756.

[3] Jeffrey M. Drazen, “Life Lessons from Paul in the face of Death”, The New England Journal of Medicine 379, nº 9 (30 agosto 2018): 808-9, https//doi.org/10.1056/NEJM p. 1808695.