Ser úteis a todos.
A propósito da Carta Caritatis

Dom Mauro-Giuseppe Lepori,
Abade Geral da Ordem Cisterciense

 

Excerto dos anelos de Dom Mauro-Giuseppe Lepori
às comunidades cistercienses para o ano de 2020

 

Pouco antes do Natal, 23 dezembro marcará exatamente o nono centenário da aprovação da Carta Caritatis. Ao longo deste ano, temos meditado e estudado este antigo documento que é com efeito o ato de nascimento da nossa Ordem. Com espanto, e alguma contrição, constatámos quanto é necessário à consciência e vitalidade da nossa identidade, do nosso carisma cisterciense marcado com o carisma fundamental de São Bento.

[…] Não serve da nada celebrar e estudar, organizar colóquios, se os impulsos que o Espírito Santo mete nos textos fundadores não nos estimularem à vida, a viver mais intensamente a nossa vocação hoje, na situação atual da Ordem, da Igreja e do mundo.

 

Desejar o bem de todos

[…] Talvez devêssemos prestar a nossa atenção sobre a dimensão católica, no sentido literal do termo, a dimensão «universal», com a qual os nossos primeiros padres conceberam a fidelidade à sua vocação monástica.

Parece-me tudo resumido numa frase do primeiro capítulo: «Prodesse enim illis omnibusque sanctae Ecclesiae filii cupientes – Desejando ser-lhes [quer dizer aos abades e aos monges] úteis, assim como a todos os filhos da Santa Igreja». A Carta explica de seguida os domínios e meios pelos quais queremos tornar explícito e eficaz este desejo do bem para a Ordem e para toda a Igreja, mas penso que devemos antes de tudo apropriarmo-nos deste desejo do bem e seu alcance universal, porque é como o sopro que pode dar e voltar a dar sentido e vitalidade a tudo o que a nossa vocação nos dá e nos pede que vivamos. […]

 

O centro que unifica e irradia

A Igreja nasceu do lado aberto de Cristo, como Eva do lado aberto de Adão. Os Padres da Igreja meditaram muito sobre este mistério. E os primeiros cistercienses parecem ter tirado a Carta Caritatis precisamente da contemplação deste mistério que une a caridade, a Igreja e a salvação do mundo. A insistência deste documento sobre a caridade e a salvação das almas concentra-se no desejo ardente (cupientes) de ser úteis (prodesse) a todos os filhos da santa Igreja. Tal é a definição da caridade de Cristo expressa na Hora pascal em que se oferece pela salvação do mundo, engendrando da Cruz a Igreja, esposa do Salvador e mãe dos redimidos. […]

Estar conscientes de que a nossa vocação e missão de cristãos e de monges e monjas irradia sempre e somente deste mistério ajuda-nos a não nos dispersarmos, a nada dispersar na nossa vida, pensamentos, palavras e ações, os nossos esforços. Se com frequência é tão custoso nos mosteiros gerir o tempo e as atividades, para viver as relações humanas na harmonia e na misericórdia, para gerir em particular as fragilidades nas quais nos parecemos afundar, isto vem sobretudo de uma falta de atenção ao mistério central da salvação, a nossa e a dos outros. Se pelo contrário o centro é claro e se o preferirmos a tudo, então tudo o que somos e vivemos pode irradiá-lo.

 

Prodesse

A palavra que devemos então sublinhar na Carta Caritatis, lá onde ela fala do desejo ardente de servir todos os filhos da Igreja – e os filhos da Igreja são todos os seres humanos, porque a Igreja é chamada a ser uma Mãe que transmite a vida de Cristo a toda a humanidade –, a palavra que define a fecundidade da nossa vida e vocação é pois o verbo latino prodesse que significa literalmente «Ser para», logo servir, ser útil, ser um bem para os outros.

O ardente desejo de ser úteis a todos é o desejo que Deus deu especialmente à criatura humana, feita à sua imagem de Pai e Criador e abençoada para ser fecunda engendrando: «Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, e criou-os homem e mulher. Deus abençoou-os e disse-lhes: “Sede fecundos e multiplicai-vos…”» (Gn 1,27-28).

Não somos verdadeiramente humanos se não desejarmos transmitir a vida, se não quisermos ser úteis aos outros mais do que a nós mesmos. Em Cristo, é-nos dado ser plenamente humanos, plenamente fecundos através da maternidade universal da Igreja, tanto pelo casamento como pela virgindade. Esta fecundidade é sempre possível, porque é uma fecundidade da graça, operada pelo mesmo Espírito Santo que, realizando o impossível, fecundou o seio da Virgem Maria para dar nascimento ao Filho de Deus na nossa humanidade.

 

Como o grão de trigo

Na situação atual do mundo e da Igreja e das nossas comunidades, muitos duvidam que uma fecundidade da nossa vida e vocação ainda seja possível. Como é pois possível ser fecundos diminuindo, e mais ainda morrendo?

A Igreja vem constantemente lembrar-nos que o que não é possível às nossas forças e capacidades é sempre possível à fé e ao amor que lançam com esperança, como semente na terra, a situação na qual nos encontramos. O que torna também a morte fecunda é o amor com o qual lançamos a nossa vida no dom esponsal de Cristo à Igreja para que ela possa engendrar filhos de Deus no mundo inteiro.

Mas isto não é somente o segredo da fecundidade da morte: é antes de tudo o segredo da fecundidade da vida. Aqueles que creem poder dar fruto sem morrer para si mesmos permanecem estéreis, mesmo se aos olhos do mundo tudo parece assegurar o seu sucesso. […]

No momento da aprovação da Carta Caritatis, Cister havia engendrado doze mosteiros. Eram pois treze, como Jesus com os doze apóstolos. Eles sabiam que eram ainda pequenos e frágeis, mas sentiam uma força que os fazia crescer, que os projetava em frente. Acima de tudo, estavam conscientes, à luz do Evangelho, que o seu sucesso não estava ligado ao poder ou ao número, mas totalmente contido no desejo de dar a vida pelo reino de Deus. Tendo compreendido bem a advertência de São Bento ao abade, que deve ser mais cioso de servir que de dominar – «prodesse magis quam praeesse» (RB 64, 8) – o seu desejo não estava em triunfar, em conquistar espaços de poder, mas em ser úteis, na Igreja e à Igreja, sacrificando-se, perdendo a vida no serviço a Cristo, para a vida do mundo. A vida do mundo está em que todos os homens se tornem filhos de Deus. […]

 

O nosso carisma

Prodesse. Devemos reapropriar-nos desta pequena palavra que sozinha pode tornar bela, alegre e útil a nossa vida, as nossas comunidades, qualquer que seja o estado em que se encontrem, e também a Igreja inteira, com todos os seus tesouros de graça, mas também as suas fragilidades humanas. […] Fazia-nos bem confrontar com este termo a vida e a experiência das nossas comunidades e pessoas, na situação em que se encontrem hoje, neste tempo de transição que vivem a Igreja e a sociedade inteira, talvez no meio do drama de uma crise política e social como aquela em que vivem, para dar um exemplo, as nossas irmãs da Bolívia. Fazia-nos bem comparar o que vivemos com a frescura sempre nova do desejo dos nossos padres em serem úteis à Igreja universal e ao mundo inteiro.

Prodesse omnibus, ser úteis a todos: como este desejo e esta vocação julgam eles a maneira frequentemente instintiva e talvez autorreferencial com a qual julgamos os nossos problemas, crises, e com a qual procuramos uma solução? Somos verdadeiramente animados por este desejo do bem para todos, ou pensamos que a solução seria a que beneficiaria apenas a nós? Temos a fé em que a pobreza, a fraqueza e mesmo a morte, vividos em Cristo, podem elas também, ser úteis ao mundo inteiro? […]

Como é belo, como é necessário e urgente, que todas as nossas comunidades, com todos os monges e monjas que as compõem, com todas as pessoas unidas ao nosso carisma, possam voltar a ser capazes de formular com as nossas vidas esta palavra transmitida pelos nossos padres, «prodesse», «como o esposo que sai da câmara nupcial» (Ps 18,6), quer dizer, como Jesus nascido da Virgem para fazer a todos os homens o dom da sua presença, do seu amor, da sua salvação!