Dom Jean-Pierre Longeat, OSB
Presidente da AIM

A empresa de caixões de New Melleray[1]

 

Uma maravilha, mas também quanto trabalho no belíssimo terreno do mosteiro de New Melleray, perto de Dubuque no estado de Iowa, nos Estados Unidos, com cerca de 1376 hectares de mata e de terras agrícolas! Hoje menos numerosos e envelhecidos do que no passado, os monges continuam a aproveitar do lugar, mas tiveram de procurar o que seria suscetível de produzir rendimentos suficientes, sem ser esmagados pelo peso do trabalho.

O tempo em que a Abadia de New Melleray tinha 150 monges vivendo do trabalho de uma fazenda diversificada, com vacas leiteiras e porcos, passou há mais de uma geração. Ao longo dos últimos anos a Abadia apoiou-se nas doações dos hóspedes, das aposentadorias dos monges mais velhos, da venda de soja e milho biológicos, mas tudo isso junto não cobria o conjunto das despesas anuais.

New Melleray não é a única Abadia a ter de enfrentar tais exigências econômicas. É verdade, a vida monástica beneditina considera o trabalho como parte integrante do seu carisma. Mas com o acento sempre mais colocado na tecnologia e na internet, sobre normas de segurança e imperativos de lei, a noção de trabalho mudou e os monges tiveram de se adaptar.

A comunidade de Melleray teve de procurar um modo de ganhar a vida compatível com a vida monástica. Os monges votaram o fim de sua empresa de alimentação animal, em parte porque não lhes deixava bastante tempo para a vida contemplativa. Havia um sentimento de insatisfação em alguns que diziam: “eu não entrei no mosteiro para trabalhar numa fábrica”.

NMelleray2Os monges pensaram então em criar uma fábrica de móveis, mas um homem de negócios, amigo, dissuadiu-os. Mais ou menos na mesma época, um agricultor vizinho que tinha descoberto o interesse do comércio de caixões, pediu-lhes para fazerem esse tipo de produto nos ateliers do mosteiro. A coisa parecia interessante e instalou-se uma colaboração, depois que a comunidade deliberou sobre a proposta. Parecia um trabalho indicado para monges, pois para eles, segundo São Bento, cada hora do dia deve ser recebida como a mais impor tante, a da passagem para o Pai.

É um leigo que administra a fábrica de caixões para os trapistas e supervisiona os trabalhadores: os monges que colaboram começam às 9,30, fazem uma pausa para a oração e a refeição do meio-dia, retornam ao trabalho duas horas mais tarde; e largam martelos e serras às 16h30, antes de irem para as vésperas.

Uma pessoa leiga é também empregada como “conselheira das famílias que procuram os caixões trapistas”. Ela encontra pessoas de todo o país no momento importante de suas encomendas: é um contato muito rico em que se pode ver o Espírito Santo trabalhando, por meio dos monges, os clientes e os empregados, escutando a vida e as histórias do fim de vida no seio dessas famílias.

No mosteiro, tudo é vivido em função do serviço de conforto e consolação de que as famílias precisam. Cada caixão é feito num espírito de oração contemplativa. Cada caixão é benzido depois da compra, para marcar o começo da última viagem.

NMelleray1Cada pessoa que pediu um caixão, ou uma urna trapista, é citada durante a missa, na Abadia. Os nomes dos defuntos estão inscritos num livro comemorativo e uma árvore foi plantada na mata monástica situada ao lado de New Melleray ; é um memorial vivo para o defunto. Uma carta é enviada às famílias para lhes dizer como podem ajudar o ministério dos monges, assim como uma carta por ocasião do 1º aniversário da morte. Os monges da Abadia New Melleray rezam pelos defuntos e por suas famílias. Todas as famílias são convidadas a participar na missa comemorativa, a visitar o atelier e a informar-se sobre a vida e as atividades da comunidade. Todos os clientes são convidados a ter contato com os monges, cada vez que o desejarem.

Cada caixão é entregue com uma cruz, que é personalizada com o nome gravado e as datas do defunto. Esta lembrança familiar é um meio de honrar cada dia a memória de um ente querido.

Os caixões feitos em madeira de lei maciça, vêm da natureza e voltam à natureza. É um gesto de reconhecimento pelos dons de Deus. O atelier de New Melleray não se contenta em fornecer um produto, mas vive esse trabalho como uma participação na obra de amor e da misericórdia de Cristo.

 

[1] Este artigo foi escrito a partir de várias fontes de informação.