Colóquio internacional

Colégio dos Bernardinos, Paris, 16 e 17 outubro de 2019


A Carta de Caridade (1119-2019)

Um documento para preservar
a unidade entre as comunidades[1]


Éric Delaissé,

Responsável pelo CERCCIS, Cîteaux

 

A Associação para a Irradiação da Cultura Cisterciense (ARCCIS), em parceria com o Colégio dos Bernardinos e a Fundação dos mosteiros, organizou um colóquio em Paris a 16 e 17 de outubro passados, a propósito da história e atualidade de um texto fundamental, que festeja o seu nono centenário.

Cister tinha sido fundado em 1098. O ano 1113 viu nascer a sua primeira filha : La Ferté. A entrada de Bernardo de Fontaine e dos seus companheiros em Cister iria rapidamente suscitar o estabelecimento de novas filhas. É neste contexto que é preciso compreender a redação da Carta da Caridade . O texto nasce do cuidado do abade Estevão Harding em organizar as relações entre Cister e as novas comunidades que dela saíram. Importa salvaguardar para os monges o espírito de Cister nos novos estabelecimentos e de regular as relações entre os mosteiros. O prólogo da Carta precisa ainda que «este decreto devia trazer o nome de Carta da Caridade porque o seu teor, rejeitando o fardo de toda a renda material, persegue unicamente a caridade e a utilidade das almas nas coisas divinas e humanas».

Se festejamos o nono centenário da Carta, é preciso todavia notar que este texto conheceu vários estados. A sua redação começou provavelmente a partir de 1114, mas prossegue, bem após a morte de Estevão, ao longo do século 12. Geralmente, distingue-se quatro estados deste documento essencial: 1) A Carta de caridade e de unanimidade, hoje perdida; 2) a Carta de caridade anterior, aprovada pelo papa em 1119; 3) o Resumo da Carta da caridade, produzida por volta de 1124; 4) a Carta de caridade posterior, aprovada por Alexandre III em 1165, mas uma primeira vez por Eugénio III em 1152.

O texto aprovado em 1119 nota já os princípios essenciais que devem reger as comunidades cistercienses. O primeiro capítulo da Carta indica que «a Igreja-mãe [a Abadia fundadora] não reclamará da sua filha nenhuma contribuição de ordem material». Um outro aspecto diz respeito à regra de São Bento. Neste sentido, o capítulo segundo sublinha que «a Regra será compreendida e observada por todos de uma só maneira ». Esta unanimidade traduz-se ainda através do terceiro capítulo segundo o qual «todos terão os mesmos livros litúrgicos e os mesmos costumes». Em outros capítulos do texto, regulando as relações entre as Abadias, importa notar que a Carta da Caridade dota a ordem cisterciense de mecanismos essenciais ao seu bom funcionamento. É assim que o quinto capítulo institui uma visita anual da Igreja-mãe à sua filha : cada ano, o abade da Igreja-mãe deve visitar todas as comunidades por ela fundadas. Da mesma forma, o sétimo capítulo estabelece um «capítulo geral dos abades em Cister»: todos os abades cistercienses devem apresentar-se uma vez por ano em Cister para uma reunião geral.

Após uma introdução por Dom Olivier Quenardel (Abadia Nossa Senhora de Cister), o colóquio que teve lugar em Paris a 16 e 17 de outubro reuniu, em torno de sete pontos, historiadores, monges e monjas, mas também dirigentes do mundo empresarial para fazer o elo sobre a história e a atualidade deste texto quase milenar. Cinco pontos são ligados à história. O primeiro era consagrado à Carta da Caridade no século 12 e às suas diferentes versões. Neste quadro, Alexis Grélois (Universidade de Rouen) tratou da génese e da evolução do texto falando da importância de empreender um estudo sério da datação do documento e sublinhando a reavaliação necessária do papel do episcopado na sua elaboração («Génese e evolução da Carta da Caridade no século 12»). Estudando as versões da Carta Caritatis, Monika Dihsmaier (Heidelberg) interessou-se por sua vez mais particularmente pelos mecanismos de tomadas de decisão, quando dos capítulos gerais («Entscheidungsfindung und die Versionen der Carta Caritatis»).

O segundo ponto do colóquio visava o papel de Estevão Harding e de Bernardo de Claraval na construção da ordem cisterciense. Ao longo da sua intervenção, Brian Patrick McGuire (Roskilde Universitet) demonstrou que não obstante a envergadura de São Bernardo, a sua marca é indectável na Carta Caritatis. Ele interessou-se pelas relações entre Bernardo e Estevão, tendo este último um papel central para estabelecer a estrutura da ordem («Abbot Stephen of Cîteux and Abbot Bernard of Clairvaux : Bonds of Charity?»). Quanto ao padre Alkuin Schachenmayr (Abadia de Heiligenkreuz), tratou de Estevão como autor presumido da Carta Caritatis. Neste contexto, ele inclinou-se sobre a percepção deste abade – notoriamente sobre a sua veneração – ao longo dos tempos («Abbot Stephen as Purported Author of the Carta Caritatis»). A intervenção de Martha G. Newman (University of Texas) constituía um terceiro ponto do colóquio, ligando-se ao estudo do lugar da Carta Caritatis nos textos do fim dos séculos 12 e 13 («The Benedictine Rule and the Narrow Path: The Place of the Charter of Charity in the Exordium Magnum and other late twelfth-century Cistercian texts»). Ela demonstrou que nenhum texto deste período apresenta a Carta Caritatis como o fator caraterístico central do modo de vida cisterciense: eles insistem mais sobre os elementos específicos contidos na Carta, como o Capítulo Geral e a visita do abade-pai à casa-filha. Um quarto ponto do colóquio era consagrado à aplicação da Carta Caritatis. Constance Berman (University of Iowa) interessou-se por pôr em prática este texto («The Charter of Charity in Practice»). A sua intervenção demonstrou que, nos anos 1170, a preservação da paz e da caridade aparecem como um cuidado recorrente nas cartas. Quanto a Jörg Oberste (Universität Regensburg), interrogou-se sobre o que permitiu aos cistercienses manter o espírito da sua fundação (Auf neuen Wegen Altes bewahren – Was leistete die zisterziensische Ordensverfassung des 12.und.13 Jahrhunderts?). Ele indicou que a Carta Caritatis não deve ser compreendida como uma constituição no sentido de um simples sistema jurídico, mas que visa mais proteger a Regra e a vida ascética praticada em Cister. A Carta como fonte de inspiração em outras ordens religiosas, foi o objeto de um quinto ponto do colóquio. Neste quadro, Guido Cariboni (Università Cattolica, de Milão) tratou dos cônegos regulares, concentrando-se em particular sobre a rede canônica saída de Saint Martin de Laon («La Carta Caritatis quale documento per fondare un’abbazia »). A sua intervenção demonstrou que os documentos provenientes de Saint Martin de Laon e as suas filiações apresentam elementos retirados dos cistercienses; em certos casos, antecipam mesmo a experiência de Cister tal como aparece nas primeiras versões da Carta Caritatis.

Certas partes do colóquio apresentaram aspectos mais ligados à atualidade. É assim que um sexto ponto dava uma abertura ao management na sociedade civil. Hubert de Boisredon, presidente-diretor geral de Armor, empresa especialista das tintas e consumíveis de impressão, ofereceu assim uma releitura dos princípios da Carta Caritatis sob um ângulo empresarial («A Carta Caritatis, fonte de inspiração para sociedades de um mesmo grupo»). Enfim, um sétimo e último ponto deste colóquio foi consagrado à Carta Caritatis vivida hoje no seio da família cisterciense. Nesta ótica, uma mesa redonda reuniu representantes das comunidades monásticas da família cisterciense: Dom Vladimir Gaudrat (Abadia de Lérins, Ordem cisterciense), Dom Jean-Marc Chéné (Abadia Nossa Senhora de Bellefontaine, Ordem cisterciense da estrita observância), Madre Mary Helen Jackson (mosteiro Nossa Senhora de La Plaine, Cistercienses Bernardinas d’Esquermes). O colóquio terminou com uma intervenção do padre Gérard Joyau (Abadia Nossa Senhora de Scourmount): ele interessou-se pelo lugar da regra de São Bento no processo de unidade das comunidades cistercienses («A regra de São Bento, fundamento da unidade das Abadias cistercienses segundo a Carta Caritatis»). Pôde notar o quanto a Carta Caritatis, documento com nove séculos, é ainda um texto para a família cisterciense de hoje, com os mecanismos institucionais que perduram no respeito da tradição de cada um dos componentes da mesma família.

[1] Cortesia da revista Collectanea Cisterciensia.