Apresentação do 12º encontro
monástico latino-americano (EMLA)

Padre Enrique Contreras, OSB

Presidente da EMLA

 

Seis anos após o último encontro dos mosteiros da América Latina (EMLA), que aconteceu no México, vivemos uma nova reunião sobre a vida monástica no nosso continente.

A organização foi confiada à Conferência das comunidades monásticas do Cono-Sur (SURCO), pois este serviço gira em torno das três zonas ou regiões nas quais a União monástica latino-americana está dividida. As duas outras são a ABECCA (Associação Beneditina-Cisterciense do Caribe e dos Andes), que compreende a UBC (União Beneditina e Cisterciense do México) e a CIMBRA (Confe- rência de Intercâmbio Monástico do Brasil).

 

Encontro Monástico

O costume dos «encontros» é muito antigo no monaquismo cristão. Desde a origem, encontramos testemunhos desta prática. Assim, no texto fundador da nossa vida monástica, a Vida de Santo Antão, escrita por Atanásio de Alexandria a meio do século 4º, lemos:

«Numa certa ocasião, os monges pediram a Antão que viesse visitá-los e observá-los, assim como os lugares (onde viviam) durante algum tempo; o qual se pôs a caminho com os monges que vieram buscá-lo. Um camelo transportava pão e água para eles, porque aquele deserto era muito seco, e não se encontrava água potável, salvo naquela montanha isolada de onde o trouxeram e onde Antão se entregava à ascese. Durante o caminho, esgotou-se a água. Fazia muito calor e todos perigavam. Procuraram nos arredores sem encontrar água, não podendo mais caminhar; caíram então por terra ; desesperados, deixaram o camelo partir. O velho homem, vendo que todos estavam em perigo, aflito e gemendo profundamente, afastou-se deles, ajoelhou-se e levantou as mãos em oração. Nesse preciso momento, o Senhor fez brotar água no mesmo lugar onde ele orava. Então todos beberam e recuperaram forças. Após se terem reabastecido, procuraram o camelo e encontraram-no. Com efeito, as cordas haviam ficado presas numa pedra e o camelo não pudera prosseguir. Os monges desataram-no, deram-lhe de beber, e carregaram-no com as provisões de água. Puderam então seguir caminho sem perigo.

Assim que chegaram aos mosteiros exteriores, todos, vendo Antão como um pai, o abraçaram. E ele, como se tivesse trazido as provisões da montanha, alimentou-os com palavras e distribuiu por eles um benefício espiritual. Nas montanhas (ele tinha) a verdadeira alegria, zelo para progredir e reconforto pela confiança mútua (cf. Rm 1,12)».

O texto citado transmite certos ensinamentos importantes. Sobretudo, o desejo de partilhar a experiência de vida e os ensinamentos de um grande santo.

Entretanto, para que este desejo possa concretizar-se, é preciso fazer uma longa viagem, não isenta de perigo e sem sérias dificuldades. Uma vez ultrapassados os obstáculos, a reunião permite-lhes tirar proveito com grande alegria de uma troca feliz.

 

EMLA

EMLAConfAo longo dos anos, os encontros latino-americanos confirmaram muitas e muitas vezes a importância e o feliz desejo de partilhar as dificuldades e as alegrias da nossa vocação comum entre as monjas e os monges. É o objetivo principal da estrutura do nosso EMLA.

Acrescento de imediato que a história desta estrutura nem sempre foi fácil, bem pelo contrário. Mas a necessidade de um encorajamento mútuo prevaleceu sempre através de uma troca frutuosa das nossas experiências do carisma monástico.

A Vida de Santo Antão mostra-nos que as viagens, mesmo que hoje não comportem mais os mesmos riscos de então, não devem ser encorajadas com ligeireza : longas distâncias, longas horas de trajeto em avião, em camionete ou carro, longas filas de espera. Os perigos de hoje, por vezes mais importantes que os dos nossos predecessores, testam a paciência monástica tão frequentemente citada. Entretanto, as dificuldades são sempre largamente ultrapassadas pelas grandes vantagens de que nos beneficiamos em nossos encontros. Podemos sintetizá-los com as palavras do salmista : «Que doçura, que delícia, viver juntos e ser unidos» (Ps 132,1).

 

Os frutos do EMLA

A vida de Santo Antão sintetiza de maneira admirável os frutos do encontro fraternal. Antes de mais, a partilha do alimento das palavras que nos fornecem um benefício espiritual de qualidade. De seguida, a alegria e o desejo ardente de progredir na vida espiritual. Em terceiro, o reconforto que deriva da confiança mútua.

Assim, nos nossos encontros, alimentamo-nos do pão da palavra e do pão da Eucaristia. Era precisamente o tema central do 12º encontro do EMLA: «Eucaristia e vida monástica ». E por acaso, este encontro começou a jornada com a celebração da memória de São Jerônimo, este verdadeiro apaixonado pela palavra de Deus.

Partilhamos igualmente o alimento fornecido por conferências, mesas redondas, reuniões de grupo, assembleias plenárias, trocas pessoais. E tudo isto com a certeza absoluta dos benefícios espirituais. Pudemos constatar, não somente neste EMLA, mas também nas precedentes, a alegria profunda que prova que não estamos sós no caminho de e para Cristo. Queremos renovar-nos no desejo sincero e ardente de progredir na vida segundo o Espírito.

 

Qualquer coisa de especial

EMLABrocheroA Vida de Santo Antão falou-nos de reconforto graças à confiança mútua. No nosso 12º EMLA, isto traduz-se fundamentalmente em duas palavras: simplicidade e harmonia. Com efeito, uma simplicidade harmoniosa caracterizava tudo o que foi vivido na vida cotidiana, nas reuniões e, de maneira particular, na nossa peregrinação ao santuário de la Cura Brochero, como um manto invisível, sobre os lugares da casa pastoral e espiritual que fundou e animou São José Gabriel de Rosario Brochero, e que está sempre em atividade.

As comparações nunca são apropriadas. Resisto pois a toda a forma de expressão que daí resultasse: «Era melhor se…». Pelo contrário, após ter participado em vários EMLA, pude novamente reconhecer como o Espírito Santo nos guiava através de um caminho de progresso espiritual contínuo, não obstante os nossos numerosos limites humanos.

O 12º encontro confirma-nos a necessidade de viajar para estarmos juntos, encontrar-se, participar, dialogar. Poder sustentar o nosso progresso espiritual com alegria, beneficiando das palavras que nos reforçam e nos renovam, a fim de seguir a Cristo com mais devoção.

 

Um desejo e uma inquietude

Parece-me que o nosso 12º EMLA suscitou um desejo quase espontâneo de aprofundar a nossa experiência da lectio divina. Este tema surgiu muitas vezes, de modo esporádico, ao acaso dos encontros, mas merecia um tratamento mais extenso, mais aprofundado que abra o caminho a uma renovação desta prática essencial da vida monástica cristã.

Uma preocupação, talvez demasiado pessoal, que eu ressinto em cada EMLA: nosso retorno às fontes, aos ensinamentos dos padres do monaquismo. É verdade que as solicitações do nosso tempo são numerosas, assim como os desafios aos quais devemos fazer face diante da realidade de uma época complexa. Mas isto nos isenta de rever atentamente os ensinamentos que os nossos pais nos legaram na vida monástica? Em todo o caso, o EMLA confirma mais ainda, para cada um, com uma nova e maior urgência, a necessidade de nos encontrarmos para continuar a crescer na confiança e alegria de saber que Deus Pai no seu Filho ama-nos até ao extremo (cf. Jo 13,1); e isto sustem-nos na nossa vocação monástica comum. Como o ensinou a Vida de Santo Antão, apoiando-se nos ensinamentos de São Paulo: «Possamos encorajar-nos mutuamente… pela fé que nos é comum, a vós e a mim (Rm 1,12).