Irmã Maria Consuelo Tavares, OSB


1. Olhando as fontes monásticas

Nós, Irmãs Beneditinas Missionárias de Tutzing tentamos viver no cotidiano, os elementos essenciais da vida monástica, resgatando na tradição beneditina a dimensão missionária, pensamento que inspirou o nosso fundador P. Andréas Amrhein.

Bresil1Olhando a tradição monástica, encontramos já em Antão uma preocupação em ajudar os seus irmãos: vez por outra saía do seu eremitério para confirmar os seus irmãos na fé e oferecer-lhes o que tinha a mais do seu sustento diário. Foi exatamente a ajuda dos cristãos a Pacômio, quando prisioneiro, que abriu o seu coração à fé dos cristãos e decidiu enveredar pelo caminho da vida monástica, sem tão pouco descuidar–se dos seus irmãos necessitados. Basílio, concretizando o seu ideal comunitário fraterno, tinha uma preocupação em acolher os seus irmãos o ajudar-lhes em suas necessidades espirituais e materiais. Afirma–se que foi ele que primeiro falou em um lugar específico para doentes, dando assim origem aos hospitais que hoje conhecemos. Por ter feito a experiência de um monaquismo urbano, sentia a necessidade, como pastor, de prover as reais necessidades de suas ovelhas.

Apoiado na tradição oriental, Bento tenta fazer uma síntese do vivido no Oriente e Ocidente monástico. Experimentando a solidão de Subiaco, após apropriar-se da experiência de saborear as Escrituras e os ensinamentos dos Padres da Igreja, não resiste ao mandato de anunciar o Evangelho àqueles que não conheciam. Assim, evangeliza os pastores, cura os doentes e conforta a todos que acorrem a ele com sede de uma palavra de alento para as suas aflições. Bento recomendava um cuidado especial para os que acorriam à porta do mosteiro: “logo que alguém bater ou um pobre chamar, responda “Deo gratias” ou “Benedic” e com toda mansidão do temor de Deus, responda com presteza e o fervor da caridade” (RB 66, 3–4). Com esta atitude de acolhimento, Bento nos ensina quão importante é olhar para os necessitados que chegam continuamente às nossas comunidades, repartindo com eles o que somos e o que temos, mesmo com todas as implicações do tempo de Bento e as do nosso mundo contemporâneo.

Ancorados na tradição de saída, de peregrinar, de partida, é que grande parte da Europa foi evangelizada pelos beneditinos. Esta realidade calou bem forte no coração e na mente do nosso fundador Pe. Andréas, que tentou atualizar no século XIX esse fervor inicial da nossa tradição. E assim, em 1884, funda o ramo masculino dos beneditinos missionários e em 1885, o ramo feminino das Irmãs Beneditinas Missionárias, cujo Jubileu de 125 anos de fundação é celebrado este ano.




ATUALIZANDO A EXPERIÊNCIA

Concretizando o carisma beneditino missionário, desde os primeiros envios das Irmãs para os países de missão, houve uma preocupação de viver o carisma monástico de oração pessoal, litúrgica e vida comunitária, como suportes para a missão, que por sua vez, foi sempre um elemento fundamental. A partir da comunidade é que a evangelização e o trabalho social encontram a sua razão de ser. Em todas as comunidades espalhadas pela Europa, Ásia, África e América acentua–se a dimensão social da fé, ou seja, evangelizar a partir da realidade concreta, numa visão integral da pessoa humana.

Bresil2Aqui no Brasil, particularmente no Nordeste, marcado por uma acentuada desigualdade social, dificuldades climáticas e menos investimentos governamentais, torna–se uma exigência evangélica, imperativa para unir a Evangelização e promoção social. Por esta razão é que foram criados Centros Sociais para o trabalho de resgate da dignidade humana de crianças, adolescentes e adultos.

Em Caruaru temos o Centro Social S. José do Monte, onde crianças e jovens em situações de risco são acolhidos, orientados e introduzidos em cursos profissionalizantes que lhes garantam uma geração de renda e lhes permitam sair das ruas. Igualmente, em Casa Caiada – Olinda, há um Centro Social, onde crianças freqüentam a Creche, recebem alimento e são iniciadas na Educação formal. Mães carentes participam de cursos profissionalizantes, aproveitando material reciclável, para a geração de renda familiar. Por sua vez a terceira idade tem também o seu espaço, no sentido de receberem orientações geriátricas que lhes oportunizam uma melhor qualidade de vida.

No Sul da Bahia, junto ao trabalho de Evangelização em 36 comunidades rurais, mantemos parceria com o Programa de combate a seca no Semiárido Nordestino.

A tarefa especifica das Irmãs, consiste em mobilizar as comunidades para que organizados construam cisternas para a captação da água da chuva, com a finalidade de minimizar os efeitos das longas estiagens. É um trabalho feito em mutirão, acompanhado e incentivado, gerando o compromisso de buscarem juntos a melhoria de vida. O governo e entidades internacionais como a TAUFKIRCHEN, financiam o Programa, enquanto os destinatários participam com a mão de obra, promovendo então uma cultura de solidariedade.

Bresil3Em Olinda, na Favela Campo do V.8 vivenciamos também o grande desafio da Evangelização e promoção humana. Anunciar o Evangelho onde mínimas condições de vida se fazem presentes. Contamos, no entanto, com um grande aliado D. Hélder Câmara.

Nos seus inícios a Favela era um grande LIXÃO, trazendo graves conseqüências para os moradores. Certo dia, D. Hélder escutando os clamores dos pobres pronuncia com voz firme: “a partir de hoje, qualquer caçamba de lixo que for despejada aqui, será sobre mim”... A partir de então, a sua voz foi ouvida e desviaram o lixo para um outro local. A luta continuou. Em parceria com os evangélicos tentamos mobilizar as pessoas para a construção das casas em mutirão. Num primeiro momento foram construídas 45 casas em mutirão pelas mulheres da comunidade, que agrupadas em grupos de 15 construíam uma casa após outra. A Associação de Moradores apelou para os poderes públicos para que a comunidade pudesse alcançar uma melhor qualidade de vida.

O trabalho de Evangelização e promoção humana nesta Favela tornou–se um espaço privilegiado de formação para as nossas formandas, que diariamente se dirigem à comunidade para dar aulas na Escola Comunitária, que fora implantada também, por sugestão de D. Hélder. Apesar dos muitos desafios ainda existentes por causa do tráfico de drogas, alcoolismo, subemprego, já percebemos uma melhoria nas condições de vida de cerca de 3.000 pessoas que habitam na comunidade.

Através do Programa de Urbanização de Favelas, já há saneamento básico, limpeza do canal que corta a Favela, bem como a construção de casas de alvenaria, para que as pessoas retirassem suas casas da margem do canal.

Bresil4Nos últimos 2 anos foi implantada a Pastoral da Criança, que visa organizar as pessoas, identificar líderes familiares como as mães grávidas e crianças menores de 6 anos. Os líderes que se dispõem voluntariamente a trabalhar, o fazem movidos pela FÉ com o fim de salvar vidas, através de ações básicas de saúde, nutrição, educação e cidadania, tendo normalmente encontros para discutir os problemas vivenciados na comunidade e encontrar possíveis soluções. As nossas formandas estão engajadas neste trabalho, e o fazem ao lado da Evangelização de grupos de mulheres, crianças e adolescentes. Com certeza expressamos o nosso carisma missionário através das ações sociais que nos fazem acolher o grito dos mais pobres, que por sua vez, nos possibilitam concretizar o ensinamento de Jesus: “o que fizerdes ao menor dos meus irmãos, é a mim que o fareis” (Mt. 25,40). 

A dimensão social da FÉ enraiza–nos mais na fonte de onde brota a força do nosso agir, numa tentativa de viver no hoje da história o que inspirou o nosso fundador P. Andréas Amrhein ao afirmar: “a caridade deve ser a virtude característica dos mensageiros da FÉ”.

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