ESTADIA NO MOSTEIRO DE THIÊN PHƯỚC:
UMA EXPERIÊNCIA DELICIOSA

Dom Thomas Cole, OSB

Narrativa interessante, humorística e agradável
de uma estadia no Mosteiro de Thiên Phước, no Vietnã.


fthomas«Muito bem, já estou de volta!» ou «Estou lá e cá»: tais eram meus pensamentos quando, sob um céu carregado, estava no aeroporto de Aberdeen esperando um ônibus cujo horário e itinerário haviam mudado durante minha breve ausência. Pessoas esquisitas passavam diante de mim, algumas maldizendo a empresa do ônibus em questão, outras correndo para se abrigarem enquanto a chuva fria continuava caindo com sua acolhida glacial. Que contraste com a doçura outonal na Baía de Pently, o calor e o sol do Vietnã no mês de maio. Respirei fundo, expirei e depois olhei com lassidão para o frio vapor branco que se levantava à minha frente. Apesar disso, as lembranças dos irmãos de Thiên Phước, tão distantes, tão diferentes, dissiparam aquela triste atmosfera de chuva.

Minha passagem pelo Vietnã, no outro lado do mundo, naqueles trópicos tórridos sob um sol escaldante, deveu-se a duas razões: a primeira é que eu estava retornando à Grã-Bretanha depois de uma visita a meus pais, na Nova Zelândia, que festejavam ambos 80 anos, e o Vietnã é uma boa escala a meio-caminho; a segunda prendia-se ao desejo de fazer uma visita fraterna a uma Província da Congregação de Subiaco, num país em vias de desenvolvimento, bastante diferente da minha. Em certo sentido, era para encontrar o «outro» que também é meu irmão e concretizar a implementação de laços fraternos entre casas tão diferentes da Congregação de Subiaco, estimulada pelo 17º Capítulo Geral (Praglia 2004). Minha curiosidade ficara aguçada pelos relatórios elogiosos de D. Philip Lawrence, Abade de Christ-in-the-Desert(1), sobre o monaquismo vietnamita e por um artigo de Me. Agnes Lê Thị Tố Hương, Prioresa do Mosteiro de Thủ Đức, publicado no Boletim da AIM(2).

ctethienphuocMeu Abade autorizou-me gentilmente a passar seis dias no Vietnã, no Mosteiro de Thiên Phước, situado na, ou melhor, sufocado pela periferia em constante expansão de Hồ Chí Minh Ville (ex-Sài Gòn). Permanecer numa casa me daria ocasião de «saborear» e entrar no ritmo monástico dos irmãos, o que evidentemente era um dos objetivos principais daquela visita fraterna: ir ao encontro e à descoberta dos irmãos de um outro Mosteiro. Semelhante experiência permitiu-me aumentar o conhecimento geral da Congregação e da Igreja do Vietnã. O catolicismo não é um recém-chegado no Vietnã e não sem influência em sua cultura, como descobri; missionários lá aportaram individualmente desde os primórdios do século XVI (em torno de 1533); em 1659 foi erigido o Vicariato Apostólico do Tonquim; e em 1665 foi fundado o primeiro seminário. Missionário e prodigioso protagonista de conversões, o jesuíta Alexandre de Rhodes (1591-1660), apoiando-se no trabalho realizado antes dele pelos missionários portugueses, desenvolveu uma escrita fonética com caracteres latinos (Quốc Ngữ) que, no começo do século XX, substituiu o antigo método vietnamita de escrita por pictogramas.

Hoje, a presença católica não se esconde mais, apesar do regime comunista: malgrado as perseguições, os cerca de 7 milhões de católicos (uma das maiores populações católicas da Ásia), ou seja, 7% da população do Vietnã, com um total de quase 86 milhões de habitantes, e alguns 11% dos mais de 8 milhões de Hồ Chí Minh Ville(3), conservaram suas inúmeras igrejas e santuários nas redondezas dessa cidade.

Até em restaurantes de proprietários católicos, há representações da Sagrada Família expostas com orgulho nas salas destinadas ao público, como constatei por ocasião de uma excursão ao Santuário de Vṹng Tàu, situado à beira-mar. As igrejas ficam repletas durante as Missas e os sinos tocam a todo volume e se fazem ouvir sem constrangimento nas cidades: até parece haver uma competição entre os sinos de Thiên Phước e os da paróquia católica vizinha tocados pelo sacristão!

A Congregação de Subiaco chegou relativamente tarde no contexto católico do Vietnã. Com efeito, foi somente em 1940 que a Abadia francesa de La Pierre-qui-Vire fez uma fundação monástica em Thiên An, nas cercanias de Huế, a antiga capital imperial. De Thiên An partiram os outros três Mosteiros da Província: Thiên Hǒa, fundado em 1962 e ainda dependente de Thiên An; Thiên Bình, fundado em 1970 a 60 km de Hồ Chí Minh Ville; e Thiên Phước, fundado em 1972 com dez monges, nos arrabaldes de Sài Gòn. Essas fundações serviram para acolher os monges excedentes dos outros Mosteiros, no período do aumento de vocações, bem como os de Thiên An, que buscavam refúgio durante o difícil período da guerra do Vietnã(4). Huế, localizada exatamente ao sul da fronteira com o Vietnã do Norte comunista foi invadida diversas vezes durante o período de 1954-1975.

Em abril de 1975, com o controle total do Sul pelas forças do Norte e a unificação oficial do Vietnã no ano seguinte, começou um período de hostilidade contra a Igreja, muito sofrimento e uma situação econômica difícil. Felizmente, os acontecimentos deram uma reviravolta mais favorável quando as autoridades comunistas lançaram a política de renovação (Dôi Mói), que abriu a economia e promoveu uma gradual distensão das restrições impostas à Igreja. Em 2011, sobreveio uma maior liberalização. O resultado, para a Província Vietnamita, foi um substancial aumento de vocações a partir de fins dos anos noventa.

Aí está, em rápidas pinceladas, uma visão do Vietnã e da Congregação de Subiaco nesse país.

Minha experiência pessoal do monaquismo beneditino no Vietnã começou depois de nove horas de vôo de Auckland, com uma escala de seis horas no aeroporto de Changi, em Singapura, e um «salto» relativamente curto de uma hora e meia até Hồ Chí Minh Ville (ex-Sài Gòn). Ao sair, depois de alguns minutos, do moderno e espaçoso terminal do aeroporto de Tân Sơn Nhất, fui recepcionado por dois pacientes confrades, monges do Mosteiro de Thiên (Celeste) Phước (Paz): Thầy (Irmão) Benoît Vũ Văn Triệu e Thầy Jean Hạnh B(5). O monges vietnamitas recebem o nome de um santo (normalmente em francês, devido à influência da língua francesa no período colonial), embora continuem freqüentemente usando, ao mesmo tempo, seus nomes vietnamitas, o que de início provocou uma certa confusão para um estrangeiro como eu.

A primeira coisa que me chamou a atenção em Sài Gòn, quando saí do aeroporto, foi o tráfego congestionado; as ruas estavam repletas de «motonetas», caminhões e ônibus. O meio de transporte mais popular é a «motoneta»(6). Foi na traseira de uma dessas geringonças (o Mosteiro tem umas trinta delas, mas nenhum carro; penso que as autoridades civis tornam muito onerosa a aquisição de um automóvel, seja em procedimentos administrativos... como em doações de dinheiro) que levaram-me, certo dia, a um Mosteiro de monjas beneditinas (da Congregação de Santa Batilde), em Thầy Đức A (existe mais de um Đức aqui) e, já no final de minha estadia, ao centro de Sài Gòn para visitar o antigo palácio imperial e a catedral católica.

Eu ocupava a parte mais cômoda, sentado na traseira; tudo o que eu tinha a fazer era rezar para que o homem à nossa frente, que transportava um carregamento de compridos tubos metálicos, não freasse bruscamente; ou que pudéssemos abrir um caminho seguro através dos cruzamentos onde o tráfego, vindo de quatro direções diferentes, se misturava e dançava num fluxo ininterrupto de trajetórias entrelaçadas. Nos locais onde havia semáforos, parece que eles estavam ali mais como enfeite do que para organizar a circulação. Eu ainda não consigo ter certeza de que lado da rua os vietnamitas dirigem, pois as onipresentes motonetas se aproveitam dos menores espaços: o acostamento ou as passagens de pedestres, nas principais artérias, servem como vias auxiliares para as motonetas e bicicletas que circulam tranqüilamente na contramão.

A movimentação frenética das ruas empalidece quando comparada à acolhida fraterna que me foi reservada durante minha inteira estadia em Thiên Phước. À minha chegada no Mosteiro, localizado no final de uma estrada de terra batida, cercado de barracos com produtos frescos (inclusive cestos com peixes ainda se agitando), afastado da rodovia principal bastante movimentada, o antigo Superior, P. Beda, atual Subprior, estava a postos para me cumprimentar, visto que o novo Superior, P. Michel, havia saído naquele momento. Fomos imediatamente à igreja do Mosteiro para rezar juntos um Pai-nosso, uma Ave-Maria e um Glória ao Pai: nossa fé e nossa linguagem comuns logo me fizeram sentir em casa. P. Beda teve muitas dificuldades como Superior depois da derrota do Sul, em 1975: durante vários anos, o governo negou autorização à comunidade para receber novas vocações; também não permitia que se fizesse qualquer construção e nem que fossem proprietários do local, impondo ainda limitações aos deslocamentos e atividades dos monges.

Embora lentamente cercado pelas construções dos subúrbios que vão cada vez mais ocupando terreno, o Mosteiro de Thiên Phước conserva uma aparência tranqüila de granja cercada por um imenso cinturão de arrozais, pastos para os animais e hortas que separam os edifícios monásticos das moradias mais próximas. O aspecto tropical é inconfundível: as grandes palmeiras no claustro, as amendoeiras e toda uma luxuriante vegetação, favorecida pelo calor e pelas chuvas de monção que caem toda tarde, o sol escaldante e os arrozais. O único problema no horizonte dessa ilha de paz é o projeto do Conselho local de alargar e pavimentar as estradas em torno do Mosteiro e, por conseguinte, «arranhar» as terras do Mosteiro sem nenhuma compensação financeira.

thienbinhDurante os seis dias seguintes, fiz a experiência da renomada hospitalidade dos beneditinos vietnamitas. Cada dia, Thầy Jean Hạnh B vinha trazer em minha cela(7) sucos de diferentes sabores de deliciosas frutas vietnamitas, além de se ocupar com pequenos serviços para mim; Thầy Benoît Triệu me servia de guia no interior do Mosteiro e em diversas excursões que havia gentilmente organizado para mim. P. Michel servia-me constantemente os alimentos à mesa (chegando até a descascar as frutas e os ovos – não creio que Dom Abade vá fazer o mesmo em Pluscarden!). A maior parte dos membros da comunidade me dirigia a palavra em um ou outro momento, e a cada manhã me perguntavam se eu havia dormido bem à noite. Por momentos cheguei a me perguntar se meus hospedeiros não se haviam confundido, tomando-me por um notável eclesiástico, vindo incógnito, pois, além dessas atenções todas, colocaram-me à mesa no lugar de honra e sentado ao lado do Superior durante os Ofícios. Mas não: o que eu descobri foi a atenção dos vietnamitas com relação a seus convidados, reforçada ainda mais pela luz de Cristo e do espírito beneditino. Uma lição para mim!

Ora

eglisephuocO momento mais importante de cada dia é, sem dúvida, a Santa Missa e o Ofício Divino, celebrados na igreja do Mosteiro. O dia da comunidade começa com as Laudes, às 04h15 (as Vigílias são rezadas na véspera, à noite, depois das Completas, às 19h30); segue-se a Missa e a meditação logo depois desta. A Sexta, às 10h55, é precedida pela lectio divina em grupos e seguida pelo almoço; a Noa às 13h30, depois da sesta, e as Vésperas, às 17h00, com um tempo de meditação santificam a parte da tarde. Em Thiên Phước, como nos outros Mosteiros vietnamitas por onde passei, os monges não ficam uns voltados para os outros, de cada lado coro, mas sim voltados para o altar, numa única direção, separados ao meio por uma ala.

Qual não foi minha alegria cantar os salmos em vietnamita, de maneira responsorial e, algumas vezes, a quatro vozes! Pobre P. Michel que teve de suportar minhas tentativas de cantar em vietnamita, uma língua com seis tonalidades diferentes e um número desconcertante de vogais. Tudo é cantado com convicção e entusiasmo viril, apesar do calor intenso que fazia alguns dos irmãos mais novos inclinarem a cabeça na direção dos ventiladores elétricos instalados na parede. Mesmo às 4h30, a temperatura era de 30 graus e as únicas coisas que se movimentavam eram as hélices dos ventiladores e as pequenas lagartixas que, apoiando-se nas paredes, atacavam os insetos perto das lâmpadas.

Enquanto estava sentado na igreja com os irmãos, comecei distraidamente a contá-los: 79... mas, quem era aquele grupo de homens de camisas brancas nos bancos de trás? Fui informado que era o segundo grupo de postulantes do ano. O número total era de 90 (a maioria com menos de 40 anos). Nem todos chegariam até os votos solenes, talvez uns 60 a 70%. A explosão do número de vocações, desde o final dos anos 1990, quando o governo começou a suspender as restrições ao ingresso nos noviciados monásticos, se reflete em toda a Província Vietnamita, com um número total de monges tendo feito seus votos que passou de 52, em 1990, a 114, em 2000, e 217, em 2008. Por ocasião de minha visita, em maio de 2008, Thiên Phước tinha 55 monges de votos temporários e solenes, 14 noviços e 21 postulantes. Realmente, as cifras em Thiên Phước são tais que, apesar da construção recente de novos dormitórios e de uma ala específica compreendendo a sala capitular, a biblioteca e a sala de informática..., que formam os três lados de um largo claustro ajardinado, a comunidade está se preparando para fundar um novo Mosteiro em Buôn Me Thuột. Além disso, a Província do Vietnã está projetando fazer uma fundação no norte da Tailândia.

A viagem de um dia organizada para visitar a zona costeira de Vṹng Tàu (chamada pelos franceses de «Cap Saint Jacques»), a 130 km de Hồ Chí Minh Ville, foi para mim uma ilustração da vitalidade da vida religiosa no Vietnã. No caminho, paramos no Mosteiro de Thiên  Bình, comunidade irmã de Thiên  Phước, onde os Irmãos Christophe Đức e Simon Hǒa Lê nos fizeram visitar a vasta propriedade rural e as instalações industriais (tanques de piscicultura, fábrica de molho de peixe, plantações...). Havia ali uns 50 monges além de numerosos postulantes. Não muito distante, na mesma estrada, está o Mosteiro cisterciense (da Comum Observância) de Phước Lộc com seu imenso conjunto de construções que abrigam 200 monges. Chegando em Vṹng Tàu, paramos no Convento de uma Congregação de vida ativa, fundada no Vietnã, no século XVII, chamada «Amantes da Cruz»(8). As Irmãs são em torno de 900, em sua Província, mas a Congregação conta com mais de 2.000 religiosas, dedicadas ao trabalho de assistência social e à direção de jardins de infância (apenas estes têm licença para funcionar, pois as escolas católicas ainda não são permitidas pelo governo).

Assim, num raio de 130 km de Hồ Chí Minh Ville, havia três mosteiros masculinos: Thiên  Phước, Thiên  Bình, Phước Lộc, todos super-cheios de vocações jovens. Seria negligência de minha parte não mencionar o Mosteiro de Thủ Đức, situado nas proximidades de Thiên  Phước, com 60 monjas de clausura, que faz parte da Congregação de Santa Batilde, afiliada à Congregação de Subiaco. A vida religiosa é, portanto, florescente e revela um rosto jovial.

Num país em vias de desenvolvimento como o Vietnã, onde o desejo de uma vida melhor pode impulsionar as pessoas a escolher a vida religiosa, os Superiores têm tomado cuidado na seleção e na filtragem dos candidatos. Nos estágios iniciais, os candidatos são freqüentemente recebidos por algum tempo antes de se tornarem postulantes; no caso de Thiên Bình, existe até uma casa para os pré-postulantes no terreno do Mosteiro. Em Thiên  Phước, todos os candidatos devem ter concluído seus estudos secundários, alguns entram com diploma universitário e a maior parte tem entre 18 e 25 anos (alguns têm mais de 30). Muitos passam por um longo período de votos temporários (nove anos no máximo, de acordo com a lei canônica) antes de serem admitidos aos votos solenes. 

Há também dificuldades com tantos monges jovens e poucos monges mais velhos: a formação em filosofia e em teologia apresenta graves problemas devido à falta de formadores. Alguns monges de Thiên  Phước vão a um instituto franciscano, distante vários quilômetros (enfrentando diariamente o perigoso tráfego de motonetas), para assistir as aulas de filosofia e teologia. Aliás, para minha grande surpresa, fiquei sabendo que os manuais dos cursos são em inglês, embora as aulas sejam ministradas em vietnamita. Aqui está uma outra dificuldade: a língua inglesa ainda não é bastante conhecida e, entretanto, é necessária, bem como o francês, para os estudos superiores monásticos e teológicos. Além do instituto franciscano, uma alternativa para outro grupo é estudar com os cistercienses de Phước Lộc, onde está sua escola teológica. Ir estudar em países estrangeiros é caro e a obtenção de vistos de entrada para os países desenvolvidos com institutos de formação adequados, é muito difícil. Porém, ironia do destino, é facílimo para os vietnamitas obterem de seu próprio governo vistos de saída.

Não posso deixar de evocar minha experiência culinária em Thiên  Phước. Para manter a vitalidade de uma comunidade grande, a boa cozinha vietnamita é farta. Os vietnamitas acreditam no comer bem e no serviço mútuo que representa a preparação dos alimentos. Permitam-me dizer-lhes que mesmo os cafés da manhã ordinários, em Thiên  Phước, ultrapassam qualquer um dos três cafés da manhã especiais que temos em Pluscarden, por ocasião do tempo natalino: um prato fundo de «pho» (caldo de carne bovina temperado com picados de carne, macarrão e feijão de soja) acompanhado de ervas aromáticas, pequenas bananas açucaradas, manga, café vietnamita (uma pequena xícara de café forte, preparado individualmente, com leite condensado doce, que se mistura com uma colher – há toda uma arte para isso!) e generosas doses de chá verde para ajudar a digerir tudo. Felizmente, eu aprendi com meus pais a ter boa resistência, de modo que senti-me em condições de enfrentar o café da manhã, o almoço... e o jantar; essas duas refeição são tão variadas que só posso me lembrar, de maneira geral, que a alimentação vietnamita é muito boa e contém muito pouca gordura. Em razão da situação geográfica, os frutos tropicais são facilmente encontrados e a bom preço o ano inteiro, e constituem as sobremesas básicas em todas as refeições. Os únicos alimentos que me recusei a tomar foram ovos em estado embrionário e passarinhos fritos (com bico e tudo). Uma coisa que observei: à mesa não há nem sal nem pimenta: são substituídos por molho de peixe e pedaços de limão verde. É interessante notar que durante o café da manhã (6h30) e o jantar (18h00) ouve-se as emissões da Rádio Veritas ou da Rádio Vaticano. Durante o almoço, a leitura se parece com uma sessão de depoimentos em que as testemunhas se sucedem umas às outras, com os leitores se substituindo um após o outro.

As refeições são um bom momento para se observar uma comunidade em ação. Aqui não posso deixar de admirar o alegre entusiasmo dos serventes e os dedicados cuidados dos monges cozinheiros na preparação dos pratos, mesmo os mais simples. Foi também durante um jantar especial (em que se podia falar) por ocasião da festa onomástica de P. Beda, coincidindo naquele ano com a solenidade de Corpus Christi, que tive o privilégio de conhecer o Abade Visitador da Província Vietnamita, Dom Stéphane Huynh Quang Sanh, Abade de Thiên An, e de um oblato do Mosteiro, Jean-Pierre Lâm Vǒ Hoàng. Este último deu-me um testemunho da misericórdia de Deus para consigo, pois, após de ter servido na administração de Thiệu, antes da derrota do Sul, foi aprisionado pelos novos dirigentes num campo de reeducação e, em seguida, devido a suas competências em matéria econômica, tornou-se conselheiro especial do Primeiro Ministro do Vietnã. Em meio a tudo isso, inclusive a perda de sua casa e de sua condição social, sua fé permaneceu intacta pela graça de Deus.

Labora!

vachesSe os vietnamitas comem bem é porque trabalham duro. Mesmo se, em Thiên  Phước, muitos jovens monges ainda estão estudando, todos se ocupam com o trabalho manual, organizado de modo beneditino entre os ofícios, de 9h30 às 10h30 e de 14h00 às 16h00. Há também um espaço de tempo reservado seja para os estudos, seja para as aulas ou ainda para os trabalhos, entre 7h30 e 9h30, de acordo com a função do monge no Mosteiro. Para que o leitor tenha uma rápida idéia da diversidade de ocupações habitualmente realizadas nesse Mosteiro, segue aqui uma relação delas: preparar as três principais refeições do dia para uma comunidade numerosa numa cozinha equipada com grandes fogões a lenha (gás e eletricidade são muito dispendiosos), com temperatura de 32º C e muito úmida; trabalho nos arrozais e nas hortas em torno do Mosteiro; limpeza e conservação da casa e de uma grande hospedaria; manutenção das motonetas; cultura de crisântemos para venda; alfaiataria e conserto das roupas dos monges (alguns modelos de camisetas, bonés e outros artigos são fabricados para venda); aulas para a comunidade; criação em vários tanques bastante grandes de peixes (grandes e saborosos), agrião e caracóis d’água; cuidar do pequeno rebanho de vacas leiteiras brâmanes; e ainda a assistência espiritual como capelães de casas religiosas femininas e o atendimento de confissões.

A hospitalidade em Thiên  Phước, bem como na maior parte dos Mosteiros beneditinos, ocupa um lugar importante: cerca de 2.000 hóspedes por ano, em sua maioria sacerdotes e religiosos, são recebidos na hospedaria para retiros. O movimento permanente de visitantes, durante o dia, denota a influência considerável que o Mosteiro exerce sobre a população local, católica ou não. Por ocasião das grandes festas, tais como Natal, Páscoa, Todos os Santos, Finados e Tết (Ano Novo vietnamita), a multidão de peregrinos é tão grande que há, provavelmente, cerca de mil pessoas para receber o sacramento da reconciliação. Uma das conseqüências dessa irradiação beneditina são as pessoas, cerca de quarenta ou até mais pessoas, que a cada ano são recebidas no seio da Igreja, em Thiên  Phước.

Agora, alguns meses depois de meu retorno, o frio e a chuva diminuíram mais na Escócia, mas não – ainda bem! – a recordação das pessoas que conheci e dos fatos que vivenciei no Vietnã. Chego até a exibir, em lembrança daquela minha estadia, o engraçado mini-hábito tão cuidadosamente confeccionado pelos irmãos de Thiên  Phước (um blusão curto, cortado sob medida, com capuz, que os monges podem usar ao invés do «clergyman» quando saem do Mosteiro para algum afazer). Não preciso dizer o respeito que tenho por esse traje «ad usum», já utilizado por mim, orgulhosamente, quando fui fazer compras em Elgin. Que grandes sinais de esperança para a Igreja tive o privilégio de ver, mas também quantos desafios! Que limite existe aí para o poder do Senhor, «qui deposuit potentes de sede, et exaltavit humiles, esurientes implevit bonis»? 

São estas algumas de minhas modestas observações após uma breve permanência de seis dias em Thiên  Phước, merecidamente chamado «paz celestial», em meio à agitação de Hồ Chí Minh Ville, no extremo sul do Vietnã. Queira o leitor perdoar minhas involuntárias inexatidões e que os monges de Thiên Phước aceitem meus profundos e públicos agradecimentos pela verdadeiramente fraterna acolhida beneditina: Tạm biệt hẹn gặp lại. Adeus e até à vista.

In Memoriam Inhaxio Hoàng Anh, OSB, 1965-2008 – R.I.P.

Dom Thomas Cole, OSB, é monge da Abadia de Pluscarden, em Elgin (Escócia)

usineTraduzido do inglês por Eugênio Fonseca de Medeiros

(1) A Abadia de Christ-in-the-Desert (nos Estados Unidos) faz parte de nossa Província Anglo-Americana da Congregação de Subiaco O.S.B.

(2) Boletim da AIM 2007, n. 89: A atração dos jovens pela vida monástica no Vietnã, pp. 15-21 da edição francesa.

(3) Antes da divisão pós-colonial de 1955, a maioria dos católicos estava concentrada no norte do país; mas, com o regime marxista ali instalado, muitos fugiram para o sul, particularmente para a região economicamente atraente de Sài Gòn.

(4) O conflito armado aconteceu em dois períodos, a partir de 1945, com a saída dos franceses que se bateram com os nacionalistas/marxistas, chefiados por Hồ Chí Minh, até os acordos de Genebra, em 1954, com a partilha do país entre o marxista Vietnã do Norte e o democrático Vietnã do Sul.

(5) Numa comunidade grande, como é o caso de Thiên Phước, os monges que têm o mesmo nome (na língua vietnamita) distinguem-se um do outro atribuindo-lhes uma letra por ordem de chegada: assim Hạnh B era o segundo Hạnh a entrar na comunidade.

(6) N. do T. – Traduzimos a palavra «scooter» (no original inglês) por motoneta. Trata-se de uma motocicleta com um banco para passageiros acoplado na parte traseira, meio de transporte muito comum no Sudeste asiático e na China.

(7) No final de minha estadia, vim a saber, com certo embaraço, que tratava-se do aposento do Bispo, o que justificava o ar condicionado e os outros compartimentos.

(8) Sobre essa Congregação, ver o Boletim da AIM, n. 96, pp. 101-107.

(9) Tradução: «que depôs os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes, saciou de bens os famintos» (cf. Lc 1,52-53).

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