smpaulaEu me chamo Irmã Maria Paula. Sou brasileira e pertenço ao Mosteiro do Encontro. Meu Mosteiro foi fundado pelo Priorado de Nossa Senhora de Betânia(1), como uma resposta ao apelo do Bem-aventurado Papa João XXIII em prol da América Latina.

As primeiras irmãs chegaram ao Brasil em dezembro de 1963, depois de uma viagem de três semanas em um navio cargueiro, exatamente no final da segunda sessão do Concílio Ecumênico Vaticano II. Essa segunda sessão sonhava com uma Igreja serva e pobre, e as irmãs entraram de cheio nesse espírito. Elas se instalaram na periferia de Curitiba, até então uma zona rural, e construíram em dois meses um Mosteirinho de madeira no estilo de algumas casas pobres da vizinhança. Durante três anos, viveram ali sem eletricidade, rezando os 12 salmos das matinas com velas e lamparinas a querosene. A água era bombeada a mão.

A elevação canônica realizou-se a 1º de novembro de 1965, um mês antes do encerramento do Concílio. Foi assim que elas começaram a viver em Curitiba. Era a época do pós-Concílio, época bastante conturbada, e que coincidiu com o período da ditadura militar...

Há dois anos estou na França para estudar graças a uma bolsa recebida da AIM. Meu objetivo é adquirir uma formação litúrgica em vista de uma «participação plena, ativa e consciente nas ações litúrgicas», como nos pede o Concílio Vaticano II, pois «grandes são as obras do Senhor, dignas de estudo e de amor» (cf. Sl 110 [111],2). O salmista nos ensina que, para amar sobremaneira as obras maravilhosas do Senhor, é preciso estudá-las a fim de penetrar-lhes o sentido profundo.

Retornando ao Brasil, deverei transmitir essa riqueza aqui recebida. Como? Dentro e fora da comunidade.

Dentro

O mosteiro é uma «escola de serviço do Senhor», como diz São Bento.

A palavra «escola» indica que estamos sempre a caminho e nunca terminamos de aprender. Nessa escola, estamos sempre em formação, pois ela é permanente; isso implica exercícios, o estudo de uma doutrina, da Sagrada Escritura, do ensinamento de Cristo (cf. RB, Pr 50; 2,4; 64,9).

É nessa grande escola, que a Igreja, que somos nutridos, ou seja, nessa grande Tradição a nós transmitida pela Palavra de Deus, a liturgia, a Eucaristia, bem como os escritos dos Padres monásticos e a rica literatura patrística...

Fora

«Todos os hóspedes que chegarem ao Mosteiro sejam recebidos como Cristo», diz a Regra (RB 53,1). A hospitalidade sempre foi muito importante para a vida beneditina...

Nós acolhemos pessoas ou grupos em nossa hospedaria. Os hóspedes são convidados a participar da oração comunitária e as irmãs os acompanham seja espiritualmente, seja para uma formação catequética se a desejam...

A Regra diz também:

«Mostre-se principalmente um cuidado solícito na recepção dos pobres e peregrinos, porque sobretudo na pessoa desses, Cristo é recebido» (RB 53,15).

As irmãs têm uma preocupação especial para com os pobres; nós procuramos ajudá-los pela escuta, pela partilha de bens e também quando fazem retiro não pagam a estadia. Entretanto, para que isso possa ser feito, nós trabalhamos com as próprias mãos. O trabalho manual compreende uma oficina de madeira, objetos litúrgicos, ícones e a fabricação de geléia de diversos sabores vendida no Mosteiro ou na cidade.

O que lucramos com nossas atividades, infelizmente, não é bastante para subvencionar nossas necessidades ordinárias... Contudo, felizmente, o Senhor é nosso Pastor e sua divina Providência nunca nos falta... pois, ainda temos que sustentar nossa fundação no Amazonas, o Mosteiro da Água Viva, a 4.000 km de distância.

Em 1989, as três primeiras irmãs foram convidadas pela Prelazia de Itacoatiara, em plena floresta amazônica. A oração delas sustenta o trabalho de evangelização. A pequena hospedaria recebe padres e cristãos. O Mosteiro pôde ser construído graças à ajuda proporcionada por uma associação alemã.

Em meio a uma natureza equatorial, o Mosteiro compreende vários pavilhões, um claustro com os lugares comunitários, as celas e a biblioteca. A necessidade de aumentar a hospedaria logo se fez sentir a fim de acolher e acompanhar grupos cristãos que não têm outros lugares para retiros. A simplicidade do Mosteiro é um sinal do absoluto de Deus.

Para terminar, darei a palavra a Anne-Marie Crosville, amiga do Mosteiro, leiga consagrada que fundou um casa de acolhida para meninos de rua no sul do Brasil. Ela se deixou conquistar pela Amazônia e por nossas irmãs da Água Viva. Eis aqui um resumo do que a impressionou:

«Se alguém tem sede, venha a mim e beba». Neste dia 22 de outubro, depois de uma longa viagem, cheguei ao Mosteiro da Água Viva, em Itacoatiara. Um «oásis» de Água Viva situado no centro da dura realidade do povo amazonense, a 10 km da cidade. É uma bonita história baseada na confiança e no abandono que nossas irmãs do Mosteiro do Encontro começaram a escrever, há 20 anos, quando fundaram esse pequeno Mosteiro à margem da estrada que leva a Itacoatiara. Quem diz “à margem da estrada” significa saber acolher, estar disponível para aqueles e aquelas, quaisquer que sejam, que têm necessidade de parar para se desalterar na fonte de água viva que é o Mosteiro. Foi isso que me tocou quando cheguei àquele lugar de oração e de partilha fraterna. Mesmo sendo contemplativas, as irmãs estão próximas da vida das famílias mais pobres que moram nas redondezas do Mosteiro. As enormes distâncias entre as comunidades tornam difícil a organização da vida das famílias (educação, saúde, celebrações religiosas, etc.). As pessoas sofrem com o isolamento. Muitas vezes, o único meio de transporte é o barco. As irmãs têm uma missão discreta, mas importante junto dessas famílias. Tive a alegria de encontrar várias famílias acompanhadas no barco por duas irmãs. Encontro muito simples, “simplicidade dos filhos de Deus”. Algumas crianças que moram longe da cidade vêm ao Mosteiro a fim de se prepararem com as irmãs para a primeira comunhão. As famílias vêm também para rezar com as irmãs. Presença confortadora para essas pessoas sequiosas de paz e de fraternidade. O Reino de Deus se constrói verdadeiramente no íntimo de cada irmão e irmã, especialmente os pequeninos e os excluídos. Essa estadia no Mosteiro da Água Viva foi verdadeiramente um tempo de graça que me confortou em minha missão a serviço da vida. Sou grata a cada uma de nossas irmãs pelo testemunho evangélico de fé e de confiança».

Seguindo os passos de São Paulo (neste domingo da alegria), desejo que «a alegria e a paz de Deus, que ultrapassam toda compreensão, guardem vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus» (cf. Fl 4,7).

(1) «Priorij Onze Lieve Vrow van Bethanië», em língua neerlandesa, próximo de Bruges, na Bélgica.

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