haregeweineEu sou Irmã Haregeweine e venho da Etiópia. Permitam-me que, em primeiro lugar, apresente meu país em poucas palavras.

A Etiópia é um país rico em diversidades geográficas e culturais, com planaltos de 2.000 a 4.000 metros de altitude, de onde provém a fortaleza do cristianismo desde a Eritréia até à província de Shewa, no centro-sul do país, ao passo que o Islã se concentra mais nas planícies. Os Falashas (Bete Israel), os judeus, se acham reunidos em pequenos grupos na província de Gondar, mas a maioria partiu para Israel nos anos 1990.

A população conta com mais de 80 milhões de habitantes, dos quais a maioria é cristã: 50% de ortodoxos, 5% de protestantes, 1% de católicos; e 41% de muçulmanos.

O cristianismo foi introduzido no país no século I; e no século IV a Etiópia se tornou uma nação cristã. Portanto, a Igreja já estava presente na Etiópia antes mesmo da separação das Igrejas orientais, no século V. Desde então, a Igreja se tornou Igreja copta etíope ligada a Alexandria.

Somente no século XVI, a ajuda militar portuguesa contra os turcos muçulmanos propiciou a chegada de missionários católicos, notadamente os jesuítas. Os primeiros missionários, que fizeram enormes esforços de adaptação, conseguiram uma reaproximação, a ponto de o Imperador proclamar sua fé, em 1626, como católico unido ao Papa de Roma. Mas, infelizmente, muitas razões se tornaram causa de conflitos. Uma guerra civil forçou o Imperador a restabelecer a ortodoxia, expulsar os jesuítas e proibir o culto católico.

Dois séculos mais tarde, em 1839, Justino de Jacobis, missionário lazarista, e, em seguida, os capuchinhos, especialmente o Cardeal Guglielmo Massaia, recomeçaram as atividades missionárias católicas e conseguiram formar uma pequena comunidade. Em 1889, a Itália tomou o controle da costa eritréia e Menelik II, ao se tornar Imperador, abriu o país ao Ocidente. Isso permitiu a atividade missionária em todo o país. Em 1961, a Igreja Católica organizou a estrutura eclesiástica, com o estabelecimento de Arcebispado de rito etíope, em Adis Abeba. Há mais de quarenta e cinco congregações religiosas, dentre as quais uma única monástica, que é cisterciense, e uma presença recente de clarissas. Os fiéis católicos são cerca de 800.000. Apesar do número minoritário de católicos, há vocações. A população é jovem: 55% tem menos de 20 anos.

Permitam-me agora que me apresente

Nesses últimos dezoito anos, fui membro da Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus. Há poucos anos apenas, comecei a sentir um chamado para a vida monástica que não cessou de se intensificar em mim. Na Etiópia, somente as clarissas estão presentes. Precisava de tempo para discernir e tomar uma decisão de acordo com a vontade de Deus. Seguramente, há Mosteiros católicos no mundo inteiro, e até mesmo perto de nós em países vizinhos como o Quênia. Contudo, gostaria de corresponder a essa vocação em meu país, na companhia de outras etíopes que estejam em situação semelhante à minha.

Apesar das dificuldades, confio-me ao Senhor, pois somente ele é a fonte da graça de que necessito para a vocação à vida monástica. Estou convencida que o fundador é o próprio Cristo; eu e as outras somos e seremos apenas aquelas que haverão de segui-lo apoiando-nos e inspirando-nos na vida de tantos monges e monjas, mais particularmente, São Pacômio, São Basílio e São Bento.

Já dei um pequeno passo, se posso dizer, com a ajuda da Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus e da Comunidade de Bose, onde passei um ano para ter um tempo de discernimento, mas também uma experiência de vida monástica. Depois, meus orientadores espirituais me aconselharam a buscar uma formação sólida. É essa a razão pela qual estou na França, a fim de estudar Teologia no Instituto Católico de Paris. Ao concluir os estudos, regressarei a meu país para continuar a vida monástica na Etiópia. Fui sempre encorajada pelo Arcebispo de Adis Abeba, Abune Berhane Yesus, e por outros Bispos, amigos religiosos e religiosas, bem como leigos, na Etiópia. Graças à AIM e ao Mosteiro das Beneditinas de Vanves, prossigo minha formação vivendo nesse bonito Mosteiro de Vanves. Muitas pessoas me perguntam o porquê de minha formação (estudos) na França. A principal razão é a seguinte: eu venho de um país de tradição oriental e a França é um país aberto às Igrejas Orientais; além disso, os estudos teológicos na França, sobretudo levando em conta as questões ecumênicas, são bem mais exigentes.

Voltando à presença da vida monástica católica na Etiópia: os cistercienses já estão lá, como mencionei. Os primeiros cistercienses, depois de se haverem formado na Itália, fundaram um Mosteiro na Eritréia, em 1940, e mais tarde, em 1956, na Etiópia. Atualmente há quatro Mosteiros cistercienses em diferentes regiões da Etiópia. Considerando as necessidades do país, os monges, embora mantendo sua vida de oração, dedicam-se a atividades pastorais: espirituais, mas também materiais. Em cada Mosteiro há jardins de infância, escolas primárias e secundárias que possibilitam às crianças e aos jovens dos arredores do Mosteiro acesso à educação. Em dois Mosteiros, os monges recebem e formam jovens interessados na vida monástica. Depois da independência um tanto quanto inesperada da Eritréia, em 1993, esses Mosteiros estão em vias de procurar subsistir por si próprios, pois a maioria dos membros etíopes era ainda jovem. Eles são cerca de vinte, em toda a região, com uns quinze em formação.

A presença dos monges cistercienses na Igreja católica da Etiópia é muito importante, pois eles dão um testemunho de vida monástica não somente aos católicos, mas também aos ortodoxos, para os quais a vida monástica é preciosa. Em todos os seus Mosteiros, os cistercienses seguem o rito etíope. Eles desempenham um papel ecumênico importante.

Se os monges católicos dão semelhante testemunho, é o ramo feminino que está faltando. Como já referi logo no começo, a ausência de monjas católicas merece uma atenção particular na Etiópia. E nós contamos com a oração e a ajuda de vocês para favorecer o surgimento de um monaquismo católico na tradição de São Bento.

Traduzido do francês por Maria Luísa Laranjeiro de Souza.

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