SÃO BENTO E O CELIBATO
VIVER SOMENTE PARA DEUS

Dame Laurentia Johns, OSB

Neste número dedicado à vida dos Mosteiros e aos aniversários importantes celebrados em 2010 no mundo monástico, não temos um artigo rigorosamente relacionado com a temática geral. Entretanto, falar sobre São Bento e sobre o celibato, como o faz Dame Laurentia, é sempre oportuno em um boletim monástico.

«No desejo de agradar somente a Deus, pôs-se à procura do santo hábito monaquismo»(1). O pouco que sabemos do início da vida de São Bento nos chega através dos Diálogos, muito provavelmente escritos pelo Papa São Gregório Magno(2) por volta do ano 590, ou seja, aproximadamente cinqüenta anos após a morte de São Bento. Já desde as primeiras linhas não se têm dúvidas a respeito dos desejos do coração de Bento:

«Houve um homem de vida venerável, Bento tanto pela graça quanto pelo nome, que desde a infância possuía um coração maduro. Superior, pelo seu modo de proceder, para sua pouca idade, a nenhum prazer entregou seu coração, mas, pelo contrário, estando ainda nesta terra e podendo gozar livremente dos bens temporais, preferiu desprezar o mundo com suas flores, como se já estivessem murchas»(3).

A frase «Bento tanto pela graça quanto pelo nome» sugere um tipo de consagração, uma missão à santidade, que é, em primeiro lugar, a de todo batizado: como sabemos, o monge é antes de tudo um cristão e uma testemunha dos valores cristãos; mas, quanto às exigências da castidade, que todos os batizados devem guardar, acrescenta-se um chamado particular – e um dom (acaso Deus chamaria sem conceder o dom?) – do celibato(4).

Na vida de São Bento (e também na nossa), parece evidente que ele recebeu antes uma graça e, em seguida, teve que trabalhar para consolidar e integrar essa graça na sua vida. Temos em mente o modo como ele abraçou a vida eremítica antes da cenobítica (embora tenha ensinado aos seus discípulos o caminho inverso). Na sua prática do celibato percebemos um paradoxo aparentemente similar: ele parece ter recebido o dom do celibato ainda muito jovem, e em seguida conduziu esse dom até a maturidade, através de lutas e tentações. Mas será isso realmente um paradoxo? Não será antes, de fato, o modo como a vocação monástica parece desabrochar para a maioria de nós? Lembremo-nos da graça do próprio chamado ao Mosteiro; a graça da tomada de hábito e da profissão. Em cada ocasião somos inundados pela graça de Deus e, em seguida, precisamos empregar muito tempo e energia, fortalecidos com mais graças ainda, para corresponder a esse dom. (Isso ajuda a explicar, talvez, porque parecemos tantas vezes «regredir» depois dessas injeções dramáticas de graça).

Mas voltemos ao jovem Bento. Os Diálogos nos falam da sua ida a Roma para estudar, da sua decepção com o que viu por lá e do seu subseqüente afastamento. Os detalhes nos foram omitidos, mas podemos imaginar que os costumes sexuais da Roma do século sexto, entre outras coisas, é que provavelmente levaram o jovem Bento a se afastar daquela cidade. Haveria questões não resolvidas para ele? «Para os puros, todas as coisas são puras», conforme nos lembra a Carta de São Paulo a Tito (1,15). Mesmo assim, admitir que alguma coisa é «quente demais para segurar» e decidir afastar-se daquilo que é potencialmente nocivo são, em si, respostas maduras a uma determinada situação. É-nos dito que São Bento, impelido por um profundo e íntimo desejo «agradar somente a Deus», saiu «em busca do hábito monástico» – símbolo de todo chamado ascético – a fim de levar uma vida santa.

Conforme assinala de Vogüé(5), a expressão «somente a Deus», nos remete a dois exemplos tirados de São Paulo: o «homem não casado», de 1Cor 7,32, e o soldado «engajado no serviço das armas», (cf. 2Tm 2,4), onde o estado de vida abraçado está em função do serviço com um coração indiviso. Para São Gregório(6), o monge tem duas principais características definidoras que revelam, de modo semelhante, esse coração indiviso: um certo desprezo pelo «mundo» e, o que é mais importante, um ardente, exclusivo e unificador desejo de ver a Deus. É este último impulso que faz com que o monge seja interiormente aquilo que professa ser de nome, isto é «monos», «um» no sentido de ser unificado, transformado numa integridade pelo único amor de sua vida. Por conseguinte, para São Bento, o celibato deve ser entendido no sentido de um serviço (e fruto) a esse único grande amor – «somente a Deus»(7), e portanto intimamente unido à vida de oração, onde essa relação única é forjada e nutrida.

A ida de São Bento para o «deserto», tal como a de Santo Antão, deu-se por etapas, sendo a primeira delas em Enfide, ainda assistido pela ama. O episódio do crivo quebrado propicia não apenas uma ocasião para o primeiro milagre de São Bento, mas também uma preciosa compreensão do seu caráter: comovido até as lágrimas pela compaixão, ele está longe da dura impassibilidade de um estóico, e por isso não nos surpreende que essa natureza apaixonada tenha sido desafiada durante a permanência de três anos no mais profundo deserto de Subiaco. Com efeito, de Vogüé(8) descreve os primeiros capítulos dos Diálogos como uma série de crises que vão testando São Bento, paixão por paixão, seguindo mais ou menos a ordem clássica da luta ascética, tal como delineada por Evágrio e Cassiano.

Primeira etapa. A gruta do eremita: Subiaco

Exceto por sua duração de três anos, sabemos pouca coisa a respeito dessa etapa, muito embora não seja fantasioso propor um certo crescimento no auto-conhecimento, nascido da oração, por parte do jovem e ponderado São Bento, durante esse período. A importância dada à alimentação (três diferentes fontes de fornecimento de pão são mencionadas: do caridoso monge Romano; do sacerdote misterioso em dia de Páscoa e dos pastores locais) sugere a luta de São Bento contra a primeira tentação clássica: a gula, apesar das entrelinhas indicarem talvez uma luta mais sutil, na medida em que o eremita e rigoroso asceta aprende a confiar nas outras pessoas, e com isso começa a se reconciliar com a sua sexualidade. (Lembremos a etimologia da palavra «sexo», oriunda do latim «secare», que significa «cortar», «separar», com a idéia implícita de um impulso em direção ao outro).

O reconhecimento do dia de Páscoa, causado pela visão de um outro ser humano, pode ser considerado como uma verdadeira comunhão – uma libertação da auto-suficiência – e, portanto, um renascimento para São Bento, cujo celibato começa a dar fruto. Quando os pastores lhe trazem alimento, ele está em condições de, em troca, nutri-los com uma palavra: «Trazendo-lhe o sustento para o corpo, levavam, em troca, nos corações, o alimento de vida que procedia dos lábios do santo»(9).

Segunda etapa. A batalha vencida

Em resposta a um certo Secúndio, velho eremita atormentado por tentações carnais, São Gregório afirma, em sua Carta IX, que isso não deve causar estranheza, já que a vida de Secúndio era um desafio aberto ao diabo. Tampouco São Bento escapou da forte tentação nessa área, como no-lo revela o capítulo 2, dos Diálogos II, onde encontramos o famoso remédio herbóreo utilizado por São Bento, ao se atirar despido numa moita de urtigas e espinhos. Lá se diz que «venceu o pecado, porque transformou a natureza do incêndio»(10).

Em outras palavras, ele reorientou sua energia sexual para uma desejada e exclusiva busca de Deus. O que se descreve aqui como uma intensa e única tentação seguida de vitória é, para a maioria das pessoas – mas não para todas –, um combate mais prolongado. Menos citada, mas provavelmente mais eficiente como terapia do que a touceira de urtigas, foi a franqueza com que São Bento narrou esse incidente aos discípulos no intuito de instruí-los. Como todas as paixões, a luxúria perde força quando é trazida à luz do dia. E, como na tentação anterior, vemos o fruto da vitória, desta vez como fecundidade espiritual: os discípulos são atraídos por São Bento, que se torna um pai de almas e mestre de vida cenobítica.

O celibato na Regra de São Bento

Como uma verdadeira chave para a compreensão da vida de São Bento, São Gregório remete o leitor para a Regra dos monges escrita por São Bento, pois, segundo São Gregório, «o santo homem de modo nenhum pôde ensinar outra coisa senão o que ele mesmo viveu»(11). Mas o pesquisador que queira reconstruir a vida e o ensino de São Bento sobre o celibato encontrará, pelo menos no princípio, muito pouca coisa sobre o tema na Regra. Contudo, devemos lembrar que as Instituições e as Conferências de João Cassiano eram regularmente lidas na comunidade(12). Assim os monges provavelmente estavam familiarizados com o ensino tradicional dos Pais do deserto sobre os oito vícios capitais, incluindo a luxúria.

No capítulo 4 da Regra, dedicado aos instrumentos das boas obras, encontramos o firme propósito de «amar a castidade», apesar desse capítulo também conter as normas de não cometer adultério, de não satisfazer os desejos da carne, de disciplinar o corpo, de não consentir e revelar os pensamentos impuros. O capítulo 33, sobre a propriedade, adverte o monge quanto à insensatez do apego às coisas materiais, uma vez que ele renunciou até mesmo ao seu corpo(13), renúncia essa mencionada mas pouco elaborada no capítulo 58, que descreve o dom de si mesmo do monge na profissão(14). Finalmente, no capítulo 72 faz-se menção do amor casto entre os irmãos, que deve caracterizar as relações comunitárias: «ponham em ação castamente a caridade fraterna»(15).

Terceira etapa. Uma chave tirada dos «Diálogos»?

Talvez os Diálogos nos ajudem a completar essas referências esparsas da RB. Ao fim do Livro II, nos deparamos com a visão maravilhosa que São Bento, já ancião, teve do mundo inteiro concentrado num raio de luz. Vale a pena reproduzi-la, mesmo que seja longa. Depois de oferecer hospitalidade ao abade Servando, que o visitara, São Bento estava para recolher-se:

«Chegada a hora do descanso noturno, o venerável Bento acomodou-se no alto da sua torre, enquanto o diácono Servando ficou no aposento de baixo. Uma escada, no entanto, assegurava a ligação entre os dois aposentos. Em frente dessa mesma torre existia um grande dormitório, onde descansavam os discípulos dos dois abades. Enquanto os monges dormiam, o homem de Deus, Bento, mantinha-se em oração, antecipando a hora da oração noturna. Ora, eis que, estando à janela em prece a Deus onipotente, de súbito, na calada da noite, olhou para cima e viu uma luz que se projetava do alto e dissipava a escuridão da noite, brilhando com tanto esplendor que, apesar de raiar nas trevas, superava o dia em claridade. Mas, a esta visão, seguiu-se uma coisa admirável, pois, como depois ele mesmo contou, também o mundo inteiro lhe apareceu ante os olhos, como que concentrado num só raio de sol. Ainda enquanto o venerável Pai fixava atentamente a vista no esplendor da cintilante luz, viu a alma de Germano, bispo de Cápua, levada ao céu pelos anjos numa esfera de fogo»(16).

Essa visão pode ser entendida como um símbolo, uma imagem da oração, ou antes, daquilo a que a oração(17) – e portanto o celibato a serviço da oração – deveria nos conduzir: a unidade, a unicidade, a totalidade, a integração, a inclusão de todas as coisas na luz transformadora de Deus. Somos levados de volta não só ao exclusivo, ardente e unificador desejo de ver a Deus – que para São Gregório define a busca monástica –, mas também ao motivo fundamental da própria odisséia monástica de São Bento, e a partir daí ao critério para discernir toda vocação monástica: essa pessoa procura verdadeiramente a Deus?(18) Então é de todo conveniente que os Diálogos nos dêem essa ilustração gráfica que pode ser vista como a culminância de toda uma vida de celibato e oração. Mas que dizer dos anos intermediários? Porventura a Regra nos dá algum vislumbre dessa visão que se desabrocha in via?

A Regra revisitada

Toda viagem requer escolhas entre meios de transporte a serem usados, entre auto-estradas ou estradas vicinais, bem como decisões a serem tomadas nas encruzilhadas. Em cada etapa, o destino final e a urgência do viajante de lá chegar é que irão fixar a decisão. Ao longo da Regra e onde há espaço para escolha, São Bento dá ao viajante monástico, em caminho para Deus, claríssimas direções e diretrizes. Como caminho por excelência ao Pai (Jo 14,6), nada deve ser preferido a Cristo. A origem desta frase, que aparece primeiramente na RB 4,21, pode ser localizada por meio da Regra do Mestre, nos primeiros escritores cristãos tais como Santo Atanásio († 373) e São Cipriano († 258)(19), e além deles, na própria tradição dos Evangelhos: «Todo aquele que ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim», palavras colocadas nos próprios lábios de Jesus, segundo o Evangelho de São Mateus(20).

São Bento propõe a seus monges outras três frases igualmente claras sobre «preferências», cada qual própria da sua Regra (ou seja, não encontradas na RM) e que por isso certamente ilustram a mentalidade de São Bento. As frases são as seguintes:

a. RB 36,1: Antes de tudo e acima de tudo deve tratar-se dos enfermos (Infirmorum curante omnia et super omnia adhibenda est).

b. RB 43,3: Nada se anteponha ao Ofício Divino (Nihil operi Dei præponatur)(21).

c. RB 72,11: Nada absolutamente anteponham a Cristo (Christo omnino nihil præponere).

Que fazer diante dessas aparentes contradições? Será São Bento uma pessoa instável, que um dia diz uma coisa e outro dia, outra? De forma alguma, sobretudo quando se pensa no seu amor pela estabilidade. É relativamente fácil provar isso, pois basta completar a primeira frase da RB 36: De modo que se lhes sirva como verdadeiramente ao Cristo, para ver que todas as três «preferências» são, de fato, a mesma opção preferencial por Cristo da RB 4, aplicadas em contextos diferentes. Podemos pensar em cada uma das três frases como sendo representativas de diferentes aspectos da vida monástica – e na falta de uma apresentação com «Power Point», peço que usem a imaginação para atribuir uma cor a cada uma delas.

O serviço comunitário ou trabalho manual pode ser representado com um círculo amarelo. O Cristo encontrado no Ofício divino, com um círculo azul. O Cristo encontrado em si mesmo – na oração pessoal – pode ser mostrado com um círculo vermelho. Sabemos, porém, que no Mosteiro, bem como na vida, essas atividades freqüentemente se sobrepõem umas às outras, e assim, dando continuidade à nossa meditação a cores, podemos colocar a lectio divina – a apropriação pessoal por parte do monge ou da monja da Palavra ouvida comunitariamente na liturgia – na intersecção entre a oração pessoal e o Ofício divino, e atribuir-lhe a cor roxa. O Cristo, quando encontrado pessoalmente no hóspede, no enfermo, no Abade etc., recairia sobre os círculos vermelho e amarelo, e teria a cor laranja. Já quando a junção se dá entre o trabalho manual (amarelo) e o ofício divino (azul), surge o verde, que podemos chamar de «reverência», em que todas as ferramentas e bens do Mosteiro são tratados como vasos sagrados do altar(22).

O que estou sugerindo é que esses círculos coloridos possam ser vistos como um caminho visível para explicar algo desse misterioso processo interior de integração que acompanha o crescimento na oração e no celibato. A Regra nos indica outras pistas, outras justaposições possíveis:

«Ouvir de boa vontade as santas leituras»(23), recomendação encontrada no capítulo sobre os instrumentos das boas obras e, mais adiante, no capítulo sobre o trabalho manual(24). Neste capítulo, São Bento nos dá instruções detalhadas sobre a «lectio divina». Do mesmo modo, a obediência, tida como um labor, «é peculiar àqueles que estimam nada haver mais caro que o Cristo»(25).

Pode-se também pensar em outros exemplos. A nível de experiência, a maioria de nós certamente se lembra do tempo em que o dia monástico parecia ser o fluxo sem fim de uma coisa atrás da outra (talvez ainda haja dias assim). Mas, felizmente, na medida em que alguém vai se adaptando ao ritmo monástico, um senso maior da relação entre a parte e o todo também vai se desenvolvendo e começamos então a fazer conexões entre essas partes: uma frase tirada da «lectio» que sustenta o trabalho, a «palavra» de um hóspede que nos acalma, ou a solução para um problema que surge de repente durante a recitação do Ofício.

Evidentemente, é na Eucaristia(26) – onde nos encontramos com o Cristo ressuscitado na Palavra, no sacramento e na assembléia – que os nossos três círculos vermelho, azul e amarelo convergem numa luz que podemos chamar de «luz eucarística» da presença velada mas real do Cristo, que está presente na assembléia, presente como Palavra e presente, sobretudo, sob as espécies do pão e do vinho. Na intimidade da Santa Comunhão nós assimilamos essa luz, ou antes, somos assimilados em Cristo, nossa Luz, e com isso nos capacitamos a viver eucaristicamente, ou seja, com a própria vida de Cristo. E como irá se manifestar essa vida, senão no louvor e na ação de graças ao Pai, numa intensa preocupação e respeito pelo próximo, numa profunda reverência por toda matéria criada?

Quando consideramos o contexto da visão de São Bento no alto da torre, descobrimos que todos esses elementos estão presentes: São Bento acabara de louvar e de agradecer a Deus ao recitar as Vigílias (o Ofício Divino, nosso círculo azul); ele oferecera hospitalidade a Cristo num hóspede (o que corresponde ao círculo laranja no nosso esquema); ele lançara um olhar paterno sobre os irmãos que dormiam (serviço monástico – nosso círculo amarelo); e, finalmente, é-nos dito que ele estava «em oração» (círculo vermelho), decerto arrebatado pela maravilhosa beleza do céu noturno (círculo verde). Assim como a Eucaristia é um antegozo do banquete celestial, do mesmo modo a visão de São Bento pode ser considerada como uma antevisão da luz celestial que tudo une.

Integração no celibato

No seu penetrante e inovador livro «Vivendo a vida celibatária»(27), Richard Sipe identifica dez elementos que, segundo ele, sustentam a vida celibatária. Qualquer pessoa familiarizada com a Regra de São Bento irá reconhecer imediatamente a impactante semelhança entre esses dez elementos e os componentes do caminho beneditino, ou «conversatio» (ver a tabela no final do texto).

De acordo com a expectativa de Sipe, de que o seu estudo seja usado como livro-texto e adaptado a situações individuais específicas, a lista do lado direito da tabela foi ligeiramente reordenada de modo a refletir o carisma beneditino. O que a tabela sublinha, conforme sugiro, é que a dificuldade de encontrar ensinamentos concretos sobre o celibato (ou sobre a oração) na RB não é aquela proverbial de achar uma agulha num palheiro, mas antes a de detectar o fermento na massa. O ensinamento perpassa toda a Regra: o celibato é considerado como a relação privilegiada com Cristo, do mesmo modo como o objetivo da oração contínua deveria perpassar toda a nossa vida. E tanto assim será quanto mais desenvolvido estiver o processo de integração(28). Ou, voltando à imagem do prisma, mesmo que não se consiga ver a luz que resulta da fusão das cores que a constituem, pode-se ver o todo com maior clareza dentro e através dessa luz. 

Sipe menciona (p. 146) o exemplo dos santos – e ele certamente incluiria São Bento – como aqueles que «mergulharam na sua solidão» a fim de atingir uma unidade, uma integridade que é «o outro lado da dor, do sacrifício e do autoconhecimento... a experiência da realidade de que somos todos um». Pode-se então dizer que a visão de São Bento do mundo concentrado num raio de luz não é um ornato piedosamente místico do autor dos Diálogos, mas antes um retrato do pleno florescimento da vida eucarística que São Bento viveu por muitos anos, o sinal de uma total integração.

Agradecimentos

Este ensaio surgiu das conferências dadas ao noviciado sobre os votos, bem como da leitura do já mencionado excelente livro de Richard Sipe sobre o celibato. Sentimos que seria interessante delinear um perfil de São Bento como celibatário, seguindo as linhas estabelecidas por Sipe para os vários modelos de celibato, como Cassiano, Agostinho e Thomas Merton, apresentados no seu livro. Para fazer isso, recorremos, claro, aos Diálogos de São Gregório Magno e especialmente ao excelente comentário que D. Adalbert de Vogüé fez a eles (A vida de São Bento). É a ele que devo a primeira parte deste ensaio.

A imagem do prisma na RB foi apresentada pela primeira vez no encontro de Jovens Beneditinos ocorrido na Abadia de Stanbrook no início de 2005. Agradeço aos participantes pelos úteis comentários e pelo encorajamento.

Finalmente, sou particularmente grata a Juliet Murphy pela sua generosa assistência técnica.

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Dame Laurentia Johns, OSB, é monja da Abadia de Our Lady of Consolation, Stanbrook (Inglaterra).

Traduzido do inglês por Dom Justino Silva de Souza, OSB.

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