ENCONTRAR CRISTO

A oração dos salmos nos Padres da Igreja

Madre Christiana Reemts, OSB

Jesus conheceu e rezou os salmos e, no Novo Testamento, o Saltério é o livro mais citado do Antigo Testamento. Fica, porém, a pergunta: Como podemos hoje compreender e rezar os salmos? Para os Padres da Igreja, a oração dos salmos era um encontro com Cristo. A abadessa de Mariendonk  mostra a fertilidade e a atualidade dessa aproximação. Como um amálgama de relacionamentos entre Deus, o homem, Cristo e a Igreja, os salmos oferecem espaço a todas as experiências e sensibilidades humanas e revelam-se como escola de oração para nós, hoje.

É bem possível haver pessoas, embora cada vez mais raras, que desde a infância estão bastante familiarizadas com a Bíblia, de modo a serem capazes de acolher os salmos como uma expressão imediata de sua própria oração. Quem, no entanto, conheceu a fé cristã em profundidade somente na idade adulta, terá seus problemas com esses textos, mais do que com todas as outras partes da Bíblia. Os salmos não somente exigem que os escutemos e reflitamos, ao serem proclamados como leitura, mas que os pronunciemos como nossa própria palavra quando, através deles, nos dirigimos a Deus em oração. Podemos orar assim? Semelhante pergunta não se responde simplesmente com um sim ou um não. Verificamos neles uma grande diversidade: há salmos que queremos e podemos rezar espontaneamente e outros que até causam repugnância. Um problema grave é apresentado pelos assim chamados salmos imprecatórios. Devido ao seu aparente texto «pré-cristão», muitas comunidades cristãs não os recitam ou o fazem de forma abreviada. Mesmo sendo uma preciosa herança religiosa da humanidade, os salmos apresentam um universo bastante incomum em termos de linguagem e de pensamento. Por vezes um canto sacro hodierno ou uma poesia moderna tocam nossa sensibilidade de forma bem mais imediata que os salmos.

No entanto, existem bons argumentos a favor dos salmos e ultimamente cresceu notavelmente a discussão teológica a respeito desses cânticos. Durante muito tempo, a pesquisa bíblica esmiuçou os salmos em seus variados componentes. Hoje em dia se descobre sua beleza como pequenas obras de arte. Acentuam-se sempre mais a estrutura metódica, os princípios de composição e as relações entre os salmos afins[1]. A psicologia pastoral chama a atenção para a força terapêutica dos salmos[2]. Contudo, eles ainda nos parecem estranhos e incompreensíveis e, às vezes, até repugnantes. Mesmo pessoas que os recitam com entusiasmo gostariam de se distanciar de alguns salmos ou partes dos mesmos, e algumas até o fazem.

Como os Padres da Igreja, esses antigos teólogos da Igreja, rezaram os salmos? A que compreensão dos salmos queriam eles, na maioria bispos ou presbíteros, conduzir suas comunidades?  Não é um mero interesse histórico que nos impele a fazer essas interrogações, mas a certeza de que a compreensão patrística dos salmos pode ainda hoje nos ajudar. Além disso, somente quando partilhamos a convicção dos Padres da Igreja que nos salmos nos encontramos com Cristo, é que poderemos assumir a decisão de considerá-los como fundamento da oração cristã,  rezando como cristãos o nosso Ofício divino quase na sua totalidade composto por salmos. Os Padres da Igreja tinham esta convicção: os salmos tratam de Cristo e uma pessoa que os reza, encontra-se com o Filho do Deus vivo. Com efeito, foi o Senhor quem declarou ser ele próprio o conteúdo dos salmos, quando, após a ressurreição, disse aos discípulos: Era necessário que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos (Lc 24,44).

A compreensão dos salmos no Novo Testamento

A Bíblia dos primeiros cristãos era, naturalmente, a Bíblia judaica que hoje chamamos de Antigo ou Primeiro Testamento. No seguimento de Cristo e no esforço de aprofundar sua fé, os cristãos rezaram os salmos querendo imitar tanto a vida como a oração de Jesus. Sabiam que ele conhecia os salmos e os citou nas discussões com seus adversários (cf. Lc 20,42) e que, na última ceia, realizada conforme o  ritual de uma ceia pascal, Jesus recitou com seus discípulos os salmos aleluiáticos (cf. Mt 26,30).

A idéia da imitação de Jesus Cristo foi aprofundada quando se compreendeu que ele rezou os salmos não casualmente, por assim dizer, como se não houvessem outras orações à disposição ou porque pertencessem a seu âmbito cultural judaico, mas porque foi ele o único a rezar essas orações de forma autêntica. Só Jesus era capaz de rezá-los verdadeiramente, pois o Eu dos salmos, o homem que neles se apresenta diante de Deus, na sua riqueza interior, ultrapassa a capacidade de compreensão e de experiência de qualquer outro ser humano. Cristo é o homem puro e simples, o novo Adão, que à diferença do velho Adão obedece verdadeiramente a Deus e faz de toda a sua vida um louvor. Muitos salmos e versículos tornam-se compreensíveis quando são entendidos como oração de Jesus Cristo e lidos à luz de sua paixão e morte relatadas no Novo Testamento. Eles se abrem em direção àquele que, conforme a convicção da Igreja Primitiva, sempre esteve de forma latente neles presente ou, pelo menos, subentendido. Nos salmos podemos ouvir o Filho de Deus rezando ao Pai, enquanto outros salmos ou versículos dos mesmos que não são diretamente oração, mas têm um caráter mais narrativo, nos falam da vida e da morte de Cristo. Essa descoberta é certamente o motivo pelo qual, no Novo Testamento, os salmos são o livro mais citado do Antigo Testamento. Esses textos foram meditados muito intensamente, não por serem considerados «bonitos», edificantes ou espiritualmente frutuosos, mas porque foram reconhecidos como sendo profecias, cujo sentido somente agora, isto é, depois da morte, ressurreição e glorificação de Jesus Cristo, e após a efusão do Espírito Santo no dia de Pentecostes se tornaram plenamente compreensíveis.

Em toda parte, no Novo Testamento, encontramos essa compreensão profética dos salmos: a filiação divina de Jesus Cristo (cf. Hb 1,5-13), a encarnação (cf. Hb 10,5-7), a perdição da humanidade sob o pecado (cf. Rm 3,10-18), a traição de Judas (cf. At 1,20), a crucifixão de Jesus pelos romanos e judeus e a perseguição contra a Igreja (cf. At 4,25ss), a ressurreição de Jesus e sua exaltação (cf. At 2,25-28.34s), tudo isso é anunciado nos salmos, conforme a opinião dos escritores neo-testamentários. Naturalmente, só a fé na morte e na ressurreição de Jesus Cristo permite essa leitura. Para quem se tornou cristão, isto é, para quem vive a partir da morte e ressurreição de Cristo, os salmos adquirem uma dimensão profunda. Nessa dimensão fica claro: o homem exemplar que, nos salmos, se dirige a Deus não é o rei Davi nem um novo Davi messiânico, mas nosso Senhor Jesus Cristo.

Os salmos como profecia

Os Padres da Igreja aprofundaram a compreensão dos salmos conforme os encontraram no Novo Testamento, e meditaram todo o saltério a partir daí. Tertuliano diz: Quase todos os salmos contêm a pessoa de Cristo; eles nos apresentam o Filho que fala ao Pai, isto é, Cristo que fala a Deus[3]. Eles encontraram prenunciados nos salmos todos os mistérios mais importantes do Novo Testamento: a anunciação a Maria (Escutai, minha filha, olhai, ouvi isto: Sl 44[45],11); a paixão de Cristo (Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?: Sl 21[22],2); sua ressurreição (Não haveis de me deixar entregue à morte, nem vosso amigo conhecer a corrupção: Sl 16[17],10);  sua ascensão (Por entre aclamações Deus se elevou, o Senhor subiu ao toque da trombeta: Sl 46[47],6); e seu sentar-se à direita de Deus (Palavra  do Senhor ao meu Senhor: assenta-te ao meu lado direito, até eu pôr teus inimigos, todos eles, como apoio por debaixo de teus pés: Sl 109[110],1)[4]. Sto. Irineu, o grande teólogo do século III, escreveu: Davi fala assim a respeito da morte e ressurreição de Cristo: «Eu me deito e adormeço bem tranqüilo; acordo em paz, pois o Senhor é meu sustento» (Sl 3,6). Essas palavras, Davi não as disse a respeito de si mesmo, pois ele não ressuscitou depois de ter morrido. É o Espírito de Cristo que, falando também por meio de outros profetas, aqui, no entanto, fala através de Davi: «Eu me deito e adormeço bem tranqüilo; acordo em paz, pois o Senhor é meu sustento». Com o sono indica a morte, pois Cristo ressuscitou. Davi ainda fala da paixão de Cristo dizendo: «Por que os povos agitados se revoltam; por que tramam as nações projetos vãos? Por que os reis de toda a terra se reúnem e conspiram os governos todos juntos contra o Deus onipotente e o seu Ungido?» (Sl 2,1s). Pois Herodes, o rei dos judeus, e Pôncio Pilatos, o procurador do imperador Cláudio, unânimes o condenaram à morte de cruz (cf. Lc 23,6-12)[5].

A respeito desses salmos proféticos, Sto. Agostinho diz: As palavras que cantamos são mais para ser ouvidas do que para ser usadas como aclamação[6]. A atitude adequada diante desses salmos é, portanto, a escuta atenta com disposição de se deixar marcar pelas palavras do salmo, isto é, pelo próprio Deus. Nessa escuta acontece um duplo movimento: por um lado, conhecendo Jesus Cristo e sua sorte, compreendemos os salmos de forma nova e mais profunda; por outro lado, compreendemos melhor quem é esse Jesus, quando conhecemos bem os salmos.

Um exemplo desse procedimento é dado pelo Sl 23(24),7-10: Ó portas, levantai vossos frontões! Elevai-vos bem mais alto, antigas portas, para que assim o Rei da glória possa entrar! Dizei-nos: Quem é este Rei da glória? É o Senhor, o valoroso, o onipotente, o Senhor, o poderoso nas batalhas. Ó portas, levantai vosso frontões! Elevai-vos bem mais alto, antigas portas, para que assim o Rei da glória possa entrar. Dizei-nos: Quem é este Rei da glória? O rei da glória é o Senhor onipotente, o Rei da glória é o Senhor, Deus do universo! Comentando essa passagem, São Justino, no século II, diz: Assim também acontece com a profecia que diz: «Levantai, ó príncipes, vossas portas; abri-vos, portas eternas, para que entre o rei da glória». Alguns de vós se atrevem a interpretá-la referindo-se a Ezequias, outros a Salomão. Contudo, de maneira alguma se pode demonstrar que tal profecia se refira a este ou àquele ou a qualquer outro dos chamados vossos reis, mas unicamente a esse nosso Cristo, que apareceu sem glória nem honra (cf. Is 53,2s), como prenunciaram Isaías, Davi e todas as Escrituras. Ele, porém, por vontade do Pai, é Senhor das potências que lhas entregou; ele ressuscitou dos mortos e subiu aos céus, como o revelaram esse mesmo salmo e as demais Escrituras[7].

Quem fala nos salmos?

A pergunta sobre quem fala nos salmos e a quem são eles dirigidos teria deixado pasmo um orante dos salmos do Antigo Testamento e para um judeu de hoje a resposta seria igualmente sem dificuldade: os salmos são a oração do povo de Israel dirigida a seu Deus Javé. O fato de o nome Javé aparecer 598 vezes no Saltério hebraico é uma prova disso.

Na tradução grega da Sagrada Escritura, o nome divino foi evitado por reverência e substituído por Kyrios (Dominus, em latim, isto é, Senhor). Também no Novo Testamento encontramos o título «Senhor». Entretanto, ele é utilizado não apenas para designar Deus Pai, mas igualmente como título de Cristo, evidência de que muito cedo lhe foi atribuída uma veneração divina: Meu Senhor e meu Deus! (Jo 20,28). Quando a Igreja primitiva lia os salmos na tradução grega ou latina, ela se deparou muitas vezes com o título Senhor que lhe era familiar como título de Cristo, ao lado do título Deus. Por isso houve diversas interpretações dos salmos: ou como palavra de Jesus dirigida ao Pai, que nós podemos dizer com ele; ou como profecia sobre Jesus, que nos é dada pelo Pai; ou ainda como oração dirigida a Jesus Filho de Deus.

Por isso, em cada versículo dos salmos, os Padres da Igreja perguntam: Quem fala? A quem se dirige? De quem se fala?

Eles partem do seguinte princípio: o sujeito que fala muda freqüentemente, não raro várias vezes dentro do mesmo salmo. Os salmos não são monólogos de um orante solitário, mas diálogos entre o Pai e o Filho, entre Deus e o homem, entre Cristo e sua Igreja. Eles somente se tornam compreensíveis quando acompanhados com atenção. Quando não se acerta a relação entre quem fala e a quem se dirige, o salmo todo será interpretado de forma errônea. Para compreender os salmos, a questão principal é saber distinguir quem fala e a quem se refere o que é dito[8].

A fim de interpretar um salmo de forma correta, precisamos perguntar em cada versículo quem o diz para quem. Há várias possibilidades:

• Cristo é o orante que fala no salmo, sua palavra dirige-se ao Pai. Um exemplo é o Salmo 21 (22), cujas primeiras palavras Cristo grita na cruz: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?  Os Padres da Igreja interpretam também os demais versículos desse salmo como palavras que o Senhor ao morrer e depois de ressuscitado dirige ao Pai. Quando entendemos o salmo assim, compreendemos perplexos que, ao ouvir ou recitar esse salmo, nos tornamos testemunhas de um diálogo inter-trinitário.

• Nós somos os orantes do salmo e Cristo é aquele a quem nos dirigimos. Conforme explica Sto. Agostinho, pedimos a ressurreição de Cristo, pois sabemos que nele se encontra o fundamento de nossa própria salvação: Levantai-vos, ó Senhor, vinde salvar-me (Sl 3,8)[9].

• Nós somos os orantes e nos dirigimos ao Pai, sendo Cristo o objeto de nossa oração. É o próprio Cristo que pedimos ao Pai. Sto. Agostinho irá dizer, a propósito do Sl 84(85),8, que nele pedimos a Deus que nos envie Cristo: Dá-nos o teu Cristo, pois nele está a tua misericórdia. Nós também queremos dizer: dá-nos o teu Cristo. É verdade que Deus já nos deu o seu Cristo, mesmo assim queremos sempre repetir: Dá-nos o teu Cristo. Pois também dizemos: «O pão nosso de cada dia nos dai hoje» (Mt 6,11). Quem é, pois, o nosso pão senão aquele que disse: «Eu sou o Pão vivo que desceu do céu»? (Jo 6,41)[10].

Salmos de lamentação e de imprecação

É bastante útil e proveitoso compreender os salmos como oração do próprio Jesus Cristo ou, se não forem diretamente dirigidos a Deus, entendê-los como profecia a respeito de Cristo. No entanto, quem conhece os salmos mais de perto, duvidará que todos possam ser interpretados desta forma. Antes de tudo, muitos salmos de lamentação não permitem uma semelhante interpretação. Ou a culpa humana é neles confessada com ênfase ou os responsáveis pela desgraça do orante são amaldiçoados de maneira muito forte. Ambas as atitudes, tanto a confissão da própria culpa grave como a veemente maldição dos inimigos, são impossíveis de imaginar na boca daquele que, pela fé, sabemos não ter cometido pecado algum e que, além do mais, tomou sobre si o pecado do mundo.

Em muitos salmos de lamentação encontramos palavras como: Ó Senhor, por vosso nome e vossa honra, perdoai os meus pecados que são tantos (Sl 24[25],11); ou: Desviai o vosso olhar dos meus pecados e apagai todas as minhas transgressões (Sl 50[51],11). Quanto à compreensão desses salmos, Sto. Agostinho, cujo grande comentário dos salmos é uma espécie de «summa» da exegese patrística dos mesmos, refletiu a respeito do problema. Na introdução do Comentário sobre o Salmo 30(31), ele diz: É Cristo quem fala. É verdade que nesse salmo ele diz algumas coisas que aparentemente não combinam com Cristo, nossa sublime Cabeça, e antes de tudo, não convém ao Verbo que no princípio estava com Deus (cf. Jo 1,1), e mesmo não se aplicam a Cristo na sua condição de servo que assumiu da Virgem. Mesmo assim, é Cristo quem fala,  pois ele está presente como Cristo também nos seus membros[11]. A solução aqui apresentada pelo grande bispo de Hipona está numa interpretação cristológica, a saber, nas perguntas  que, num primeiro momento, parecem estranhas, mas não supérfluas: Quem é esse Cristo com o qual nos deparamos nos salmos? É  Jesus que viveu como homem, foi condenado e morreu na cruz? Ou é o Senhor glorificado, sentado à direita do Pai? Ou é Cristo, cujo corpo é a Igreja, ele que vive em seus membros?

Todas as respostas podem ser corretas. Sto. Agostinho não se cansa de frisar: se quisermos ter uma compreensão adequada dos salmos é indispensável perguntar, em cada salmo, como ele fala de Cristo. Para isso, criou a fórmula do totus Christus, do Cristo total, composto pela Cabeça e pelos membros que ouvimos, em sua totalidade, rezar nos salmos. Nos salmos de lamentação, que falam de culpa e arrependimento, os membros de Cristo estão rezando, ou melhor, Cristo que vive em nós, reza por nós, seus membros que ainda estamos a caminho, confessando os pecados e pedindo perdão. Embora a Igreja pertença inteiramente a Cristo, sua Cabeça, no entanto seu corpo ainda não atingiu a meta em todos os seus membros. Miséria, doença, fraqueza e culpas graves continuam existindo nos fiéis. Tudo isso é assumido nos salmos e Cristo o apresenta ao Pai. Sto. Agostinho afirma: Uma vez que o Cristo total é composto de Cabeça e corpo, ouçamos em todos os salmos a voz da Cabeça de tal modo que ouçamos igualmente as vozes do corpo. Pois o Senhor não quis falar separadamente, porque não quis estar separado de nós, conforme ele mesmo disse: «Eis que estou convosco até o fim do mundo». Portanto, se está conosco, ele fala em nós, fala de nós e fala por nós, porque também nós falamos nele[12].

No Salmo 3, tudo isso é bastante claro. Esse salmo é uma súplica individual, cujos lamentos terminam com expressões de confiança. Sto. Agostinho vê nele três aspectos: primeiramente, Jesus na terra, depois a Igreja e, finalmente, cada cristão individualmente. Para ele trata-se do Cristo total, composto de Cabeça e membros. De um lado, os membros formam uma unidade, do outro, eles são uma composição de muitos indivíduos, cada um procurando seu caminho para Deus. O versículo 6 (Eu me deito e adormeço bem tranqüilo; acordo em paz, pois o Senhor é meu sustento) é para Sto. Agostinho, como para outros Padres da Igreja, o versículo central do salmo. Aplicado a Jesus Cristo histórico, fala da sua morte e ressurreição. Mas não foi somente Cristo que ressuscitou: a Igreja também ressurgiu dos mortos. No batismo ela deixou para trás a noite do pecado, isto é, a morte; ela é agora o Povo de Deus iluminado por Cristo. Por conseguinte, também cada cristão deve rezar esse salmo com gratidão pelo seu batismo.

Em seguida, Sto. Agostinho interpreta brevemente o versículo 7 (Não terei medo de milhares que me cerquem, e furiosos se levantem contra mim) que, a seu ver, pode sem dificuldade ser compreendido a partir do que foi dito anteriormente: O Evangelho descreve a multidão que cercou o Cristo sofredor e crucificado. Quanto à Igreja, corpo de Cristo: Não tenho medo dos pagãos que combatem contra mim, a fim de eliminar em toda parte a religião cristã. Como os cristãos poderiam ter medo deles, uma vez que, através do óleo do sangue dos mártires em Cristo, o fogo do amor foi aceso neles? Quanto a cada membro do corpo, diz Sto. Agostinho: Ao lado daquilo que a Igreja sofreu e ainda sofre, também cada indivíduo enfrenta as tentações que o cercam[13].

Sto. Agostinho interpreta os salmos de lamentação como palavras dos membros do corpo de Cristo ainda a caminho. Mas, como ele e os outros Padres da Igreja tratam os salmos imprecatórios, bem mais difíceis de interpretar? Um exemplo típico é a interpretação que ele dá aos versículos cruéis do Salmo 136(137),8s: «Ó Babel devastadora, é feliz quem te pagar pelo mal que nos fizeste! É feliz quem, contra as pedras, esmagar os teus filhinhos!» Quem são os filhinhos da Babilônia? São os maus desejos logo ao despertarem. Há pessoas que combatem contra os maus pensamentos já enraizados. Quando os maus desejos estão surgindo, antes de o mau costume te subjugar, enquanto o desejo ainda estiver pequeno e fraco, não deixes que te domine. Esmaga-o enquanto for pequeno. Se receares que ele, mesmo esmagado, não morra, então esmaga-o contra o rochedo. «O rochedo, porém, era Cristo» (1Cor 10,4)[14].

As maldições nos salmos devem ser entendidas como um desejo que Deus apague o mal, por outras palavras, que ele realize o último pedido do Pai-nosso: Livrai-nos do mal! A maldição não se dirige contra o inimigo como homem, mas enquanto pecador; que o pecador desapareça enquanto pecador, a fim de poder viver como pessoa humana. É o que acontece quando o homem se converte.

Deus não resolve o problema do mal destruindo os homens que o praticam, mas transformando o pecador em justo, ou seja, destruindo o pecador enquanto pecador[15]. Ao mesmo tempo, os Padres da Igreja reconhecem que o mal não se encontra apenas no outro; quando pedimos que os pecadores desapareçam da terra, a maldição dirige-se também contra nós próprios, enquanto pecadores. Torna-se assim evidente que o pedido para destruir o mal atinge nossa existência. É o pedido para que Deus execute seu julgamento em nós, que ele nos transforme no fogo da purificação e nos incorpore totalmente no corpo de seu Filho.

Interpretação existencial

É mais um ponto importante na interpretação patrística dos salmos. Os Padres da Igreja estão convictos de que o destinatário imediato de um salmo não é aquele que, muitos séculos atrás, rezou esse salmo pela primeira vez, mas o leitor ou o ouvinte de hoje: Deus está sentado no seu trono sagrado. Que trono sagrado é esse? Talvez sejam os céus; assim pode ser interpretado. Como sabemos, Cristo subiu com seu corpo que foi crucificado e está sentado à direita do Pai, de onde aguardamos sua nova vinda, a fim de julgar os vivos e os mortos. Ele está sentado no seu trono sagrado. Os céus são esse trono sagrado? Tu também queres ser seu trono sagrado? Não penses que não o podes ser. Prepara para ele um trono em teu coração, ele virá e de bom grado reinará nele. Ele mesmo é o poder e a sabedoria de Deus. O que diz a Escritura a respeito dessa sabedoria? «A alma do justo é o trono da sabedoria» (cf. Sb 7). Se, portanto, a alma do justo é o trono da sabedoria, seja tua alma justa e assim serás um trono real da sabedoria[16].

Nos salmos, o homem não somente aprende algo sobre Deus e sobre a história da salvação, mas se reconhece a si próprio como num espelho. Sou de opinião que nas palavras desse Livro a vida inteira do homem, tanto as atitudes espirituais fundamentais como as emoções e pensamentos atuais, estão presentes. Nada mais pode ser encontrado no homem que já não esteja nos salmos, escreve Sto. Atanásio[17]. Devemos tomar muito a sério essa afirmação. O saltério diz ao homem o que ele é e como ele é; nada há de humano que não possa de alguma maneira ser nele encontrado. O saltério vai mais além: não apenas mostra ao homem quem ele é, mas, ao mesmo tempo, lhe dá as palavras necessárias para expressar esse reconhecimento e apresentá-lo a Deus. Todos nós fazemos esta experiência: gostaríamos de rezar de modo bem pessoal, com nossas próprias palavras, entretanto, muitas vezes, temos dificuldade de encontrar as palavras adequadas. Quando tentamos falar com Deus, freqüentemente experimentamos como a oração é penosa ou até desanimadora, como as palavras nos faltam, mesmo se em outros momentos não temos dificuldade de falar.

Nessa situação, os salmos tornam-se uma escola de oração. Eles são um presente que recebemos quando, à semelhança dos discípulos de Jesus, dizemos: Senhor, ensina-nos a rezar (Lc 11,1). Podemos comparar uma pessoa que começa a rezar com uma criança que aprende a falar. A mãe precisa dizer as palavras à criança, a fim de que ela possa repeti-las. De igual modo recebemos com os salmos as palavras com que podemos expressar a nossa fé e nos dirigirmos a Deus.

Sto. Atanásio escreve a esse respeito: Nas Escrituras somos chamados à conversão; no saltério encontras o modelo de como te converteres e o que deves dizer na conversão... Além disso, temos o mandamento de em tudo sermos agradecidos (1Ts 5,18). Novamente são os salmos a nos ensinarem o que dizer quando queremos agradecer. Em outros livros da Sagrada Escritura lemos: «Todos os que quiserem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos» (2Tm 3,11). Nos salmos ficamos sabendo o que devemos dizer na fuga e quais as palavras a dirigir a Deus durante a perseguição ou depois, como libertados[18]. A pessoa que lê os salmos os assimila de uma forma diferente dos outros livros da Sagrada Escritura; ela os acolhe em sua vida de tal modo que eles se tornam suas próprias palavras e exprimem seu ser e seus sentimentos mais profundos. Muito mais ainda: o orante dos salmos não encontra neles apenas as palavras adequadas com que possa exprimir sua prece. Os salmos são palavra de Deus, palavras de Cristo vivo. Quem os reza se transforma, sua mente muda, de modo a poder dizer com São Paulo: Nós, todavia, temos o pensamento de Cristo (1Cor 2,16).

A pessoa que reza os salmos entra em íntima comunicação com Cristo, o primeiro orante dos salmos, mas também com os autores humanos dessas orações, acerca dos quais Sto. Atanásio naturalmente pressupõe estarem vivos e que, como Igreja celeste, rezam conosco. Ele adverte expressamente que não se substituam os salmos por outras orações criadas por nós próprios: Ninguém procure embelezar o saltério com expressões de linguagem mundana ou modificá-los e até mesmo mudá-los. Devemos ler e cantar os salmos simplesmente conforme o texto original. Os homens que nos transmitiram os salmos devem reconhecer suas próprias palavras e poderem assim rezar conosco. Mais ainda: o Espírito Santo deve perceber as palavras com que falou por meio desses homens e nos socorrer em nossa fraqueza (cf. Rm 8,26). Na medida em que a vida dos santos é mais santa que a dos demais homens, devemos com justeza considerar suas palavras mais santas e mais eficientes do que aquelas que formulamos[19].

A Igreja antiga considerava o saltério como uma Bíblia em miniatura, um resumo de toda a Sagrada Escritura. Quem conhece os salmos, isto é, quem os sabe de cor, conhece o núcleo da Bíblia inteira. Para os monges antigos era natural saber o saltério todo de cor. Sto. Atanásio, bispo de Alexandria, dizia a propósito: Como um jardim, ele (o saltério) carrega em si os frutos de todos os livros da Sagrada Escritura e os transforma em cânticos[20]. Quanto mais rezarmos os salmos, tanto melhor eles se revelam como oração de Cristo, como oração que nos faz compreender quem é Cristo e quem somos nós; como oração que nos permite de forma única nos unirmos como membros de Cristo em oração com a nossa Cabeça. Vale a pena repetir aqui o que um poeta moderno expressou de maneira substanciosa:

RESULTADO

Após a caminhada matinal
sobre a ponte dos salmos,
não mais giro
sobre o próprio eixo;
nos meus medos diários
respiro as antigas palavras
de salvação
e fico cheio de esperança.

Wilhelm Bruners[21]

Madre Christiana Reemts, OSB, é, desde 2005, abadessa da Abadia de Mariendonk (Alemanha). Doutora em Teologia, é autora de vários livros e artigos de Patrologia, especialmente sobre Orígenes.

Traduzido do alemão por Irmã Hildegardes Nassen, OSB (Academia Santa Gertrudes, Olinda, PE).

[1] Por exemplo, cf. o comentário: Frank-Lothar Hossfeld – Erich Zenger, Psalmen 51-100. Freiburg 2001.
[2] Cf. Ingo Baldermann, Wer hört mein Weinen? Kinder entdecken sich selbst in den Psalmen (WdL 4). Neukirchen-Vluyin 2007); Ich werde nicht sterben. Psalmen als Gebrauchstexte. Neukirchen-Vluyin 1990.
[3] Tertuliano, Contra Praxéias 11,7.
[4] Sto. Atanásio, Carta a Marcelino 5-8.26.
[5] Sto. Irineu de Lião, Demonstração da Pregação Apostólica 73s.
[6] Sto. Agostinho, Comentário sobre o Salmo 57,1.
[7] São Justino, Diálogo com Trifão 85, 1.
[8] Sto. Hilário de Poitiers, Tratado sobre o Salmo 1,1.
[9] Sto. Agostinho, Comentário sobre o Salmo 3,6s.
[10] Sto. Agostinho, Comentário sobre o Salmo 84,9.
[11] Sto. Agostinho, Comentário II  sobre o Salmo 30,1,4.
[12] Sto. Agostinho, Comentário sobre o Salmo 56,1.
[13] Sto. Agostinho, Comentário sobre o Salmo 3,6.9s.
[14] Sto. Agostinho, Comentário sobre o Salmo 136,21. A Regra de São Bento também sugere essa interpretação: cf. RB Prol 28 e RB 4,50.
[15] Cf. a esse respeito:  São Jerônimo, Tratado 59 sobre os Salmos.
[16] Sto. Agostinho, Comentário sobre o Salmo 46,10.
[17] Sto. Atanásio, Carta a Marcelino 30.
[18] Ibidem, 10.
[19] Ibidem, 31.
[20] Ibidem, 2.
[21] Wilhelm Bruners, Verabschiede die Nacht. Gedichte – Erzählungen – Meditationen – Biblisches. Düsseldorf 1999, 27.