REZAR OS SALMOS HOJE

Dom Philippe Rouillard, OSB

Depois de um breve e consistente resumo da história do Saltério litúrgico nos mosteiros, o Autor aborda de maneira bastante franca e bem humorada os verdadeiros problemas que a utilização dos salmos podem suscitar hoje em dia para quem os canta, em particular os longos salmos históricos e a questão do caráter não cristão dos salmos.


Senhor, abri os meus lábios. E minha boca anunciará o vosso louvor – Deus, vinde em meu auxílio. Senhor, socorrei-me sem demora. Será que somos bastante atentos ou nunca percebemos a diferença que existe entre o versículo introdutório das Laudes e o que dizemos no começo das outras Horas do Ofício ao longo do dia? De manhã cedo, queremos louvar o Senhor, enquanto nas demais Horas o invocamos para que ele venha simultaneamente em nosso auxílio e nosso socorro, como se estivéssemos em perigo. Essas duas atitudes, uma de admiração e aclamação, a outra de incerteza e inquietude vão se alternar constantemente no saltério e, por conseguinte, em nossa oração monástica que nunca deixa de recorrer aos salmos.

Uma evidência e uma experiência logo saltam à vista: os salmos são portadores de alguns problemas para os homens de hoje e, de modo particular, para os monges. A fim de limitar e, tanto quanto possível, esclarecer a questão, nós nos propomos de início evocar de maneira concisa a história remota e, sobretudo, recente do Saltério litúrgico em uso nos mosteiros; em seguida, procuraremos elencar os diferentes modelos de salmos; enfim, passaremos em revista as principais dificuldades que a utilização dos salmos pode suscitar em nossos dias numa comunidade monástica e em cada um de nós.

O Saltério em um só dia ou em um mês, em latim ou em vernáculo

Em sua Regra, São Bento afirma ter lido que nossos santos Pais recitavam, corajosamente, em um só dia o Saltério inteiro[1]. Não se sabe muito bem de onde lhe veio essa informação, ainda não devidamente verificada[2]. Podemos, entretanto, nos perguntar como terá sido a oração daqueles homens recitando ou cantarolando diariamente 150 salmos. Como quer que queira, São Bento optou por uma recitação hebdomadária do Saltério, ao qual se acrescentam os cânticos já tradicionais.

São Bento organiza com muito cuidado a distribuição dos salmos pelos oito Ofícios, diurnos e noturnos, celebrados cotidianamente no decorrer da semana. Um determinado número de salmos são ditos a cada dia: 3 e 94(95) nas Vigílias; 66(67), 50(51) e 148-150 nas Laudes; salmos de Tércia, Sexta e Noa; 4, 90(91) e 133(134) nas Completas. Acrescentando-se os salmos próprios de cada Hora e de cada dia, chega-se a um total diário de aproximadamente quarenta salmos, algo bastante pesado para uma comunidade que celebra o Ofício no coro. O peso será maior ainda para um padre secular (pároco) que herdará esse Ofício mais ou menos adaptado e terá uma boa parte do tempo livre ocupado em «dizer seu breviário».

Durante séculos, as comunidades monásticas seguidoras da Regra de São Bento, ou mais precisamente, os monges de coro pertencentes a estas comunidades – pois os irmãos conversos não tinham obrigação de participar desses Ofícios – iriam cumprir com esta obrigação. Umas solenizando ao máximo, cantando todos os salmos, acrescentando o «Ofício Parvo» da Virgem Maria ou o Ofício dos Defuntos. Outras, pelo contrário, mesmo respeitando a letra da regulamentação, se esforçavam em aliviar esse pensum servitutis: salmos recitados com uma rapidez impressionante; Horas de Tércia, Sexta e Noa ditas uma em seguida à outra, sem nenhuma preocupação com a verdade das horas. Recordemos ainda que, na Quaresma, visto a Regra determinar que a refeição fosse tomada depois das Vésperas, encontrou-se uma solução «excelente» recitando-se as Vésperas no final da manhã!

A força do hábito fazia com que, no conjunto, os monges aceitassem celebrar o Oficio e desfiar os salmos nessas condições. Alguns, mais exigentes ou mais atentos, esperavam um dia poderem louvar a Deus e rezar de outro modo, quando então seria mais fácil cumprir o preceito fundamental da Regra: Que nossa mente concorde com nossa voz[3].

Foi preciso aguardar o Concílio Vaticano II para que, nesse como em muitos outros pontos, se colocasse em prática a necessária atualização. Em primeiro lugar, o Concílio possibilitou amplamente, para a Liturgia em seu conjunto, a adoção do vernáculo. Os mosteiros em sua maioria, pouco a pouco e não sem hesitação, adotaram a salmodia em suas línguas nacionais, o que seguramente não se fez de um dia para o outro. Era preciso uma tradução de qualidade com um texto que pudesse ser cantado, além de novas melodias. Algumas comunidades conservam até hoje as antífonas em latim, outras adotaram-nas em vernáculo.

Em todo caso, o que é novo e deu ocasião a múltiplas descobertas, foi a possibilidade de utilizar doravante um Saltério em língua moderna: encantamento, surpresas, talvez até perplexidade. É bem mais fácil que minha mente esteja de acordo com minha voz, mas é também possível que eu me encontre mais ou menos em desacordo com o que devo ou deveria dizer. Alguns salmos estão muito longe de nossa mentalidade ou de nossa espiritualidade, e as instâncias romanas encarregadas da liturgia suprimiram ou pelo menos colocaram à margem três salmos considerados muito violentos: 57(58), 82(83) e 108(109). De igual modo, foram omitidos ou colocados entre parênteses, versículos que espontaneamente são classificados de bárbaros, tais como: Ele esmaga a cabeça dos que são seus inimigos, e os crânios contumazes dos que vivem no pecado (Sl 67[68],22); ou: É feliz quem, contra as pedras, esmagar os teus filhinhos! (Sl 136[137],9). Portanto, a reforma trocou a língua dos salmos, passando do latim para o vernáculo e, modificando sua linguagem, afastou alguns excessos.

Embora com menos rapidez, o Concílio favoreceu também a reforma de nosso Saltério monástico. Mesmo evocando o mito de uma recitação cotidiana do Saltério, São Bento havia optado por uma recitação semanal que, em princípio, poderia chegar a uns vinte salmos cada dia, mas, por causa das numerosas repetições, terminava chegando a uns quarenta. Com realismo e levando em conta o que a Igreja estava fazendo para o clero secular, os monges, beneditinos e cistercienses, decidiram propor às comunidades diversas possibilidades: suprimir a Prima e conservar apenas uma Hora Média, mas, sobretudo, repartir a oração do Saltério em duas semanas ou, no máximo, em quatro semanas (para as Vigílias). Assim, o número diário dos salmos ficaria sensivelmente reduzido e se poderia manter um melhor equilíbrio entre os diversos elementos do Ofício, notadamente as leituras e as preces de intercessão.

Para dar um simples exemplo: na Abadia de la Source, em Paris, onde nosso horário de Ofício deve levar em consideração os horários dos cursos dos monges estudantes, temos diariamente quatro Ofícios: Laudes integradas na Missa, Sexta, Vésperas e Completas (substituídas no sábado à noite pelas Vigílias do domingo). Nos dias comuns, rezamos doze salmos. Os salmos das Laudes e das Vésperas são distribuídos em uma semana, os da Sexta em duas semanas, os das Completas e das Vigílias em quatro. Vivendo a realidade que é a nossa, achamos que assim está muito bem. Contudo, consideramos normal e necessário que nos mosteiros com um número maior de monges, com outra missão e outras atividades, se observe um programa bem mais amplo. Nosso Ofício poderia também mudar se nossa situação mudasse. O Ofício deve corresponder à comunidade que o celebra.

Os diferentes modelos de salmos

Uma comunidade que possui dez, cinqüenta ou cem membros terá diante dos olhos os mesmos salmos, os 150 salmos do Saltério, à exceção talvez desses dois ou três muito vingativos que foram postos de lado.

Quando abrimos o Saltério ou tomamos parte, durante vinte e quatro horas, na salmodia dos monges, logo nos chama atenção a diversidade dos salmos. Um bom número deles exprimem o encantamento diante da beleza, da grandeza e do poder do Deus Criador e Senhor do universo. A bem dizer, o salmista canta menos a beleza do próprio Deus, que ele nunca viu, do que a beleza e a perfeição da criação, que tem perante os olhos. Seu olhar de contemplativo, de artista e de poeta observa e admira todas essas potências cósmicas criadas por Deus, para sua glória e para o bem do homem; ele vê a solidez dos fundamentos: A terra vós firmastes em suas bases, ficará firme pelos séculos sem fim (Sl 103[104],5), mas percebe também a mantença do cotidiano: Estendeis a escuridão e vem a noite... Enviais o vosso espírito e renascem (Sl 103[104],20.30). É normal que à beleza da criação (poièsis) responda o poema (poièma) do homem reverente: Quero cantar ao Senhor enquanto eu viver... Seja-lhe grato meu poema (Sl 103[104],33-34).

O salmo 103(104), que acabamos de citar, percorre a criação inteira: o céu, a terra e o mar, a fim de que suba até Deus o louvor, a glória e a bênção; mas poderíamos ainda elencar uns cinqüenta salmos que inteira ou parcialmente cantam o louvor de Deus ou sua carinhosa benevolência para com o homem.

Se Deus cuida da criação, ele é também solícito para com a história dos homens e, particularmente, a história de seu povo. Ele é o «Senhor dos tempos e da história». Por gratidão, mas também para sentir confiança nos dias de inquietude, nos dias de provação, nos dias em que se crê abandonado, Israel, pela voz de seu salmista, relembra sua história e convida Deus a também dela se lembrar. Na maioria das vezes, existe uma grande distância, para não dizer um abismo, entre o passado, ou pelo menos o que a história sagrada e embelezada nos conta, e o que vivemos hoje em dia: Não mais conduzis nossas tropas (Sl 59[60],12). Fazendo memória do passado, evocando os tempos gloriosos e as provações superadas, cultivando o memorial, Israel quer acreditar que seu Deus se lembrará dele e se mostrará fiel a sua promessa ou a seu renome. Para ajudar Deus a se lembrar, se considera eficaz lembrar-lhe cada dia as «maravilhas» por ele realizadas no passado. Salmos bastante longos recordam sempre a mesma história: salmos 59(60), 67(68), 76-79(77-80), 82(83), 88(89), 104-106(105-107). Mais adiante nos interrogaremos acerca da leitura que o cristão pode fazer hoje dessas «memórias de Israel».

Uma terceira categoria de salmos é constituída de orações e meditações com uma característica mais individual, pessoal ou mesmo íntima. Não é mais a comunidade que se dirige a Deus, mas o fiel que expõe sua inquietação ou angústia, sua fidelidade ou sua confiança. O salmo não é mais redigido no plural, mas no singular, se bem que em diversos casos o «eu» possa ter um valor coletivo. O salmo pode ainda começar no singular e terminar no plural, pois é possível que uma bela oração individual tenha um uso litúrgico e comunitário.

São numerosos os salmos em que o fiel se queixa e se lamenta: ele está rodeado de ímpios e de malvados, é caluniado, preparam-lhe armadilhas, chega-se até a desejar sua morte. Ele pede a Deus que não o abandone, que o livre de seus agressores, ou simplesmente que os extermine. Outros salmos, que parecem ter sido escritos por um outro salmista, de um natural mais otimista, manifestam admiração com a presença de Deus, sua proximidade, sua atenção. O salmo 138(139) é uma obra-prima de análise, de transparência, de íntima gratidão: Senhor, vós me sondais e conheceis... de longe penetrais meus pensamentos... Que prodígio e maravilha as vossas obras! Até o mais íntimo, Senhor, me conheceis! (Sl 138[139],1.2.14): é perante Deus que eu me conheço verdadeiramente. De modo diverso, o salmo 118(119) é um interminável diálogo de amor: «tu» e «eu» são dois pronomes que vêm constantemente à tona. A cada versículo, sob um ou outro vocábulo, são mencionados os preceitos ou os mandamentos de Deus, que fazem a felicidade do homem, daquele que crê e cuja única aspiração é a fidelidade: Minha alegria é a vossa Aliança (Sl 118[119],24). De acordo com seu temperamento e conforme as circunstâncias, o fiel se sentirá mais à vontade com este ou aquele modelo de salmo: seu otimismo natural, sua alegria de viver, ou, pelo contrário, sua intranqüilidade, uma provação, impelem-no a recorrer aos salmos de luz ou aos salmos mais sombrios.

Podemos ainda fazer uso pessoal do Saltério e, por conseguinte, constituir um repertório de salmos que habitualmente convêm melhor ao nosso caráter, ou até destacar aqueles que nos parecem mais adaptados às diversas situações. Devemos, pois, tomar cuidado para não utilizar de modo egoísta esse livro bíblico. Mesmo rezando sozinho, o fiel não ora somente em seu próprio nome: seu louvor ou seu pedido são feitos também em nome de seu próximo ou em nome de todos os homens. A fortiori, quando os monges e as monjas salmodiam juntos, sua oração é legitimamente e necessariamente uma oração pessoal, mas é também e acima de tudo uma oração da comunidade, uma oração da Igreja, uma oração do mundo inteiro. Se convocamos todas as criaturas do céu e da terra para louvar a Deus, devemos igualmente dar espaço a todos os seres humanos no chamado pelo socorro de Deus. Ao redor de nós e até os extremos da terra, há permanentemente situações de felicidade que fazem brotar a ação de graças, e situações de infortúnio ou de desgraça que justificam todos os rogos.  Portanto, é bom e justo que o Saltério seja bastante abrangente e diversificado, a fim de responder a experiências e condições tão diferentes umas das outras.

Salmodiar em 2007

Contudo, há uma indagação que se fazia e freqüentemente ainda é feita a cada um de nós: podemos, honestamente, rezar com os salmos, com todos os salmos? Esses poemas provenientes de tão longe podem ainda hoje nutrir a oração cotidiana de nossas comunidades? Com certeza, a grande maioria de todos nós aprecia que os salmos tenham passado do latim para o vernáculo e que sua distribuição diária tenha sido bastante aliviada. Mas, é normal e legítimo refletir sobre as possibilidades de novos arranjos, visando melhorar a oração dos salmos.

Em primeiro lugar, é bom lembrar que o Saltério é um livro. Em 2006, o dominicano Jean-Luc Vesco, antigo diretor da «École Biblique» de Jerusalém, publicou em dois volumes, totalizando 1.400 páginas, um estudo monumental intitulado: Le psautier de David, traduit et commenté (Éditions du Cerf, coll. «Lectio Divina» 210 e 211). No prefácio da obra, lê-se que «no Saltério, cada salmo tem seu próprio lugar, está exatamente onde deve estar, e não alhures. É importante ler o Saltério como um livro. Trata-se de um conjunto bem pensado e, portanto, bem estruturado. Não se trata de um amontoado de salmos colocados em desordem. Pelo contrário, nele reina uma arquitetura, e arquitetura significa plano, organização de elementos, utilidade para os usuários, genialidade nas soluções apresentadas e beleza para o olhar... De uns vinte anos para cá, os estudos sobre o Saltério como livro e sobre a estrutura interna dos salmos se têm multiplicado» (p. 9). Podemos, pois, nos perguntar se as liturgias cristãs, no emprego que fazem dos salmos, não quebraram ou desmantelaram o livro que é o saltério. Com efeito, os clérigos que desde o século IV elaboraram os Ofícios de Laudes e de Vésperas para as comunidades cristãs, e São Bento mais ainda ao construir seu vasto edifício da oração das Horas, julgaram perfeitamente legítimo e até necessário efetuar uma seleção no Saltério e escolher os salmos que, pela referência que fazem à manhã, à tarde ou à luz, melhor conviessem às diferentes horas do dia. Se, para as Vigílias, se segue geralmente a ordem numérica dos salmos, assim se procede considerando a arquitetura do livro dos salmos ou é, sobretudo, porque parece ser a solução mais simples? Depois da publicação do livro do P. Vesco, é desejável que se estabeleça um diálogo entre exegetas e liturgistas. Estes últimos não deixarão de perceber que, na liturgia, a leitura contínua dos livros bíblicos, mormente dos evangelhos, é rara; de modo geral, lemos perícopes ou, na melhor das hipóteses, fazemos a leitura semi-contínua de um livro.

Uma questão também freqüente é a dos salmos chamados imprecatórios. Neles se pede a Deus que permita um mau destino aos homens que nos importunam. Sabemos que três salmos julgados demasiadamente violentos foram retirados do volume oficial da Liturgia das Horas. Se três salmos foram eliminados e se, da mesma forma, versículos bárbaros foram colocados entre parênteses, poderemos marginalizar outros salmos que não nos parecem bem-vindos numa celebração cristã? Não é fácil de responder à pergunta. É menos uma questão de direito que uma questão de verdade. De fato, na Salmodia, estamos sempre nos queixando de todos os malvados que nos perseguem. Certa vez, alguns estudantes corajosos vieram ao Ofício da Noite, na abadia de La Pierre-qui-Vire (que se celebra às 2 horas da madrugada); no dia seguinte, disseram ao monge hospedeiro: «Nós não pensávamos que vocês tivessem tanto inimigos!» Entretanto, se não rezamos somente por nós e contra nossos supostos inimigos, mas por todos os homens perseguidos no mundo, se ontem pensávamos no Ruanda e na Chechênia e hoje pensamos no Iraque ou no Darfur, podemos achar que os salmos que dizemos em nome desses oprimidos não são tão veementes! Ou melhor, em lugar de dizer automaticamente esses salmos uma vez por semana, não seria conveniente que, vez por outra, rezássemos um Ofício pelos povos em guerra, assim como temos no Missal as missas votivas «em tempo de guerra» ou «pelos refugiados» ou «pelos exilados»? Será por falta de imaginação que celebramos fielmente a Liturgia das Horas sem saber celebrar a liturgia dos tempos?

Em seguida aos salmos imprecatórios, vêm os salmos históricos que já repertoriamos acima. Uma dúzia de salmos relembra as aventuras e desventuras do povo de Israel, a fim de convencer Deus a ajudá-lo hoje, assim como ele o protegeu no passado. E como essa história é comprida, tais salmos são longos em sua maioria, citando nomes de lugares e de pessoas que hoje nos parecem bem distantes: Exultarei, repartindo Siquém, e o vale em Sucot medirei. Galaad, Manassés me pertencem, Efraim é o meu capacete e Judá, o meu cetro real (Sl 59[60],8-9). Igualmente, enveredamos em um salmo interminável onde se diz que as asas de uma pomba como prata resplandecem e a neve se espalha no Salmon, terminando nas Montanhas de Basã tão escarpadas e altaneiras (Sl 67[68],14-16), mas que não encontramos em mapa algum. Pode um homem sensato rezar com esses textos? Não se sente ele compelido a se evadir na distração? Sem sermos iconoclastas, desejaríamos que o Saltério litúrgico fosse aliviado de um certo número de salmos que nos fazem falar para não dizer nada. Ainda aqui, volta a injunção de São Bento: Que nossa mente concorde com nossa voz.

Resta ainda a questão do caráter não cristão dos salmos. Por definição, esses poemas do Antigo Testamento não conhecem nem a Santíssima Trindade nem Jesus Cristo. Alguns deles anunciam e esperam um Messias libertador (cf. Salmos 2,2; 17(18),51; 131(132),17 etc.). Outros possuem um caráter profético: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?... Eles repartem entre si as minhas vestes e sorteiam entre si a minha túnica (Sl 21[22],2.19). De fato, alguns salmos têm para nós, muito espontaneamente, uma ressonância cristã. E o próprio Jesus nos convida a procurá-lo e a encontrá-lo no Saltério, quando, nos últimos versículos do evangelho de São Lucas, declara a seus discípulos: São estas as coisas que eu vos falei quando ainda estava convosco: era necessário que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos (Lc 24,44). No entanto, é muito difícil para nós, psicologicamente, rezar a maioria dos salmos em nome de Cristo, como propuseram vários Padres da Igreja e outros autores espirituais de todos os tempos. Somos nós que rezamos os salmos, em nosso próprio nome e em nome dos homens de nosso tempo.

É verdade que as liturgias recorreram a diferentes meios para cristianizar os salmos. A partir do século IV começou-se a acrescentar no fim dos salmos a doxologia trinitária: Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Em vários lugares, cada salmo é seguido por um tempo de silêncio e por uma oração sálmica que, muitas vezes, propõe uma interpretação cristã; estas orações foram introduzidas nas edições de alguns Saltérios contemporâneos. Além disso, tanto nas línguas modernas como anteriormente em latim, cada salmo é acompanhado de uma antífona ou de um refrão, variáveis conforme os tempos litúrgicos, que normalmente servem de diretiva para uma leitura cristã. Contudo, devemos reconhecer que, em geral, não prestamos muita atenção a estas orações ou a estas antífonas, e, conseqüentemente, o salmo permanece em sua nudez original.

Esses complementos que procuram dar uma coloração ou uma ambiência cristã aos salmos não são ilegítimos, mas podemos considerar que temos nesses poemas, nesses clamores, nesses cânticos, um louvor ou um apelo que se dirigem ao Deus único, ao Criador, ao Senhor dos tempos e da história, ao Deus que ainda não havia revelado sua tríplice personalidade nem o acontecimento e o mistério da encarnação. Nós cremos em um só Deus, que está acima de tudo, que é luz, força e amor. É bom para nós que grande parte de nossa oração se dirija a esse Deus único e a esse Deus Criador que outros setores da liturgia não têm a vocação ou a função de exaltar. Os hinos e as orações do Ofício, a celebração da Eucaristia e dos sacramentos nos colocam em presença de um Deus Salvador, de Deus Pai que enviou seu Filho por nós homens e por nossa salvação, e que não cessa de mandar seu Espírito para nossa santificação e nossa unidade. É normal que a liturgia «cristã» celebre antes de tudo, sob diversas formas, o mistério da salvação em Jesus Cristo. Entretanto, é necessário guardar o equilíbrio com o mistério primordial e permanente da criação. Os monges e as monjas, considerados contemplativos, devem olhar mais além e, por conseguinte, se esforçarem para envolver na celebração da obra de Deus a totalidade das maravilhas realizadas pelo Altíssimo tanto no insondável domínio da criação quanto no indizível mistério de nossa salvação.

«Dize-me como rezas e eu te direi quem és». Esta afirmação pode ser dirigida a qualquer pessoa, mas pode também ser dirigida a nossa comunidade, em particular a toda comunidade monástica. A oração, ou melhor, a celebração do Ofício divino, tem um lugar muito importante em nossa vida, e nós queremos ser fiéis à recomendação de São Bento: Nada se anteponha ao Ofício divino[4]. É, pois, necessário tomar consciência de que realizamos este dever não por costume, mas como um elemento essencial da edificação e da vida de nossa comunidade, e como um esforço cotidiano e alegre mediante o qual temos a possibilidade de glorificar a Deus em nome de toda a criação e em nome de todos os homens. Os salmos, que tanto amamos, são cantos e orações que nos fazem entrar em comunhão com todos aqueles que, durante séculos, deles se serviram; cantos e orações que, apesar de algumas asperezas, recebemos como poemas que Deus inspirou para nos fazer pronunciar as palavras que ele espera de nós.

Dom Philippe Rouillard, OSB, é monge da Abadia de Saint-Paul de Wisques (França). Doutor em Teologia e autor de livros e publicações em matéria litúrgica, foi durante longos anos professor de teologia sacramentária no Pontifício Ateneu Anselmiano (Roma). Reside atualmente na Abadia de Sainte-Marie, em Paris.

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB (Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro, RJ).

[1] RB 18, 25.
[2] Cf. A. de Vogue, La Règle de Saint Benoît, V: Sources Chrétiennes 185, p. 545-554.
[3] RB 19,7.
[4] RB 43,3.