OS SALMOS IMPRECATÓRIOS

Quem é o meu inimigo?

Dame Paula Fairlie, OSB

Breve e conciso, o presente artigo reflete sobre a difícil questão que é o emprego dos salmos imprecatórios no saltério litúrgico. Devemos ou não rezá-los?


Os anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II, mais precisamente o período entre 1966 e 1970, foram a diversos títulos anos revolucionários. Eles mudaram literalmente nossa abordagem da liturgia. Os textos em língua latina haviam tornado a liturgia totalmente incompreensível para os leigos e os ritos sagrados eram oficiados pelo padre e seu coroinha num piedoso sussurro.

Muitos fiéis acompanhavam a Missa de missal na mão, as leituras eram feitas em latim e depois traduzidas para a língua vernácula. As práticas devocionais eram intensas: Exposição do Santíssimo Sacramento, Quarenta Horas, recitação do Rosário, Via Sacra, e o ponto alto de muitos domingos era a Bênção do Santíssimo. Inúmeros convertidos só se sentiam inteiramente católicos se o Santíssimo Sacramento fosse erguido em meio à luz de velas, do perfume do incenso e do badalar de campainhas e sinos. O ato de reverência era acentuado pelo sacerdote envolto em muitas camadas de veste sagrada com o ostensório levantado pelas mãos encobertas.

A introdução das línguas modernas na Missa não foi muito bem acolhida por alguns sacerdotes ou religiosos: o sussurro seria agora substituído por palavras que a assembléia podia acompanhar e a Bíblia, até então fechada, seria aberta aos leigos. Questões intermináveis seriam suscitadas e a falta de conhecimento da Escritura era patente.

No entanto, para vários de nós, o choque maior foi descobrir o conteúdo dos salmos, que durante anos havíamos rezado com tanta devoção. Descobríamos agora atitudes «não redimidas» que diziam respeito a muitos. No entanto, nós, monges e monjas da Congregação Beneditina Inglesa, recitávamos os salmos da maneira com que, ao longo dos séculos, havíamos tradicionalmente rezado, sufocando as emoções rudes e o instinto primitivo, bem como determinadas atitudes que os cristãos poderiam considerar como «não redimidas». 

Nosso Senhor rezou esses mesmos salmos, inclusive aqueles vingativos e cheios de ódio, transformando-os até que o inimigo odiado se transformasse no próximo amado. O inimigo continua, mas não é mais visto como nações, povos ou falsos amigos. O inimigo é o poder espiritual das trevas agindo em nossas atitudes e em nossa propensão a fazer o mal. Ao longo da infância ou da juventude podemos ter projetado nos outros nossas emoções inaceitáveis e nossa ignorância, transferindo o pecado pessoal e vendo o mal onde se projetava a própria sombra. Agora precisamos nos aventurar no íntimo do coração, onde estão a verdade e a realidade de nossas pessoas. Se formos sinceros, nós o perceberemos freqüentemente duro e sem amor, excludente e retaliador, raivoso e vingativo, até mesmo cheio de ódio e desgosto. Os salmos, em tal situação, podem ser um bom instrumento de libertação.

É raro um salmo que não contenha elementos de conflito entre o bem e o mal, contraste entre os que seguem o caminho da vida e os que trilham a senda dos malvados[1]. Para aqueles que rejeitam a companhia dos pecadores e zombadores e se comprazem na Lei do Senhor[2], há um sentimento de bem-aventurada alegria. Aqueles que se opõem a Deus e conspiram contra ele são escarnecidos[3]. No salmo 3, inimigos são os que dizem: Ele não acha a salvação junto de Deus, minando assim a própria fé. No salmo 4, o inimigo é a angustia da qual o salmista foi libertado.

Há um senso de justiça muito forte e um julgamento correto nos salmos. Deus é visto como um Juiz que escuta o queixoso e lhe concede os direitos devidos quando ninguém mais faria isso. Significa que existe uma ligação direta entre muitos salmistas e profetas, pois todos eles se preocupam com a justiça, o amor e a compaixão. Deus precisava demonstrar de que lado estava, mesmo se isso implicasse na destruição de seus inimigos

Em um artigo intitulado «Vivendo com o inimigo», o Padre Dermot Connolly indagava como alguém poderia rezar os salmos imprecatórios. Ele lançou a questão para seu grupo de estudos bíblicos, constituído por homens e mulheres comuns, trabalhadores assalariados de uma cidade africana. O grupo apresentou três soluções possíveis:

• Poderíamos ignorar essas imprecações: trata-se de preces e sentimentos do passado não condizentes com o ensinamento de Jesus que devemos amar até mesmo nossos inimigos.

• Poderíamos observar bem os nossos inimigos e vê-los como se fossem guiados por maus espíritos, dirigindo nossas imprecações contra as forças que tornam alguém nossos inimigos. Posso rezar para que meus inimigos sejam libertados dessas forças do mal.

• Poderia olhar para dentro de mim mesmo e ver a capacidade de ódio e vingança escondida no íntimo de meu coração. Pode ser uma tarefa dolorosa, constatar os meus próprios sentimentos negativos com relação às outras pessoas. Essas maldições não poderiam ser minha própria voz, pelo menos algumas vezes? Esses salmos despem minha alma, fazendo-me ver até que ponto eu deixo realmente de amar e perdoar os outros.

Por outras palavras, precisamos escutar o que os salmos ensinam sobre a natureza humana e nós mesmos. O salmista é sincero: ele desvenda cruamente suas emoções e não dissimula ser diferente do que ele é. Eis uma lição que certamente precisamos reaprender. Podemos aplicar os salmos imprecatórios a nós mesmos, a fim de descobrir a verdade e permitir que, à luz de Cristo, possamos atingir os mais escuros recônditos de nossos corações.

Dame Paula Fairlie OSB é, desde 1989, abadessa da Abadia de Curzon Park, Chester (Inglaterra).

Traduzido do inglês por Irmã Maria de Nazaré Barros de Campos, OSB (Mosteiro de São João, Campos do Jordão, SP).

[1] Sl 1,6
[2] Sl 1,2.
[3] Sl 2,2.