COMO É BOM CANTAR AO SENHOR!

Experiência monástica do Saltério

Dom Laurence O’Keeffe, OSB

Fazer a experiência do saltério como sua oração própria é «encontrar o mel escondido na cera» (São Bernardo). De sua íntima relação com os salmos, o monge irá descobrir neles a presença de Deus que lhe toca o coração.

Cibus in ore, psalmus in corde sapit; mel in cera, devotio in littera est[1]. Havia colméias em Claraval? Ou era apenas uma questão de cultura geral para São Bernardo que, discorrendo sobre o sentido profundo dos salmos, valeu-se da imagem da cera que contém mel? Os comentários sobre o Saltério que se limitam ao sentido literal dos salmos, tais como gênero literário, data de composição, contexto histórico e assim por diante, embora tendo um interesse intelectual, em última análise pouco adiantarão ao monge que procura exprimir seu amor a Cristo, aos mistérios de nossa salvação e desenvolver sua própria vida espiritual. Isso justifica a recomendação de São Bento quando aconselha seus monges a dedicarem o intervalo entre as Vigílias e as Laudes à meditação dos salmos e das leituras: O tempo que resta depois das Vigílias seja empregado na preparação de algum trecho do saltério ou das lições (RB 8,3). É nesse contexto que o mel é encontrado na cera, como diz São Bernardo. Para o monge, a meditação tranqüila do saltério irá lhe revelar a ternura de Deus para com a raça humana, a Igreja e cada pessoa. Acima de tudo, seu coração será tocado quando ele descobrir a presença divina no texto que tem a sua frente. Pois, no coro, os versículos passam tão depressa que não há tempo para se extrair um sentido espiritual mais profundo.

Na própria Sagrada Escritura, encontramos o Saltério sendo empregado como uma espécie de comentário aos acontecimentos contemporâneos. Os livros das Crônicas, em muitas passagens, recorrem ao Saltério para mostrar as intervenções de Deus na história de seu povo. Por exemplo, quando a Arca da Aliança foi trazida para a Tenda que Davi construiu para abrigá-la, como se lê em 1Cr 16, a assembléia litúrgica é representada manifestando sua alegria em três salmos, a saber: 105(106), 96(97) e 106(107).

No Novo Testamento, também a Igreja reflete sobre a paixão e a ressurreição de Jesus como o cumprimento do que fora dito no livro dos salmos. Lembrar-se da maneira como esses textos ocorrem no Novo Testamento lhes dá profundidade durante a salmodia no coro. São Lucas narra que quando nosso Senhor, após sua ressurreição, apareceu aos discípulos no lugar onde estavam reunidos, tomou com eles uma refeição e disse: São estas as coisas que eu vos falei quando ainda estava convosco: era necessário que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então ele abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras (Lc 24,44).

É à luz dessa reflexão que São Pedro, em seu discurso no dia de Pentecostes, recorre aos salmos 15(16) e 109(110) para ilustrar esses acontecimentos. O próprio nosso Senhor serviu-se do salmo 117(118) para explicar a rejeição que sofrera por parte de seus inimigos, bem como seu triunfo sobre a morte quando ressuscitou: A pedra que os pedreiros rejeitaram tornou-se a pedra angular. Isto vem do Senhor. É uma maravilha aos nossos olhos (Sl 118[119],22).

Em Mt 21,42, esse mesmo versículo conclui a parábola dos vinhateiros homicidas na qual aprendemos que o Messias, embora rejeitado por seu povo, será a pedra angular vitoriosa do novo povo de Deus.

São Pedro utiliza ainda essa passagem, em At 4,11, ao pregar para as multidões depois da cura do homem coxo na Porta Formosa do Templo. O versículo combina o tema da rejeição com o da justificação/exaltação de Deus. No capítulo segundo de sua primeira Carta, ele o retoma numa série de citações (talvez baseado no significado de seu nome: rocha ou pedra).

Há outro versículo do mesmo salmo que se refere à ressurreição, embora algumas traduções modernas não sejam tão fiéis ao significado original: A mão direita do Senhor fez maravilhas, a mão direita do Senhor me levantou, a mão direita do Senhor fez maravilhas! Não morrerei, mas, ao contrário, viverei para cantar as grandes obras do Senhor! (Sl 118[119],16-17). Este versículo foi também utilizado nos primórdios da pregação apostólica: Deus, porém, por seu poder, o exaltou, tornando-o Chefe e Salvador, para propiciar a Israel a conversão e o perdão dos seus pecados (At 5,31). Em todos os novos esquemas de distribuição do saltério, este salmo é sempre cantado aos domingos, tornando presente ao coro dos monges o acontecimento da ressurreição e o próprio ressurgir de cada um para a vida com Cristo.

Mas não é somente o salmo 117(118) que fala da ressurreição de Cristo. Os salmos históricos atuam igualmente como meio para nos fazerem recordar as mirabilia Dei do Antigo Testamento, bem como o grande acontecimento da Páscoa de Cristo. No salmo 77(78),13-16, por exemplo, lemos o seguinte: Rasgou o mar e os conduziu através dele, levantando as suas águas como um dique; durante o dia orientou-os pela nuvem, e de noite, por um fogo esplendoroso. Rochedos no deserto ele partiu e lhes deu para beber águas correntes; fez brotar água abundante do rochedo, e a fez correr como torrente no deserto.

São Paulo ensina que esses fatos prefiguravam os mistérios que celebramos na Liturgia – Batismo e Eucaristia: Estas coisas lhes aconteciam com sentido figurativo e foram escritas como advertência para nós, aos quais chegou o fim dos tempos (1Cor 10,11).

Na referida citação não se pode deixar de pensar em nosso Senhor, descrito por São Paulo como a rocha – a rocha que os acompanhava era Cristo (1Cor 10,4) – de cujo lado perfurado pela lança jorrou sangue e água.

O mesmo Apóstolo, em duas de suas Cartas, sugere a seus cristãos convertidos fazerem uso do saltério: Enchei-vos do Espírito: entoai juntos salmos, hinos e cânticos espirituais; cantai e salmodiai ao Senhor, de todo o coração (Ef 5,18-19). E ainda: Movidos pela graça, cantai a Deus, em vossos corações, com salmos, hinos e cânticos inspirados pelo Espírito (Cl 3,16).

Foi com base nessa tradição que os Pais do deserto começaram a adotar a salmodia como parte integrante da vida espiritual deles. Cassiano relata, na primeira de suas Conferências, de que maneira o Abade Moisés recomendava a recitação do Saltério como meio de manter à distância os pensamentos perniciosos: Portanto, é a essa finalidade que se destinam a leitura assídua e a constante meditação da Escritura, que devem despertar em nós a lembrança das coisas divinas. É esse, pois, o motivo do repetido canto dos salmos: alimentar em nós a contínua compunção... para afinar-nos a mente de tal modo que ela perca o sabor das coisas terrenas, para poder desse modo contemplar livremente as coisas celestes[2]. São Bento se refere a essa tradição ao dizer que os Pais do deserto recitavam o Saltério inteiro em um só dia: Pois lemos que os nossos santos Pais realizavam, corajosamente, em um só dia isso que, oxalá, nós indolentes, cumprimos no decorrer de toda uma semana (RB 18,25).

Talvez ele faça alusão a um texto parecido que se encontra nas «Verba Seniorum»: Eles disseram que costumavam terminar suas orações e salmos, e depois tomavam o alimento. Quando iniciavam essas orações, recitavam o Saltério inteiro[3].

Depois que se estabeleceu a prática da recitação das Horas Canônicas, a salmodia tornou-se de tal modo importante que, no verão, quando as noites são mais curtas, as três leituras deveriam ser substituídas, mas o número de salmos não era diminuído (cf. RB 10).

Entretanto, como já era usual nas comunidades do deserto, é na oração comunitária, o Ofício divino, que o monge vai estar em contato mais freqüente com o Saltério, do qual ele se serve no coro diversas vezes ao dia, a fim de louvar a Deus com os irmãos.

Qual é, então, esse tipo de experiência?

O Saltério é um diálogo: nós falamos com Deus e ele fala conosco. O costume de cada lado do coro cantar alternadamente os versículos significa que ora se proclama a Palavra de Deus, ora se escuta. Isso é ainda mais evidente quando se retoma a prática primitiva na qual um solista recita o salmo enquanto o resto do coro escuta.

Alguns versículos nos fazem lembrar certos acontecimentos importantes da vida de Cristo. Sua ressurreição: Dextera Domini exaltavit me – A mão direita do Senhor me levantou (Sl 117[118],16); a ascensão: Ascendit Deus in iubilo – Por entre aclamações Deus se elevou (Sl 46[47],6) ou: Ascendisti in altum cepisti captivitatem – Vós subistes para o alto e levastes os cativos (Sl 67[68],19), citado em Ef 4; o dom do Espírito Santo: Emitte Spiritum tuum et creabuntur – Enviai o vosso Espírito e tudo será criado (Sl 103[104],30); a missão da Igreja: Exivit sonus eorum in omnem terram – Seu som ressoa e se espalha em toda a terra (Sl 18[19],5) ou: Dominus dabit verbum evangelizantibus virtute multa – O Senhor acompanha com seu poder os que pregam o evangelho (Sl 67[68],12).

A Regra cita explicitamente os salmos cerca de quarenta vezes e faz alusão a vários outros a fim de embasar um ensinamento ou encorajar o monge no caminho da conversão. O Prólogo, por exemplo, contém uma série de citações sálmicas que se concatenam umas às outras, começando pelo salmo 94(95),8: Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: não endureçais os vossos corações, fazendo eco à primeira palavra da Regra que descreve uma atitude essencial da vida monástica: estar sempre atento a fim de escutar a voz do Senhor. O capítulo sétimo, que trata da humildade, corrobora muitos degraus com citações dos salmos. O início do capítulo transcreve o salmo 130(131),1, cujo tema é a tranqüilidade silenciosa da alma humilde e em paz com Deus: Senhor, meu coração não é orgulhoso. Outro exemplo: o quarto degrau da humildade, ensinando a aceitar as coisas duras que a vida nos faz passar, refere-se ao evangelho de São Mateus (10, 22) e menciona o salmo 26(27),14: Espera no Senhor e tem coragem: espera no Senhor!

O capítulo 19, sobre a maneira de salmodiar, cita os salmos 46(47) e 137(138): Psallite sapienter – Salmodiai sabiamente (cf. Sl 46[47],8); e: In conspectu angelorum psallam tibi – Na presença dos anjos vos cantarei salmos (Sl 137[138],1). Para São Bernardo, a primeira dessas citações está ligada ao verbo sapere, saborear: daí vem o seu convite, referido no início deste artigo, para ultrapassar a letra da salmodia até descobrir a doçura que se esconde em seu interior. Note-se também que onde nossa tradução da Regra usa a palavra cantar, a palavra latina psallere, empregada por ela significa precisamente salmodiar, isto é, cantar os salmos.

Para o monge, o versículo dos salmos mais significativo é o que ele cantou no dia de sua profissão: Suscipe me, Domine, secundum eloquium tuum et vivam (Recebei-me, Senhor, segundo a vossa palavra e viverei). Este versículo do salmo 118(119),116, quando cantado durante o Ofício, vai lembrar-lhe o momento em ele que se ofereceu a Deus. Ele age como uma espécie de anamnese a recordar liturgicamente um instante acontecido na história, tornando-o presente para a comunidade que celebra. Por esta razão, nos Breviários em língua latina, o referido versículo foi impresso em maiúsculas e, em alguns mosteiros, o coro costumava levantar-se e fazer uma inclinação profunda.

Como em toda a Escritura, os salmos algumas vezes falam diretamente ao coração do monge que os canta. É o que acontece com a maioria deles. Por exemplo, o desejo de Deus, como está expresso no salmo 62(63),2: Sois vós, ó Senhor, o meu Deus! Desde a aurora ansioso vos busco! A minh’alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água!

Ou o desejo de permanecer sempre na presença de Deus, conforme lemos no salmo 26(27),7-9: Ó Senhor, ouvi a voz do meu apelo, atendei por compaixão! Meu coração fala convosco confiante, e os meus olhos vos procuram. Senhor, é vossa face que eu procuro; não me escondais a vossa face! Não afasteis em vossa ira o vosso servo!

Ou a alegria do perdão, como no salmo 31(32),5: Eu confessei, afinal, meu pecado, e minha falta vos fiz conhecer. Disse: «Eu irei confessar meu pecado!» E perdoastes, Senhor, minha falta.

A vida monástica é uma vida de conversão. São Bento a preconiza desde o Prólogo da Regra: Para que voltes, pelo labor da obediência, àquele de quem te afastaste pela negligência da desobediência (RB, Prol. 2). A idéia da volta está relacionada com a de transformação, segundo o ensinamento de São Paulo: Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e julgar (Rm 12,2). Devemos ser restaurados conforme a imagem do nosso Criador e nos vestirmos do homem novo, criado à imagem de Deus, na verdadeira justiça e santidade (Ef 4,4).

Em algumas congregações monásticas, esta frase consta no ritual da tomada de hábito dos noviços. Sua vida inteira deverá ser dedicada à recuperação da imagem do Criador. Também encontramos a mesma idéia no salmo 50(51),4.9.12, o grande salmo de arrependimento, que São Bento determina ser cantado como primeiro salmo das Laudes: Lavai-me todo inteiro do meu pecado e apagai completamente a minha culpa! Aspergi-me e serei puro do pecado, e mais branco do que a neve ficarei. Criai em mim um coração que seja puro. O termo criar – em hebraico bara’ – é utilizado apenas para designar as ações do próprio Deus, como vemos, por exemplo, no primeiro capítulo do livro do Gêneses. Criar é, de fato, o primeiro verbo da Sagrada Escritura em hebraico: No princípio, Deus criou os céus e a terra (Gn 1,1). O mesmo verbo aparece novamente na criação da raça humana: Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou: criou-os homem e mulher (Gn 1,27). O monge vivencia essa ação da graça ao longo de sua vida: Deus fala e age. Ele pode somente escutar e obedecer.

O salmo 138(139),1.7.9-10, fala da presença constante de Deus: Senhor, vós me sondais e conheceis, sabeis quando me sento ou me levanto. Em que lugar me ocultarei do vosso espírito? E para onde fugirei de vossa face? Se a aurora me emprestar as suas asas, para eu voar e habitar no fim dos mares; mesmo lá vai me guiar a vossa mão. A presença constante de Deus – um dos ideais da vida monástica – reflete o ensinamento de nosso Senhor: Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada (Jo 14,23). Essa habitação interior se encontra por excelência no mistério da Eucaristia, momento central da vida do monge: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele (Jo 6,56).

Podemos encontrar a mesma idéia na conclusão do salmo 72(73),17.19.25, que é uma meditação sobre a prosperidade do mal. O salmista se dá conta da natureza efêmera de qualquer felicidade terrena. Volta-se para sua própria experiência: Até que um dia, penetrando este mistério, compreendi qual é a sorte que os espera. Num instante eles caíram na ruína, acabaram e morreram de terror! Para mim, o que há no céu fora de vós? Se estou convosco, nada mais me atrai na terra! Temos aqui a imagem de alguém dedicado a Deus, que o ama e faz sua vontade. Essas expressões refletem o relacionamento que todo monge deve ter para com Cristo.

Diversos salmos registram o encontro alegre com a palavra de Deus, que o monge deve vivenciar em sua lectio: A lei do Senhor Deus é perfeita, conforto para a alma! O testemunho do Senhor é fiel, sabedoria dos humildes. Os preceitos do Senhor são precisos, alegria ao coração. O mandamento do Senhor é brilhante, para os olhos é uma luz (Sl 18[19],8-9).

No salmo de abertura do Saltério, após descrever o caminho que conduz ao mal – entrar (no conselho dos perversos), permanecer (no caminho dos malvados) e sentar-se (na companhia dos zombadores), chegamos então à revelação que Deus faz de si mesmo, a Tora, tão erroneamente traduzida pela palavra Lei em muitas versões que se baseiam na Septuaginta e na Vulgata. É feliz aquele que encontra seu prazer na lei de Deus e a medita, dia e noite, sem cessar (Sl 1,2). Aqui podemos ver uma imagem do monge a sussurrar em voz baixa as palavras sagradas do texto, revolvendo-as em sua mente e vivenciando a alegria que lhe proporciona um encontro semelhante. Como disse Jeremias: Bastava descobrir tuas palavras e eu já as devorava, tuas palavras para mim são prazer e alegria do coração (Jr 15,16).

Uma leitura atenta do Novo Testamento mostra que, com freqüência, encontramos nele alusões ou citações explícitas do Antigo Testamento, especialmente dos salmos. Nosso Senhor, pregado na cruz, reza os primeiros versículos do salmo 21(22), enquanto São João recorre ao mesmo salmo para mostrar que os soldados, ao sortearem a túnica de Cristo, deram cumprimento a uma profecia (cf. Jo 19,24; Sl 21[22],19). São Lucas conta que Cristo rezou na cruz um versículo do salmo 30 (31): Em vossas mãos, entrego o meu espírito (cf. Lc 23,46; Sl 30[31],6). Em Pentecostes, São Pedro recorre ao salmo 15(16) para provar que a ressurreição fora anunciada pelos profetas: Não abandonarás minha alma no mundo dos mortos nem deixarás teu Santo conhecer a decomposição (At 2,31; cf. Sl 15[16],10). Fala da glorificação de Cristo mencionando o salmo 109 (cf. At 2,34; Sl 109[110],1), assunto igualmente tratado na Carta aos Hebreus ao discorrer sobre o sacerdócio de Cristo: Tendo feito a purificação dos pecados, sentou-se à direita da majestade divina, nas alturas (Hb 1,3). Rezando os salmos, o monge identificará naturalmente essas citações, estabelecendo uma relação direta com as realidades do Novo Testamento.

Como diz a introdução do Lecionário da Missa, é realmente necessária uma catequese sobre os salmos para os leigos, e mais ainda para os monges, a fim de que o Saltério se torne efetivamente uma oração cristã. Aqui nos deparamos com um problema concreto, pois a recitação integral do Saltério significa que o leitor vai encontrar sentimentos que não são somente pré-cristãos, mas anti-cristãos. O Papa Paulo VI o admitiu quando estabeleceu que o Saltério do Ofício Romano deveria omitir três salmos (57[58], 82[83] e 108[107]) e trechos de outros. Talvez essa decisão tenha sido prematura, pois a exegese moderna demonstra, por exemplo, que a parte central do salmo 108 (109) é uma citação das mentiras proferidas contra o salmista por seus inimigos. Encontramos este mesmo fenômeno no capítulo 22, do livro de Jó, onde o inocente sofredor é acusado de pecados que não cometeu. Além disso, o salmo 108(109) contém uma linguagem que reflete a Paixão de Cristo: Fizeram-me objeto de escárnio, ao me ver eles abanam a cabeça (Sl 108[109],25; cf. Mt 27,39). O próprio São Bento, quando, no Prólogo, dá conselhos sobre a maneira de combater os maus pensamentos, serve-se de uma citação do salmo 136 (137), eliminado do Breviário Romano: Parvulos cogitatos eius tenuit et allisit ad Christum[4].

É esta a interpretação dada por diversos Padres da Igreja, dentre os quais Orígenes, Santo Hilário e Santo Agostinho. São Bernardo, em suas parábolas, fala da guerra travada entre Jerusalém – a vida da graça – e Babilônia – as seduções do maligno: Inter Jerusalem et Babylonem non est pax sed guerra continua[5]. Aqui, possivelmente haja uma indicação de como interpretar esses salmos difíceis. Os Padres da Igreja, especialmente Orígenes, identificaram as nações pagãs – geralmente há sete delas, embora os números variem – mencionadas no Hexatêuco, como devendo ser exterminadas por serem símbolos do mal dentro de nossos corações, o lado escuro da nossa natureza. Como Israel não deveria mostrar misericórdia em exterminá-las, assim também nós não devemos permitir compromisso algum com o mal sob pena de ferir nossa adesão total a Cristo. O salmo 105(106),34-36, traz esta advertência: Não quiseram suprimir aqueles povos, que o Senhor tinha mandado exterminar; misturaram-se, então, com os pagãos, e aprenderam seus costumes depravados. Aos ídolos pagãos prestaram culto, que se tornaram armadilha para eles.

Os mesmos prejuízos podem acontecer com o monge que se permite concessões ao pecado. A linguagem dura do Saltério é uma advertência sobre a realidade de nossa luta contra o mal. São Paulo nos exorta acerca disso: Pois a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados, as potestades, os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelo espaço (Ef 6,12).

O Salmo 82(83),7-9, projeta uma luz interessante sobre esse aspecto do Saltério. Os inimigos do salmista são enumerados: os nômades de Edom e Ismaelitas, como também os de Moab e os Agarenos; os de Gebal, os de Amon e de Amalec; os de Tiro com o povo Filisteu; a eles se uniram os Assírios e aos de Ló ofereceram braço forte. É pouco provável que todas essas nações tivessem se aliado ao mesmo tempo contra Israel; trata-se, sobretudo, de uma recapitulação de todos aqueles povos que, ao longo da história de Israel, o combateram (pelo menos até a época em que o mencionado salmo foi escrito). Qualquer um que olhar para a história de sua própria vida pode identificar os diversos inimigos que o atacaram de variadas formas em diferentes épocas. Que eles não me assaltem novamente, e que Cristo seja o Rei. É o que podemos depreender do versículo conclusivo deste salmo: O medo, a humilhação se aposse deles, que sejam confundidos e pereçam! Reconheçam que «Senhor» é o vosso nome e que só vós sois Soberano em toda a terra (Sl 82[83],18-19).

Por outro lado, encontramos dificuldade inversa com os salmos que protestam inocência. Por exemplo, o salmo 7,9, contém a seguinte afirmação: Julgai-me, Senhor Deus, como eu mereço e segundo a inocência que há em mim. E o salmo 25(26),1, afirma: Fazei justiça, ó Senhor, sou inocente. Com certeza, a idéia de perfeição é encontrada em São Mateus: Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5,48). São Paulo, na Carta aos Efésios, fala da vocação da Igreja: ut sit sancta et immaculata[6]. Os profetas  ensinavam que nenhum sacrifício era aceito se não fosse um reflexo da própria conduta do fiel. Ou seja: uma vida de acordo com os mandamentos de Deus, sem mancha. Donde o início do salmo 118(119): Beati immaculati in via[7]. Felizes aqueles cuja conduta é irrepreensível. Ninguém pode estar inteiramente livre do pecado, claro, mas segundo o ensinamento de São Paulo, o fim último da Igreja, isto é, de cada um de seus membros, é que sejam santos e sem mancha. O desejo de ser justo pode ser vinculado à doutrina de São Paulo, o ensinamento central da Igreja: Aquele que não cometeu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nos tornemos justiça de Deus (2Cor 5,21). A palavra justiça contém as noções de inocência e santidade, que Cristo nos dá, ao assumir sobre si mesmo os nossos pecados. É o que chamamos justificação e é um tema de suma importância da Carta aos Romanos. Quando medito um texto afirmando que sou justo ou inocente, estou realmente proclamando aquilo que Cristo me concedeu. O versículo final do salmo 16 une esta idéia à de esperança na visão de Deus: Mas eu verei, justificado, a vossa face e ao despertar me saciará vossa presença (Sl 16[17], 15).

A atenção que o monge presta ao vocabulário do Saltério abre para ele outras perspectivas. Isto ocorria mais facilmente quando os salmos eram cantados em latim, pois havia uma ligação estreita entre o vocabulário do Antigo e do Novo Testamento. Tomemos, por exemplo, o início do salmo 26(27): O Senhor é minha luz e minha salvação. Ambos os substantivos são usados no Novo Testamento para descrever a função de Cristo. A palavra luz se acha tanto nos Evangelhos como em São Paulo, não somente referindo-se ao próprio Cristo: Eu sou a luz do mundo (Jo 812), mas também ao fiel: Vós sois a luz do mundo (Mt 5,14). Vós todos sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite nem das trevas (1Ts 5,5).

A palavra salvação não é somente uma noção abstrata do poder que Deus tem para salvar. Ela tem também um significado pessoal. Quando Simeão entoou o Cântico «Nunc dimittis», disse: Meus olhos viram a vossa salvação (Lc 2,30). Entretanto, ele não estava falando de um termo teológico, mas da criança que segurava nos braços. Diariamente nos servimos da mesma palavra, quando cantamos o «Magnificat»: E se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador (Lc 1,47). Os Atos dos Apóstolos terminam com uma nota dramática usando a palavra salvação para significar a fé do mundo pagão: Ficai, pois, sabendo: esta salvação de Deus é enviada aos pagãos, e eles escutarão (At 28,28).

O emprego desses termos no Saltério, enriquecidos com o sentido que lhes dá o Novo Testamento, torna os salmos uma verdadeira oração cristã.

A experiência dos salmos que fizemos mediante a reforma litúrgica do Saltério, permitiu-nos celebrar melhor o mistério de nossa salvação e de nossa ação de graças a Deus por sua misericórdia que não tem fim.

Para concluir: o salmo 100 começa assim: Eu quero cantar o amor e a justiça, cantar os meus hinos a vós, ó Senhor! (Sl 100[101],1). É este o tema do saltério: a misericórdia de Deus e a sabedoria de suas relações com a humanidade fraca e pecadora, especialmente enviando seu próprio Filho para ensinar-lhe como viver e se oferecer em sacrifício.

Esta é a experiência monástica do Saltério e, portanto, a experiência de todos os cristãos. Como é bom cantar ao Senhor!

Dom Laurence O’Keeffe OSB é, desde 1996, abade da Abadia de Saint Augustine, Ramsgate (Inglaterra).

Traduzido do inglês por Irmã Maria de Nazaré Barros de Campos, OSB (Mosteiro de São João, Campos do Jordão, SP).

[1] «O alimento é saboroso ao paladar, o salmo ao coração; o mel está escondido na cera, o fervor na letra». In: São Bernardo de Claraval, Sermão 7,5, sobre o Cântico dos Cânticos: Sources Chrétiennes 414, p. 164/165.
[2] Conferência 1,17. In: João Cassiano, Conferências, vol. 1, Juiz de Fora, Mosteiro da Santa Cruz, 2003, p. 40.
[3] Vidas dos Pais 3,6.
[4] RB, Prol. 28: «Quando o maligno diabo tenta persuadi-lo de alguma coisa, repelindo-o das vistas do seu coração, a ele e suas sugestões, redu-lo a nada, agarra os seus pensamentos ainda ao nascer e quebra-os de encontro a Cristo» (cf. Sl 14[15],4; Sl 136[137],9).
[5] «Entre Jerusalém e Babilônia não há paz, mas guerra contínua».
[6] Ef 5,27: «Para que seja santa e sem mancha».
[7] Sl 118(119),1: «Feliz o homem sem pecado em seu caminho».