MEU CORAÇÃO VOS FALA:
É VOSSA FACE, SENHOR, QUE EU PROCURO!

Rezando os salmos em Gedono
Monjas trapistas do Mosteiro de Gedono (Indonésia)

As páginas que seguem relatam a experiência comunitária de um grupo de jovens monjas trapistas, fiéis à oração da Igreja e às tradições de seu país. Com simplicidade, elas  narram de que maneira passaram da total ignorância dos salmos, freqüente nos jovens que chegam aos mosteiros, a uma compreensão “saborosa” dos mesmos, buscando neles alimento para a oração e a vida no dia-a-dia.


Introdução: Aprendendo sobre os salmos

A maioria de nós não sabia nada sobre os salmos antes de entrar em Gedono, exceto que havia um salmo responsorial após a primeira leitura da missa. Não sabíamos nem mesmo que aqueles versículos eram tirados do livro dos salmos do Antigo Testamento. Não estávamos de modo algum familiarizadas com as Escrituras. Nossa oração era basicamente a missa, o rosário e outras atividades paroquiais. Poucas de nós tiveram ocasião de ouvir os salmos, quando visitávamos Rawaseneng (a comunidade dos monges cistercienses de Temanggung) ou alguma outra comunidade religiosa, mas nunca havíamos realmente prestado maior atenção. Isso talvez mostre uma falha da Igreja em não tornar os salmos mais conhecidos como a oração da Igreja – exceto nas comunidades religiosas. Entretanto, quando começamos a freqüentar Gedono mais assiduamente, percebemos que as palavras e frases dos salmos nos deixavam profundamente sensibilizadas. Era, decerto, uma das formas de sentirmos Deus falando conosco, chamando-nos para essa vida de oração.

Contudo, quando ingressamos no mosteiro e começamos a participar da Liturgia das Horas sete vezes ao dia, achávamos que, em geral, os salmos eram muito estranhos para nós. Não sabíamos o significado de algumas palavras nem os nomes dos lugares ou episódios referidos. Constantemente sentíamos que eles pouco tinham a ver com os problemas que estávamos enfrentando ou com o desejo de Deus que nos tinha trazido para cá. O que nos ajudou a compreender a oração dos salmos foram as aulas dadas no noviciado e o ensinamento da abadessa. Aprendemos como os eles nasceram da relação entre Deus e o povo de Israel, expressando na íntegra a extensão e a amplitude da história da salvação. Através deles começamos a vivenciar maravilhadas o quanto Deus desejava entrar em comunicação com a família humana e queria nos tornar capazes de nos abrirmos e confiar nele em qualquer situação, na alegria ou na tristeza, em tempos de dificuldade ou em perigo, assim como em tempos de vitória ou de paz.

Começamos a perceber que o relacionamento do povo de Deus com Javé, expresso nos salmos, é muito espontâneo e atinge cada dimensão da vida humana; um relacionamento dinâmico, cheio de vida, que expressa cada sentimento e emoção do coração humano: gratidão amorosa, louvor, carinho, confiança, pedidos de ajuda, queixas, demandas por justiça que algumas vezes geram raiva, gritos de rebelião e até maldição. Aprendemos a aceitar todos esses sentimentos em nossos próprios corações e a encontrar a liberdade para dirigir mesmo os movimentos negativos de nossos corações para Deus, ao invés de sufocá-los, como nossa cultura nos ensinou a fazer.

Nós nos reconhecemos nos salmos, porque neles encontramos toda a realidade da experiência humana. Por meio deles, nossa limitada experiência pessoal, que freqüentemente exageramos, penetra numa vasta torrente de dimensões universais. Começamos a encontrar a beleza e a profundidade dos salmos. Unidas a nossos antepassados na fé, tornamo-nos protagonistas ativas do povo de Deus, em peregrinação através da história até a plenitude dos tempos, apresentando-lhe as necessidades e as lutas de todas as nações, especialmente de nosso povo indonésio. Em meio à violência e conflitos de nossa época, em meio a tantas possibilidades oferecidas ao consumidor, conforto, bem estar material e prazer – opções intermináveis que geram confusão – os salmos dão a todos que procuram a Deus uma tradição preciosa de oração na qual é possível confiar. Aprendemos a rezar com os lábios do próprio Divino Mestre, juntamente com os primeiros discípulos que se voltaram para Jesus e pediram: Senhor, ensina-nos a rezar (Lc 11,1).

A Oração de Jesus

Como judeu, Jesus  rezou e cantou os salmos durante toda a sua vida e, através deles, abraçou todos os sentimentos e dificuldades, todas as  esperanças e medos, todas as boas intenções, pedidos e louvores que estão presentes no coração humano, e os levou ao Pai. Todos os sábados ele rezava os salmos na sinagoga com seus vizinhos de Nazaré. Quando partiu para pregar o Reino de Deus na Galiléia e na Judéia, ele rezou em muitas outras sinagogas (Mt 4,23; Mc 6,2; Lc 4,44; Jo 6,59). Quando foi para Jerusalém celebrar as principais festas judaicas, ele cantou os salmos (Lc 2,41; Jo 2,13).  Depois da ceia pascal, cantou o Hallel com os discípulos (Mt 26,30; Mc 14,26).

Rezando os salmos, dizemos as mesmas palavras que Jesus pronunciou, não obstante ser em outra língua. Somos chamadas a entrar nas profundezas do coração de Jesus e encontrar o Espírito que inspirou os salmos e cânticos até o ponto de sentirmos como se nós mesmas os tivéssemos escrito. O próprio Cristo reza ao Pai em nós mediante os salmos e através deles. Eles são o cântico novo de louvor trazido por Cristo ao mundo e que ele continua a cantar por meio de nós, usando nossas vozes e nossos seres.

Esta oração forma Cristo em nós e nos transforma nele. Somos ajudadas por nossa comunidade a tomar consciência disso quando, no sábado de manhã, após a leitura da Regra na sala do Capítulo, é dada a bênção[1] às Irmãs que irão desempenhar as funções litúrgicas na semana seguinte. Tornamo-nos cada vez mais cônscias de ser uma graça e um privilégio ler ou cantar a Palavra de Deus: é uma participação especial no sacerdócio de Cristo. Organizando um calendário litúrgico com meses de antecedência, somos encorajadas a preparar os textos que iremos cantar ou ler durante a lectio e na oração, a fim de que a Palavra de Deus possa penetrar em nós antes de anunciá-la e, mediante nossa proclamação, penetre igualmente nos corações dos ouvintes. 

Perseverando no desejo

Mas a arte de se adentrar integralmente nessa oração requer um aprendizado, é uma longa caminhada que demanda perseverança. Experimentamos nossa fraqueza e, algumas vezes, nosso fervor é morno e nossa concentração divaga; então nos sentimos alhures, enfadadas e cantamos com nossas bocas enquanto os pensamentos estão voando longe. Graças a Deus, a comunidade nos dá sustento, nos convida a voltar, a nos abrirmos à ação do Espírito Santo, mediante o ensinamento da abadessa e o da Igreja. Compreendemos a necessidade de possuir um grande desejo a fim de ter a energia necessária para perseverar em nosso esforço, o que nem sempre dá resultados satisfatórios, e às vezes tudo se torna pesado, seco e sem sentido. Esse desejo é o próprio Espírito Santo que toca nossos corações e nos provoca a começar de novo. Esse desejo é renovado através do apoio e do testemunho da comunidade inteira. O vigor com o qual ela canta os salmos torna-se nosso próprio vigor.

A oração da comunidade

Não podemos separar nossa experiência dos salmos de nossa experiência como membros de nossa Igreja monástica. Rezamos como corpo de Cristo, como membros uns dos outros, como a esposa de Cristo. Quanto mais nos adentramos e fazemos parte da comunidade, mais profundamente mergulhamos em sua oração – e vice-versa. Não é algo que façamos individualmente, mas como responsabilidade de todas. As Constituições de nossa Ordem (n. 19,21) declaram: A celebração deve ser de tal forma que manifeste o espírito de comunidade e leve as Irmãs a uma plena participação. As referidas Constituições (n. 17,1) acrescentam: O caráter espiritual da comunidade se revela especialmente na celebração da liturgia. A liturgia fortalece  e aumenta tanto o sentido interior da vocação monástica como a comunhão entre as Irmãs. É importante que cada uma se dedique à celebração do Ofício como um dos principais meios de se entregar a Deus na comunidade e através dela. Cada aspecto de nossa participação é um ato de amor e não uma obrigação. Não é um dever de disciplina, mas uma experiência de comunhão. Até mesmo chegar pontualmente é um ato de amor fraterno para não perturbar as outras com o nosso atraso, colaborando assim com o espírito de recolhimento comunitário chegando cedo. De outra forma, a recitação dos salmos e as leituras podem se tornar uma formalidade vazia na qual estamos presentes fisicamente, porém adormecidas humana e espiritualmente.

É necessário um grande esforço para nos tornarmos cada vez mais conscientes dessa responsabilidade e estarmos sempre disponíveis quando formos solicitadas para preparar e celebrar a liturgia. É fácil encontrar justificativas e dizer que não somos capazes disso ou daquilo, mas procuramos confiar no discernimento da comunidade que nos dá coragem e oportunidade para cantar e tocar instrumentos muito além de nossas expectativas. Isso ajuda a participar com gratidão e generosidade, não com rivalidade e falsa modéstia. Apoiamo-nos mutuamente num espírito eclesial onde o importante não é a perfeição e sim a participação. Dá-se espaço para a aprendizagem, o que significa permissão para erros. Temos ensaios de canto semanais e a comunidade inteira participa de boa vontade. Cuidamos não apenas em aprender o canto e as melodias com as notas certas, mas igualmente em interpretar os hinos e as antífonas: assim sabemos a razão das subidas e descidas do texto musical, que expressa o significado das palavras.

O esforço permanente para melhorar a qualidade do nosso Ofício é um contínuo estímulo para dele participarmos mais integral e ativamente. A schola cantorum tem exercícios de impostação de voz com um professor de uma universidade vizinha, enquanto as que tocam órgão, cítara e outros instrumentos dedicam-se generosamente à preparação musical do Ofício. Um grupo de Irmãs continua a compor antífonas, hinos e responsórios para completar e enriquecer nossa liturgia, e toda vez que termina uma festa nós nos sentimos renovadas. Tudo isso exige disciplina e sacrifício, mas também contribui para reforçar a unidade e o entusiasmo pela liturgia, ajudando a criar uma atmosfera orante em nossas celebrações. A arte precisa de atenção aos detalhes. Por isso, procuramos fazer com que nossa oração seja uma arte sagrada, dando a devida atenção aos movimentos, pausas de silêncio, ritmo, unidade do coro, etc.

A oração da Igreja

Além dos cursos no noviciado e no monasticado (período da profissão temporária), temos muitos livros na biblioteca. Também o ensinamento de nossa abadessa está sempre aprofundando nosso conhecimento dos salmos como oração da Igreja, que desde o início foi baseada na tradição judaica. Os apóstolos seguiram a tradição judaica de ir ao Templo e rezar à hora nona. Gradativamente, os primeiros cristãos incorporaram os salmos como base de suas orações em determinadas horas, em certos dias, num ciclo de semanas até desenvolver-se o ano litúrgico.  Rezar os salmos com uma interpretação cristã tornou-se um importante meio de aprofundar a fé. Achamos isso tão verdadeiro para nós como foi para os primeiros cristãos.

Os salmos adquirem novo significado quando aprendemos que a Liturgia das Horas flui da celebração do mistério pascal, da passagem de Cristo da morte para a vida nova, cujo centro é a Eucaristia. As palavras do Concílio Vaticano II: A Eucaristia é a fonte e o ápice da oração cristã, tornam-se uma realidade viva para nós, e o Ofício um meio de celebrar o sofrimento, a morte e a ressurreição de Cristo nos Ofícios da manhã e da tarde. Na Tércia lembramos a decida do Espírito Santo e pedimos para estarmos abertas a sua ação durante o nosso dia de trabalho; na Sexta celebramos a Paixão de Jesus; em Noa os salmos de peregrinação dão força para continuarmos nossa caminhada diária. Nas Vigílias somos convidadas a vigiar e orar enquanto aguardamos a vinda de Jesus no fim dos tempos. Aprendemos assim perseverar na esperança, mesmo nos períodos de escuridão e crise. A aurora da nova luz surgirá. Unimo-nos em espírito a todos aqueles que estão na escuridão do pecado, sem um sentido para a vida, no sofrimento ou no desespero. Assim, descobrimos que a Liturgia das Horas e os salmos se tornam uma escola de oração, de fé e de esperança. A Liturgia das Horas é uma escola de oração contínua e um componente essencial da forma de vida monástica (Constituições OCSO, n. 19).

Escola de oração

Quando o litoral norte da ilha de Sumatra foi atingido por um tsunami, em 2004, o mundo inteiro ficou chocado. Muitas pessoas morreram e outras tantas perderam tudo num piscar de olhos. Perante um sofrimento tão catastrófico, além de outros desastres naturais ou causados pelo homem em nosso país, como podemos rezar antes e depois disso? Encontramos nosso pranto expresso no salmo 45(46),2-4.8, e nos agarramos à fé do salmista na fidelidade de Deus: O Senhor para nós é refúgio e vigor, sempre pronto, mostrou-se um socorro na angústia; assim não tememos, se a terra estremece, se os montes desabam, caindo nos mares, se as águas trovejam e as ondas se agitam, se, em feroz tempestade, as montanhas se abalam. Conosco está o Senhor do universo! O nosso refúgio é o Deus de Jacó!

Escola de santidade

Além de ser a oração oficial da Igreja, a Liturgia das Horas é fonte de santidade que enriquece a prece pessoal («Sacrosanctum Consilium», 90). As antífonas que usamos no salmo 50(51), que nossa comunidade decidiu incluir no Ofício de Laudes três vezes por semana, são as seguintes:

Domingo: Criai em mim, Senhor, um coração novo.

Terça-feira: Não desprezais, ó Deus, um coração arrependido.

Quinta-feira: Tende piedade de mim, ó meu Deus, na imensidão do vosso amor.

Se retivermos na memória apenas um único versículo durante todo o dia, é o suficiente. Podemos conservar a atitude de uma pessoa consciente de ser ela mesma um  pecador / uma pecadora, mas que confia na misericórdia e no infinito amor de Deus. Embora possamos cair sete vezes por dia, ou setenta vezes sete, podemos nos levantar e voltar infinitas vezes ao Deus misericordioso; ao invés de ficarmos desanimadas, podemos crescer em fidelidade.

Escola de sabedoria

Alguém que deseja a verdadeira felicidade pode aprender muitas coisas com o salmista. Por exemplo, o salmo 14(15) dá indicações concretas sobre como podemos agradar a Deus e ao próximo. O salmo 33(34) e muitos outros nos dão a oportunidade de meditar nas fontes da Regra de São Bento.

Escola de paz interior

Em nossas lutas e crises, quando somos importunadas por tentações e pensamentos, podemos rezar o salmo 34(35),1: Acusai os que me acusam, ó Senhor, combatei os que combatem contra mim. A antífona que usamos é simples e direta e torna-se um grito de socorro: Ó Senhor meu Deus, combatei em meu favor! Nos momentos de agitação, pedimos que ele venha em nosso auxílio para derrotar os inimigos presentes em nossos corações e pensamentos.

Quando estamos doentes ou nos sentindo solitárias, abandonadas pelo Senhor e por nossas Irmãs, quando achamos que fomos tratadas injustamente, fazemos nosso o grito do salmista, o mesmo que Jesus gritou ao Pai na cruz: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (Sl 21[22],2).

Se penetrarmos na amplitude e profundidade dos salmos, não precisamos de nossas próprias palavras para rezar, qualquer que seja a situação em que estivermos. Os salmos são uma porta. Tudo o que precisamos ter é a chave. Elas nos são dadas pelo Espírito Santo por meio do ensinamento da Igreja, dos Padres da Igreja e de todos aqueles que nos precederam.

Quanto mais fizermos uso dessas chaves, tanto mais desejaremos orientar toda a nossa vida para uma contínua oração. Como Orígenes escreveu: Aquele que reza sem cessar, reza enquanto trabalha e trabalha enquanto reza.

Na cultura local

Nosso mosteiro está localizado na parte central de Java, que é também o centro da cultura javanesa, rica e antiga, no meio de uma sociedade predominantemente muçulmana. Estamos situadas nos contrafortes do Monte Merbabu e a população dos arredores é, na maioria, de fazendeiros pobres sem muita instrução. Embora oficialmente mulçumana, é ainda muito influenciada pelas crenças animistas em espíritos e tradições supersticiosas. O que pode significar para ela nossa oração dos salmos? As Irmãs, mesmo sendo, em sua maioria, originárias da ilha de Java, vêm de lugares e formação muito diferentes, mas todas desejamos nos tornar parte da população local.

Não podemos dialogar com nossos vizinhos sobre religião ou cultura, mas podemos ser uma presença orante. Nosso sino toca no alto, sobre as colinas, e todos ficam sabendo que as Irmãs estão rezando. Nas duas correntes animistas e filosóficas da cultura javanesa, há um grande respeito pela oração solitária; e os mulçumanos admiram os cristãos por rezarem muitas vezes ao dia – até mais do que as cinco vezes estabelecidas pela tradição deles. Aprendemos que a prática mulçumana de rezar cinco vezes ao dia é provavelmente baseada nos contactos havidos entre Maomé e a vida monástica cristã. Pois, sendo um mercador que seguia as caravanas, os únicos «hotéis» disponíveis naqueles tempos eram os mosteiros, e provavelmente ele terá passado muitas noites em hospedarias monásticas.

Embora a língua local seja o javanês, usamos a  língua nacional da Indonésia para que as Irmãs e os hóspedes de todas as partes do país não tenham dificuldade em participar de nossa oração. É uma língua simples que favorece a unidade, mas não é tão complexa e poética como a antiga língua javanesa, de modo que algumas vezes torna-se pesada e não muito lírica. Problemas de tradução também contribuíram para empobrecer um pouco o significado original dos salmos e estamos constantemente tentando melhorar a tradução. Estamos até com planos, a longo prazo, para fazer uma nova edição do Saltério, com a ajuda de um professor de Sagrada Escritura, perito nas línguas originais. Entretanto, isso levará anos para se concretizar. Nesse ínterim, fazemos correções importantes e óbvias, além de procurarmos dividir os versículos da melhor maneira possível para facilitar o canto e termos certeza de que o significado é o mais claro possível.

Desde a chegada dos árabes à Indonésia, nos séculos XII e XIII, muitas palavras árabes foram integradas à língua local. Assim, rezamos usando a mesma palavra para Deus como todos os nossos irmãos e irmãs mulçumanos no mundo: Alá. Muitas palavras indonésias para termos religiosos são de origem árabe ou semita. Seria interessante listar algumas delas: roh para espírito, keselamatan para salvação, salam para a saudação da paz, syukur para ação de graças, mukzijat para milagre, mazmur para salmo, korban para sacrifício, imam para sacerdote, bait para templo, kerahiman (derivada da palavra rahim, ventre) para misericórdia. Desse modo, rezamos os salmos com palavras que são lingüisticamente próximas do original hebraico e numa língua que é similarmente concreta e não abstrata e racional, o que nos ajuda a entrar no espírito dos salmos. Os salmos são uma oração oriental.

Contudo, nosso contexto também oferece dificuldades. Os salmos falam sempre de Israel e são muito cruéis para com seus inimigos. Isso pode ser interpretado politicamente como se estivéssemos rezando pelos judeus contra os palestinos e o mundo mulçumano. Na situação delicada de minoria da Igreja na Indonésia, é desaconselhável incluir os salmos imprecatórios em nosso Ofício.

Entretanto, a cultura tradicional javanesa e a religião mulçumana que nos cercam criam uma sociedade que é profundamente religiosa, com valores espirituais e transcendentais expressos também na arte e na música. Tentamos incorporar alguns deles em nossa liturgia através do uso de instrumentos de música tradicionais do gamelan, a orquestra javanesa de metais. A escala musical e as melodias são em tom menor, que se adequam muito bem aos salmos meditativos, melancólicos ou penitenciais.

Desde sua fundação, a comunidade canta as Completas totalmente no estilo musical javanês. Isso cria uma atmosfera tranqüila e contemplativa para o Ofício que encerra o nosso dia. Cantamos as Completas sem luzes na Igreja, confiando-nos à proteção de Deus quando entramos na escuridão da noite, onde somente ele pode nos salvar do medo e do perigo. Numa área onde a eletricidade só chegou recentemente, a escuridão não é apenas um símbolo do perigo, mas uma experiência real de desamparo perante o oculto e o inesperado. Nossos hóspedes ficam freqüentemente comovidos com nosso Ofício javanês de Completas, que termina com a Salve Regina também em estilo musical javanês, enquanto a imagem de nossa Mãe daquele que nos une – uma Madona javanesa – é iluminada por uma pequena lâmpada. Na confiança de que Maria, nossa Mãe, nos guiará neste vale de lágrimas até a plena visão do rosto de seu Filho, podemos ir repousar em paz e logo dormir.

Nas grandes solenidades também usamos instrumentos musicais tradicionais, aumentando assim a atmosfera festiva e contribuindo, ao mesmo tempo, para a sacralidade da celebração. Temos a chance de possuirmos, em nossa Igreja monástica, o que poderia ser chamada uma acústica quase perfeita. Esse fato dá grande realce ao som dos instrumentos que acompanham nossas vozes, não necessitando, portanto, de microfones. Isso nos dá liberdade e simplicidade nos arranjos criativos para os cantores e os músicos.

Educando o Povo de Deus para rezar os salmos

Foi para nós de grande ajuda a série de catequese sobre os salmos, do Servo de Deus João Paulo II. Uma de nossas irmãs orientou o monasticado com esses comentários e, juntas, elas traduziram a primeira série sobre os salmos das Laudes. Depois disso, usamos os referidos comentários como segunda leitura das Vigílias durante a Quaresma e o Tempo Pascal. Muitas Irmãs, na comunidade, aproveitaram os textos para a meditação pessoal durante o dia.

Esta experiência nos fez lembrar as últimas palavras do Papa na Carta Apostólica «Novo Millennio Ineunte»:  Sem dúvida, são chamados de modo particular à oração os fiéis que tiveram o dom da vocação a uma vida especial de consagração: esta, por sua natureza, torna-os mais disponíveis ara a experiência contemplativa, e é importante que eles a cultivem com generoso empenho. Mas seria errado pensar que o comum dos cristãos possa contentar-se com uma oração superficial, incapaz de encher a sua vida. Sobretudo perante as numerosas provas que o mundo atual põe à fé, eles seriam não apenas cristãos medíocres, mas "cristãos em perigo": com sua fé cada vez mais debilitada, correriam o risco de acabar cedendo ao fascínio de sucedâneos, aceitando propostas religiosas alternativas e acomodando-se até as formas mais extravagantes de superstição.

Por isso, é preciso que a educação para a oração se torne de qualquer modo um ponto qualificativo de toda a programação pastoral. Eu mesmo propus-me a dedicar as próximas catequeses das quartas-feiras à reflexão sobre os salmos, a começar pelos salmos das Laudes, a oração pública com que a Igreja nos convida a consagrar e dar sentido aos nossos dias (n. 34).

Uma vez estando bem conscientes de que nossa missão, como Igreja monástica na Indonésia, é ser um centro de oração onde todos os cristãos possam aprofundar sua fé, sentimos que essas palavras são dirigidas a nós. Queremos vivamente partilhar a oração dos salmos com nossos hóspedes. Muitos deles são atraídos pelos salmos porque se sentem tocados pelas palavras e encantados com nosso modo de cantá-los. Eles querem continuar a rezar os salmos em casa ou no grupo de oração. Temos nossa edição do Saltério à venda, assim como pequenos livros com nosso ofício das Completas e diversos CDs que eles podem usar para cantar junto. Quando nos lembramos de que não sabíamos nada sobre os salmos antes de entrarmos no mosteiro, ficamos felizes e gratas que os salmos e a oração da Igreja comecem a ser conhecidos e usados também fora do mosteiro.

Conclusão

Aprofundamos nossa oração dos salmos na medida em que cresce nosso amor por eles. Descobrimos seus segredos um a um. A comunidade também nos ajuda nisso. Estar no coro ao lado de uma Irmã que ama os salmos e ama cantá-los, acende dentro de nós o mesmo amor. Podemos sentir que outras estão bebendo na Fonte, absorvendo o significado dos salmos, perdendo-se nas palavras do salmista, unidas a Jesus que reza nelas. A oração delas faz nascer em nós a oração.

Quanto mais rezamos os salmos, mais somos colocadas face a face com a realidade da vida humana, tão marcada pela fraqueza e pela fragilidade. Quando arrancamos nossas máscaras e ilusões, nos damos conta de que a vida só tem sentido se vivida com nosso Criador e Redentor, em adoração e gratidão, em contrição e humildade. A vida é uma dádiva e nossa fraqueza é nossa força, porque nela descobrimos a presença misericordiosa de nosso Deus. É aí que encontramos nossa verdadeira identidade em Cristo que deu sua vida para nos salvar e nos conduzir para o abraço de amor do Pai. É aí que percebemos termos sido criados para louvar o Deus de nossa vida e, finalmente, nos unirmos aos anjos e santos que celebram incessantemente a liturgia celestial. Nem sempre é fácil lembrar de que estamos cantando na presença dos anjos, mas é confortável saber que quando estamos fracas, eles continuam a cantar por nós.

Ao assumir a natureza humana, Cristo Jesus, sumo sacerdote da Nova e Eterna Aliança, introduziu neste exílio terrestre o hino que eternamente se canta nas celestes moradas. Unindo-se a toda a estirpe humana, a associa ao seu próprio louvor. Continua a exercer esta sua função sacerdotal por meio de sua Igreja, que louva o Senhor sem interrupção e ora pela salvação de todo o mundo, não apenas na celebração da Eucaristia, mas de vários outros modos, especialmente na recitação do Ofício Divino («Sacrosanctum Consilium», n. 83).

Para nós é uma graça sermos chamadas a participar.

O presente artigo foi escrito por um grupo de jovens professas da Abadia de Gedono, mosteiro de monjas trapistas na Ilha de Java (Indonésia).

Traduzido do inglês por  Irmã Maria de Nazaré Barros de Campos OSB (Mosteiro de São João, Campos do Jordão, SP).

[1] Eis o texto da bênção: Que Deus, fonte de toda graça, vos abençoe, vós que ides anunciar sua Palavra na semana vindoura, a fim de estardes conscientes da graça especial que nesta ocasião vos é dada, de participar do sacerdócio de Cristo. Que possais preparar o alimento da palavra que nos será servido com um espírito de alegria e de paz. Que as orações a serem proferidas em nome da comunidade e da Igreja inteira exprimam nossa oferenda de um só coração e uma só alma para a glória de Deus e a salvação do mundo.