O OITAVO GRAU DA HUMILDADE

Madre Hannah Van Quakebeke, OSB

 


Durante o Simpósio da CIB, muitos trabalhos de grupo deram ocasião a que fossem expressas algumas realidades da Regra de São Bento relacionadas à escuta do coração. Algumas superioras apresentaram um ou outro desses aspectos, como foi o caso de Madre Hannah, de Loppem, ao fazer a exegese do 8º grau da humildade na Regra de São Bento. Como colocar-se à escuta, com o coração, dos costumes e dos exemplos transmitidos pelos membros mais antigos da comunidade que, eles mesmos, por sua vez, receberam das gerações precedentes, mediante uma contínua adaptação às novas realidades?

 

O oitavo grau da humildade consiste em que só faça o monge o que lhe exortam a Regra comum do mosteiro e os exemplos dos mais velhos (RB 7,55).

QuakebekeHoje em dia, muitas irmãs que têm responsabilidades, não informam mais às suas superioras acerca de seus projetos e atividades. É lamentável constatar que, muitas vezes, a superiora é a última a saber ou a ouvir falar de um projeto, de uma atividade, realizado por uma irmã. Escutar com o ouvido do coração inclui o fato de estimular as atividades de uma irmã e, ao mesmo tempo, a reticência de uma irmã em informar a sua superiora e a sua comunidade o que diz respeito a seus compromissos?

Em minha comunidade nós costumamos ir ao enterro de nossos familiares mais próximos, isto é, pais, avós e, eventualmente, irmãos e irmãs. Em princípio, não vamos muito longe, a menos que haja uma razão particular... e, é óbvio, de acordo com a superiora... como, aliás, deveria ser sempre o caso.

Certa vez, uma irmã me «informou» que iria ao enterro de um membro distante de sua família. Fiquei surpresa com a explicação que ela me deu, sem manifestar, na ocasião, qualquer reação.

Na reunião semanal de informações, não mencionei a ausência da irmã para ir àquele enterro, sobre o qual não houve diálogo algum. Tomando a palavra, ela me disse que eu havia «esquecido» na agenda da semana o referido enterro. Eu então lhe respondi gentilmente: «Muito bem, você pode explicar à comunidade seus planos, pois eles foram feitos sem combinar comigo». Ela deu a explicação e foi ao enterro, como tinha planejado.

Vocês vão me dizer que trata-se de um exemplo honestíssimo... claro que não é um exemplo dos mais graves, pois já vi coisas piores... inclusive em minha comunidade. No entanto, o oitavo grau da humildade consiste em que só faça o monge o que lhe exortam a Regra comum do mosteiro e os exemplos dos mais velhos (RB 7,55). Nada mais! O monge não pode sequer fazer nem mesmo um pouquinho fora da Regra e do exemplo de seus maiores. Nada! Já é o bastante!

É verdade que, como monge cenobita, ele se comprometeu a viver em comunidade SOB uma regra e um abade (cf. RB 1,2). E eu enfatizo o SOB. O monge escolheu viver SOB. Isso não quer dizer que ele não terá mais o direito de estar de pé e ser responsável. A escuta com o ouvido de seu coração implica a inteireza do homem; nós não poderemos escutar com o ouvido de nosso coração se não estivermos unificados nas diferentes dimensões que constituem nossa humanidade: o corpo, a psique (quer dizer, nossas emoções, nossos sentimentos, nossa afetividade e nossas faculdades de inteligência, de imaginação e de vontade) e o coração profundo. «O coração profundo não é emoção nem afetividade nem sentimento. Não é a psique nem o intelecto ou a razão. Ele se situa num outro nível de profundidade».[1] Ele é o centro de nosso ser, o lugar de nossas escolhas decisivas[2] e da ação misteriosa de Deus.[3] É o lugar do encontro do Deus que muitos autores místicos e espirituais procuraram testemunhar e lhe deram nomes diversos conforme as épocas, e também de acordo com suas afinidades e experiências pessoais. Utilizo aqui o vocabulário de Simone Pacot que desenvolveu uma pedagogia do caminho espiritual chamada «evangelização das profundezas». Não lhe demos muita importância; o que quero dizer é que a inteireza do homem comporta as diferentes dimensões de seu ser, a dimensão físico/biológica, a dimensão psíquica e a dimensão espiritual que, em cada pessoa mais ou menos equilibrada, são chamadas a se unificarem. Aliás, toda a tradição monástica apresenta a unificação como o constitutivo essencial do monge. «Monge significa unificado: aquele que ainda não realizou a unidade em si próprio, ainda não está unificado, ainda não é um monge, mesmo vivendo no mosteiro mais isolado...»,[4] afirma Ignatij Brjančaninov, uma das inúmeras testemunhas da tradição oriental.[5] Essa unificação é também muito importante para a escuta interior que, em nossa Regra beneditina, se exprime na escuta com o ouvido de nosso coração. Esta interioridade autêntica não pode ser vivida se a pessoa não estiver bem de pé. Viver SOB não pode se exprimir de maneira exata se não estivermos unificados e de pé.

GroupeO oitavo grau da humildade, ao recomendar que só faça o monge o que lhe exortam a Regra comum do mosteiro e os exemplos dos mais velhos, não pretende ser, de modo algum, uma adaptação malsã que impeça o desabrochar da identidade individual peculiar a cada pessoa. Somente por meio desta identidade única, que pode ser vivida somente por mim mesma, é que vou poder me submeter à Regra e à superiora. Com o que sou, com TUDO o que realmente sou, posso escolher entrar no ritmo da comunidade, e o faço tanto com meu coração, quanto com meus pés e minha cabeça. Eu não renuncio à minha unicidade, mas, talvez, a minha «singularidade». Quem, na verdade, pretende ser ele mesmo não tem necessidade de ser excêntrico. O oitavo grau da humildade nos chama para a realidade. Basicamente, humildade e realidade estão muito próximas uma da outra. Ao seguirmos a regra comum, somos confrontados com nossa própria realidade. A unicidade não tem nada a ver com nossas «peculiaridades», mas nos direciona para nossa relação mais intimamente pessoal com Deus que nos chama pelo nome. Trata-se de um processo que não se orienta para a negação de si, mas para a descoberta de si.

Claro está que uma superiora não pode apoiar projetos e atividades que ela mesma ignora. A escuta com o ouvido do coração implica a palavra... no momento apropriado, no lugar certo e de maneira adequada, como também ensina São Bento no capítulo em que trata das coisas impossíveis (cf. RB 68). Assim, a superiora, tendo vencido a tentação do poder, deve também vencer a ambiguidade do maternalismo do silêncio «para não incomodar», «para não se intrometer no que não é de sua conta». O serviço da autoridade deve ter a coragem de propor caminhos de conversão, deve procurar corrigir «com amor». Para São Basílio, corrigir o irmão é um «ato de misericórdia», pois cuidar da saúde de um membro é cuidar da saúde do corpo todo. O mal e o escândalo são inevitáveis: a comunidade que é capaz de carregar o irmão ou a irmã com amor, sem alimentar ou justificar nele / nela o pecado, põe em ação o mistério da cruz. O pecado do outro é o espaço que torna visível a misericórdia de Deus para com os pecadores; é o espaço de onde brota para o mundo a missão de testemunhar o amor gratuito de Deus e a capacidade da graça para enfrentar o mal.[6] É claro que não passamos o tempo inteiro a tratar com o mal ou o pecado, mas se a superiora ousa fazer uso da palavra, começando pela escuta com o ouvido de seu coração, convidará também suas irmãs a fazer o mesmo. Muitas vezes fazemos silêncio a pretexto de manter a paz. Contudo, uma vida monástica sadia nos convida, hoje mais do que nunca, a ter a audácia de nos exprimir e falar uma à outra, sem deixar de lado uma escuta profunda, abrindo-se para a identidade própria e única de cada irmã com quem caminhamos ao longo da vida.

 

Madre Hannah Van Quakebeke, OSB,
é Prioresa do Priorado «Onze Lieve Vrouw van Bethanië», em Loppem (Bélgica)

Traduzido do francês por Maria Luísa Laranjeiro de Souza

 

 [1] Simone Pacot, Évangélisation des profondeurs, Paris, 1997, p. 61.
[2] « Ele [o coração profundo] é o lugar das escolhas fundamentais, dos desejos os mais autênticos. É nele que será colocada a escolha da vida, a renúncia ao caminho da morte». S. Pacot, Reviens à la vie !, Paris, 2002, p. 191.
[3] Cf. S. Pacot, Évangélisation des profondeurs, Paris, 1997, p. 60.
[4] I. Brjančaninov, Asketičeskie opyty, em ID., Polnoe sobranie tvorenij, vol. I, Moskva, 2001, p. 188. A tradução francesa desse fragmento foi copiada do seguinte site da internet: E. Bianchi, À la recherche des sources spirituelles communes: Les colloques œcuméniques internationaux de spiritualité orthodoxe 1993-2006. Un échange de dons possibles (setembro de 2006).
http://www.monasterodibose.it/index.php/content/view/386/168/1/2/lang,fr/ (acessado a 21/02/2008).
[5] Ignatij Brjančaninov viveu no século XIX. Foi monge, mestre espiritual (starets), bispo e santo da Igreja ortodoxa russa.
[6] Cf. M. Tenace, Le service de l’autorité, notas de uma conferência dada aos Superiores maiores da Bélgica, em Gand (Bélgica), em 1º de março de 2014.