MÍSTICA E FRATERNIDADE COMUNITÁRIA EM CRISTO

Dom Mauro-Giuseppe Lepori, OCist

 


A intervenção de Dom Mauro-Giuseppe Lepori, Abade Geral da Ordem Cisterciense, no Capítulo Geral da OCSO, constitui um estímulo para redescobrir o aspecto profundamente espiritual do estar-juntos comunitário em cada comunidade monástica. Baseado em exemplos, ele aponta toda espécie de tentações que, em muitas ocasiões, testemunhou diretamente, e encoraja a uma atitude de verdade e de partilha.


LeporiDesde que, há quatro anos, me tornei Abade Geral, por diversas vezes tive que fazer relatórios sobre meu ministério e o estado da Ordem. Destarte, a visita que ora faço a vosso Capítulo Geral é para mim uma ocasião especial de dar testemunho, se não de esperança, ao menos da situação real da Ordem e de seu caminho para... a eternidade. Não digo mais: «para o futuro», pois, tomei verdadeiramente consciência, durante esses últimos anos, e o exprimi em várias ocasiões, que a tentação de «garantir nosso futuro», de «assegurar nosso porvir» é uma cilada onde caem não apenas as comunidades frágeis e que assim se dizem ou ainda aquelas, ditas pelos outros, «sem futuro», mas, sobretudo, as que pensam «ter para o futuro» em quantidade, na «insensatez» condenada por Cristo no rico que pensa ter um futuro garantido porque está com os celeiros repletos de riquezas (cf. Lc 12,15-21). Os celeiros estão, muitas vezes, cheios de grãos destinados apenas ao consumo, e não para as sementeiras. É o passado, e mesmo o presente, que se estoca, que se fixa, que se congela, para que o futuro possa viver do passado; desfrutar o passado, passando por um presente estéril e egoísta, um presente sem sementeiras, sem que o grão possa cair na terra, morrer e produzir fruto. Insensato! Ainda nesta noite, tua vida te será tirada. E para quem ficará o que acumulaste? Assim acontece com quem acumula tesouros para si mesmo, mas não se torna rico diante de Deus (Lc 12,21).

Tenho a impressão de que nossas Ordens e comunidades são atualmente bastante confrontadas com esta tentação, contentando-se também, muitas vezes, com riquezas mínimas: «Felizmente, ainda somos..., ainda temos..., para terminar nossa vida em paz». Tentação de «acumular para si mesmo» e não em vista dos outros e «em vista de Deus». Chamei a atenção para isso no Sínodo de minha Ordem, no começo de julho passado, prolongando uma reflexão feita por ocasião de uma intervenção que me foi pedida pelo «Service des Moniales de France» sobre a vida monástica cinquenta anos após o Concílio Vaticano II, bem como na escuta de Evangelii gaudium, do Papa Francisco. Creio que há dois domínios essenciais onde nossas comunidades se tornaram frágeis, precárias, que não dizem respeito ao número ou à idade de seus membros nem a sua economia. Esses dois domínios são a dimensão mística e a dimensão comunitária, fraterna, de nosso carisma monástico e cisterciense.

«StGertrudeÉ imprescindível recuperar a dimensão mística no centro ou, principalmente, na fonte de nossa vocação. Mística não quer dizer alienar-se da realidade, mas estar consciente da realidade total e, por conseguinte, colocar no centro de nossa vida e de nosso coração a relação com Deus, a experiência de Deus. [...] Pois, observando as comunidades, sua maneira de celebrar a liturgia, sua vida comunitária, eu me pergunto: Essas pessoas são cistercienses por amor de Cristo ou por outra razão? Será que eles encontram realmente Jesus? Será que têm uma relação viva com ele? Vivem por ele, com ele e nele? [...] A mística cisterciense é uma mística bíblica, litúrgica, patrística, comunitária, eucarística, humana, esponsal, filial, fraterna, de comunhão... Devemos nos ajudar a reencontrar esta fonte de vida para vivermos nossa vocação e sermos testemunhas verídicas de Cristo no meio do mundo. E devemos nos ajudar a transmiti-la aos jovens, senão estaremos abusando de sua liberdade. Se tivermos vocações e as guardamos explorando as motivações superficiais pelas quais esses jovens se sentem atraídos devido à fragilidade de seu narcisismo, de seu formalismo, de seu clericalismo, então isso quer dizer que nós também não temos razões profundas para seguir a Cristo. As razões profundas, somente elas, tornarão possíveis a perseverança e uma fidelidade fecunda e jubilosa que não tem necessidade de estar sempre procurando outras compensações para preencher o vazio» (www.ocist.org – Synode de l’Ordre Cistercien 2014 – Conclusions du rapport de l’Abbé général).

Por esta razão, sinto-me feliz quando, aqui mesmo, há três anos, propus que nossas Ordens se comprometessem em prol da causa do doutorado da Igreja para Santa Gertrudes de Helfta. Confesso que, ao tomar aquela iniciativa, não sabia muito o que estava fazendo. No entanto, graças à vossa reação positiva e ao empenho decidido e entusiasmado dos que foram escolhidos como delegados e delegadas, bem como aos das outras Ordens que se juntaram a nós, é que a referida causa, entre altos e baixos, está caminhando. Mas, sobretudo, isso permitiu e permite, a mim mesmo e a muitos outros, tomar consciência da real importância de nossos místicos para a vida de nossas comunidades e para a Igreja. Creio que, atualmente, a Igreja tem necessidade de se redescobrir como Esposa de Cristo, e de reencontrar, a partir dessa aliança esponsal, sua verdadeira beleza, sua verdadeira integridade e também sua paixão maternal e fraterna pela salvação da humanidade. E a missão da vida monástica na Igreja é manter acesa sua lâmpada de Esposa que espera e ama Cristo para unir-se a ele.

A segunda preocupação que tenho em mente, com relação à minha Ordem, é a falta de comunidade nas comunidades. E aqui, não é o número que conta. Aliás, o número não conta nunca na Igreja. Quando o número conta, é o Único Senhor e a unidade nele que contam mais. Mesmo assim, da parte da Santa Sé, tem-se às vezes a impressão de que o «quanto somos» continua a ser mais determinante que o fato de «estarmos reunidos em nome de Cristo». Seguramente, é a comunidade cristã, definida pela reunião em nome de Cristo, que é garantia de sua presença. Digo isto por me haver dado conta que enfrentar a precariedade com critérios mundanos ou unidades de medida mundanas, ao invés de critérios evangélicos e da medida sem medida do amor de Cristo, além da fé nele, leva a soluções falsas que não servem ao Reino. Numa visão cristã, não é grave morrer, desde que se morra como semente do Reino. E nisto, pelo menos em minha Ordem, precisamos muito nos ajudar e nos apoiar, sobretudo entre superiores. Onde isso acontece, vejo que as comunidades morrem nas cores festivas do outono e na alegria das vindimas, e podemos ver o inverno chegar com a esperança de uma primavera, seja ela qual for.

CFMO problema de muitas comunidades é que, muitas vezes, tendo perdido o sentido do que significa ser comunidade, elas vivem numa profunda falta de unidade, não apenas entre irmãos ou entre irmãs, mas na vida da própria comunidade. É aqui que a ausência de mística provoca uma falta de unidade comunitária. Só seremos livres e fecundos se, em nossa vida e nossa vocação, não perdermos de vista o centro de unidade para o qual poderemos trazer tudo de volta, inclusive o que nos divide, interior e exteriormente. Uma boa comunidade monástica não é uma comunidade de anjos, mas uma comunidade de homens e mulheres que se ajudam mutuamente para reconduzir tudo à unidade em Cristo. Não é uma boa comunidade monástica aquela onde somos formados perfeitamente para um aspecto da vida e da vocação, e não para a unidade em Cristo de todos os aspectos de nossa vida e de nossa vocação. Os piores mosteiros são aqueles onde se reza bem, mas todo o resto vai mal (vida fraterna, trabalho, repouso etc...). É a mesma coisa onde se trabalha bem e se reza mal. Seria melhor viver mal, mas tendo consciência de que tudo pode encontrar sua unidade somente em Cristo, sobretudo não se iludindo de viver bem a própria vocação porque se vive bem um único aspecto desta, negligenciando o resto; isto significa que Cristo não é o centro de toda a vida.

Sob esse ponto de vista, eu me preocupo muito com a atração que certas comunidades exercem sobre os jovens, quando elas realçam um aspecto particular da vida monástica, e não a experiência global da comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs. Neste sentido, vejo que é preciso um grande esforço de formação integral, que não seja somente intelectual ou somente espiritual ou ainda somente econômico. Dou-me conta que os momentos e instrumentos de formação verdadeiramente eficazes e fecundos na Ordem são aqueles onde os participantes fazem uma experiência de formação integral, isto é, num ambiente de comunhão com Deus e de comunhão fraterna centrada em Cristo. É um pouco o que procuramos oferecer há catorze anos com os Cursos de Formação Monástica, na Casa Generalícia, cada ano durante um mês, dos quais já participaram uma boa dezena de monjas trapistinas e vários monges e monjas beneditinos. É a meta que perseguimos com os Cursos para Superiores, que organizamos todos os dois ou três anos, que parecem estar promovendo, na sequência, encontros de superiore(a)s por regiões ou por língua.

Além disso, embora pareça pouco, ainda vejo tensões estéreis ao redor de um poder que nada mais é do que o grão morto dos celeiros do «insensato» da parábola a que me referi no começo. Uma esterilidade grave com relação à urgência de salvação e de vida que o mundo atual está clamando e que o Santo Padre faz eco ao amplificá-la para nós.

 

Dom Mauro-Giuseppe Lepori, OCist,
é Abade Geral da Ordem Cisterciense da Comum Observância

Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB