UM DUPLO ANIVERSÁRIO

Irmã Judith Ann Heble, OSB

Irmã Judith Ann Heble, OSB, é atualmente Moderadora da CIB,
tendo sido eleita em 2006 e reeleita em 2010.
Comprometida desde 1997 com a evolução da CIB,
é membro do «Sacred Heart Monastery», em Lisle, Illinois, nos Estados Unidos.


cib1Para a redação deste artigo, sou devedora a Irmã Ruth Fox, OSB. Foi ela que, durante o Simpósio Especial (Relatório para o terceiro Simpósio Internacional das Monjas e Irmãs, de 9 a 12 de setembro de 1998), narrou a história do início e posterior desenvolvimento da criação da Comissão das Monjas e Irmãs Beneditinas. De 1997 em diante, as informações provêm de minha própria experiência na Comissão e na CIB.

Feliz aniversário, AIM!

Estávamos em 1961: nascia a AIM. No decurso desses cinqüenta anos, a AIM haveria de se tornar uma das principais fontes de ajuda econômica para as comunidades beneditinas nos países em via de desenvolvimento. A AIM foi enormemente sustentada pelo compromisso financeiro de inúmeras comunidades masculinas e femininas, algumas das quais criaram escritórios locais para auxiliar na coleta de fundos destinados a sustentar os Mosteiros no mundo inteiro.

Os desafios do Vaticano II

A AIM começou a funcionar pouco antes da inauguração do Concílio Vaticano II (1962-1965). No dia 28 de outubro de 1965, o Papa Paulo VI publicava o Decreto sobre a renovação e a adaptação da Vida Religiosa, Perfectæ Caritatis.

As comunidades beneditinas femininas do mundo inteiro, através de seus respectivos Capítulos Gerais, se empenharam no trabalho de renovação de suas comunidades, em conformidade com o espírito e o carisma de seu fundador, São Bento. A revisão de suas constituições, diretórios, usos e costumes, livros litúrgicos e rituais exigiu tempo e energia consideráveis por parte das beneditinas pelo mundo afora.

O artigo 23, do Decreto Perfectæ Caritatis, recomendava expressamente que era preciso estimular a criação de Conferências e Conselhos de Superiores Maiores com a finalidade de possibilitar entre eles uma colaboração mais efetiva, partilhar experiências e capacidades e, até mesmo em determinados casos, ajudar as comunidades menores a saírem de seu isolamento e entrarem em contato com outras comunidades.

Há mais de setenta anos(2), este modelo de colaboração já existia entre os Superiores dos Mosteiros masculinos graças ao Congresso dos Abades que ocorria regularmente. A Confederação Beneditina foi criada para promover e consolidar o contato internacional entre os Mosteiros beneditinos masculinos e estimular a tradição do monaquismo ocidental(3). As comunidades beneditinas femininas tinham poucas ocasiões, ou não tinham, de se encontrar a fim de estabelecer relações entre elas. O vasto mundo dessas comunidades era praticamente desconhecido fora de suas próprias regiões geográficas.

Como tudo o que estava se passando na Igreja, e particularmente na vida religiosa, em seguida ao Concílio Vaticano II, surgia uma pergunta: haveria possibilidade de se estabelecer uma forma de solidariedade, qualquer que fosse, entre as beneditinas através do mundo?

cib31966-1976: Esforços em vista do reconhecimento das beneditinas

Em 1966, o Abade Primaz, Dom Beno Gut, OSB, tomou a iniciativa. Ele esperava estabelecer um «Secretariado internacional, dentro da Confederação, que se dedicasse exclusivamente aos interesses das Monjas e Irmãs. Aparentemente nenhuma medida foi tomada na ocasião para organizar esse Secretariado»(4).

Depois de sua eleição como Abade Primaz, em 1967, Dom Rembert Weakland, OSB, retomou a iniciativa de seu predecessor no que concerne a vida monástica feminina. Em 1968, o Sínodo dos Abades Presidentes, sob sua direção, decidiu que o Abade Primaz formaria duas comissões, uma para as Monjas e outra para as Irmãs, com igual representação em cada uma delas e ambas com a mesma secretária(5).

«Ele esperava criar uma única comissão de Monjas e Irmãs juntas, mas foi obrigado pela Congregação dos Religiosos a formar dois grupos distintos(6). Durante os anos seguintes, essas duas comissões se reuniam separadamente com o Abade Primaz para partilhar suas preocupações e seus projetos. Por ocasião dessas reuniões, algumas das participantes sonhavam com o tempo em que Monjas e Irmãs poderiam sentar-se juntas à mesma mesa.

Em 1972, o Sínodo dos Abades Presidentes convidou a Comissão das Monjas e várias Prioresas Gerais de Congregações de Irmãs para assistirem ao Congresso dos Abades na condição de observadoras. «O Abade Primaz Weakland, em seu discurso de abertura do Congresso dos Abades, a 19 de setembro de 1973, saudava as Beneditinas presentes ao Congresso pela primeira vez na História: "Considerando que as mulheres que seguem a Regra de São Bento desempenharam um papel tão importante na história do monaquismo, é um imperativo que a experiência monástica delas seja partilhada com todos. Convidá-las ao Congresso dos Abades foi o único meio de fazer com esta partilha pudesse acontecer". Elas foram convidadas a falar apenas sobre o único tópico que dizia respeito diretamente às mulheres – a afiliação à Confederação»(7).

1977-1987: Uma década histórica

As Beneditinas foram novamente convidadas a tomar parte como observadoras no Congresso dos Abades de 1977. «Elas se encontraram com Dom Victor Dammertz, OSB, recém-eleito Abade Primaz, que confirmou a crescente importância das duas Comissões. Nesse Congresso sugeriu-se organizar um congresso internacional de Beneditinas ou uma conferência comum de homens e mulheres. A resposta dada foi a seguinte:

- não havia estruturas suficientes para acolhê-las;
- as mulheres não seriam capazes de se defrontarem com a cidade;
- as monjas não receberiam autorização para comparecer»(8).

cib2Em 1980, por ocasião dos 1.500 anos do nascimento de São Bento, em 480, as Beneditinas do mundo inteiro encontraram um motivo para celebrá-lo em comum com os Beneditinos. Um grande número delas se juntou a outras comunidades beneditinas masculinas e femininas, em suas próprias regiões geográficas, para celebrar com gratidão o carisma recebido. A Confederação Beneditina também organizou uma celebração do sesquimilenário, em Roma. «Das cerca de 600 Abadessas e Prioresas existentes no mundo todo, apenas 55 foram convidadas para se unirem aos 400 Abades beneditinos, cistercienses e trapistas presentes em Roma de 17 a 21 de setembro. Pela primeira vez na história, a família beneditina inteira se encontrava. A razão daquela assembléia era refletir sobre o papel da Regra e do Mosteiro na sociedade contemporânea. A «Comissão Internacional» que organizara o evento era composta por homens e pelas seguintes mulheres: Irmã Joan Chittister, OSB (Estados Unidos), Madre Bénigne Moreau, OSB (França) e Madre Judith Frei, OSB (Alemanha)»(9).

As mulheres da «Comissão Internacional» foram convidadas na qualidade de observadoras para o Congresso dos Abades que se seguiu à assembléia do sesquimilenário. «Como por ocasião dos encontros precedentes, os Abades discutiram como as Beneditinas poderiam ser agregadas à Confederação, e de que maneira essa relação poderia constar na Lex Propria. A Comissão das Monjas e a Comissão das Irmãs haviam também discutido acerca das implicações dessa agregação, bem como sobre a estrutura de sua própria organização. Embora contando dez anos, os objetivos, a composição, a organização e os modos de funcionamento continuavam a evoluir»(10).

«Três anos mais tarde, em 1983, o Abade Primaz Dammertz, a pedido da Comissão das Monjas e da Comissão das Irmãs, reuniu pela primeira vez, fora do Congresso dos Abades, uma assembléia da Comissão das Irmãs. Ele queria dialogar com cada grupo a respeito dos novos estatutos relativos à associação das Beneditinas à Confederação»(11).

«Madre Edeltrud Weist destacou quatro pontos desse memorável encontro das Irmãs, que lançou as sementes do primeiro Simpósio:

- a lástima de que as Beneditinas não sejam aceitas como membros plenos da Confederação Beneditina;
- o fato de que as Beneditinas sejam divididas em dois grupos, enquanto os monges não;
- o desejo de formar uma assembléia comum com a Comissão das Monjas e
- o desejo de um Simpósio de Monjas e Irmãs a nível internacional»(12).

cib4Em 1984, depois de se terem reunido separadamente, a Comissão das Monjas e a Comissão das Irmãs se encontraram em Roma, pela primeira vez, a fim de avaliar a possibilidade de realizar, em 1987, uma assembléia comum de Monjas e Irmãs reunidas, moniales e sorores. O Abade Primaz, Victor Dammertz, nomeou uma comissão preparatória composta de cinco Monjas e Irmãs a fim de preparar a assembléia comum: Madre Edeltrud Weist (Tutzing/Roma), Madre Bénigne Moreau (França), Madre Ildegarde Sutto (Itália); Madre Amparo Moro Suárez (Espanha) e Irmã Joan Chittister (Estados Unidos).

Houve ainda alguns fortes sobressaltos de opinião entre numerosas Monjas que, vivendo em clausura estrita, sentiam ser-lhes impossível convidar as Irmãs para seus encontros, sem incorrer no descontentamento do Vaticano. E foi o que aconteceu. «A vibração e o entusiasmo provocados por essa primeira conferência internacional para Monjas e Irmãs, em 1987, foram consideravelmente amortecidos quando a Sagrada Congregação dos Religiosos recusou a permissão para as Monjas se encontrarem com as Irmãs»(13).

O primeiro Simpósio Internacional das Beneditinas

cib5O que seria preciso fazer para contornar uma tal situação, aparentemente impossível, que bloqueava o que estava surgindo entre elas?  Em 1987, as Irmãs convidaram dezesseis Monjas a Roma, para tomarem parte num Simpósio cujo tema era: «Implicações da Regra de São Bento na vida das Beneditinas». Estavam presentes quarenta Irmãs. Essa reunião, organizada por Madre Edeltrud Weist, Prioresa geral das Irmãs Beneditinas Missionárias de Tutzing, realizou-se na «Casa Santo Spirito», sede geral romana da mesma Congregação. Depois dessa reunião as coisas já não seriam mais as mesmas. As Beneditinas – tanto as Monjas quanto as Irmãs – começaram a procurar meios para trabalharem em conjunto, compreendendo que semelhante laço seria um enriquecimento para os dois modos de expressão da vida beneditina e para a vida das Beneditinas em todos os lugares. Havia entre as Monjas e as Irmãs mulheres corajosas que não deixariam morrer essa idéia. O Abade Primaz, Dom Victor Dammertz, e seus sucessores também reconheciam que as mulheres tinham necessidade de se encontrar, e apoiavam seus esforços para estabelecer uma colaboração entre elas. «Conforme os relatos das participantes, toda a documentação distribuída foi excelente, mas a parte mais importante do diálogo real aconteceu num plano mais informal, durante as refeições ou nos intervalos para o lanche»(14).

1988-1996: Monjas e Irmãs se reúnem

Em 1988, o Abade Primaz, Dom Victor Dammertz, fusionou a Comissão das Monjas com a Comissão das Irmãs para formar o que ele chamou de «Comissão do Abade Primaz para as Monjas e Irmãs». Seus membros representavam 18 regiões (depois 19) do mundo inteiro, incluindo a Prioresa Geral das Beneditinas Missionárias de Tutzing e um representante da AIM. O Abade Primaz organizou também um Comitê Executivo, chamado mais tarde Conselho Administrativo, ao qual confiou a tarefa de preparar o próximo Simpósio, a realizar-se em 1993, que reuniria simultaneamente Monjas e Irmãs, bem como de redigir o primeiro Estatuto da Comissão. Nesse primeiro Estatuto, a finalidade da Comissão foi definida como sendo em primeiro lugar um órgão consultivo do Abade Primaz, não um meio de comunicação internacional entre os membros femininos da Ordem Beneditina. Naquela época, ainda não se considerava a possibilidade de haver encontros regulares.

Naquele mesmo ano, aconteceu um fato, fora dessa estrutura, que iria se revelar providencial por haver possibilitado uma compreensão mais profunda entre Monjas e Irmãs. As Prioresas norte-americanas organizaram uma peregrinação a um certo número de Mosteiros femininos na Europa, muitos dos quais eram comunidades de Monjas enclausuradas. Esses encontros informais aprofundaram o relacionamento entre todas elas, pelo fato de se olharem numa perspectiva diferente e num ambiente de maior descontração. Quando as Irmãs experimentaram a hospitalidade das Monjas e tomaram parte em sua oração, quando juntas partiram o pão, os temores começaram a se dissipar e as amizades a surgir.

O segundo Simpósio Internacional das Beneditinas

O segundo Simpósio Internacional teve lugar entre 14 e 23 de setembro de 1993, em Santo Anselmo (Roma), e contou com a participação de quarenta Monjas e quarenta Irmãs. O tema foi: «Inculturação da profissão monástica». Os organizadores tiveram a sensibilidade de colocar juntas Monjas e Irmãs, bem como representantes de diversas culturas, para apresentar os documentos a serem estudados e discutidos. As trocas de idéias e de pontos de vista ampliaram a compreensão das participantes não apenas quanto ao tema tratado, mas principalmente de umas para com as outras.

Começou-se a perceber que cada uma tinha a missão de viver sua profissão monástica, e que o monaquismo beneditino feminino estava realmente em vias de se inculturar em todas as partes do mundo. Formaram-se também grupos informais para que as Monjas e Irmãs procurassem se conhecer durante as pausas e as refeições, e partilhassem umas com as outras sobre suas vidas tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas. Uma participante se lembra de que uma Abadessa italiana tomou a iniciativa de ir ao Dicastério competente do Vaticano com o intuito de manifestar sua preocupação no que diz respeito às distinções existentes entre Monjas e Irmãs, e para defender a igualdade e a necessidade de uma colaboração recíproca entre ambas. «Enquanto prosseguia o estudo dos documentos, o diálogo e as conversações informais, todas as velhas barreiras históricas entre Monjas e Irmãs vieram abaixo quando uma Abadessa exclamou: Nós somos Uma, e a assembléia inteira respondeu com aplausos.

Duas decisões manifestaram essa unidade:

1) A redação de uma petição ao Vaticano para que uma religiosa beneditina, representando ao mesmo tempo as Monjas e as Irmãs, fosse convidada como observadora ao próximo Sínodo dos Bispos sobre a Vida Consagrada(15).

2) Que os Simpósios internacionais ocorressem a cada 4 ou 6 anos.

A par da grande variedade de línguas, indumentária e cultura, a unidade de espírito beneditino se impôs, e os membros da assembléia voltaram para suas comunidades festejando um novo laço internacional»(16).

O Abade Primaz, Dom Jerome Theisen, convocou uma reunião de três dias da «Comissão do Abade Primaz para as Monjas e Irmãs», realizada em Roma, entre 22 e 25 de maio de 1995. «O eterno problema da relação entre as religiosas beneditinas e a Confederação foi novamente tratado, bem como o significado da clausura monástica com relação à clausura papal, e os programas de renovação monástica para as mulheres. Mais uma vez se propôs expressamente, embora não se tenha colocado em prática, "o estabelecimento de um Secretariado permanente, como conseqüência natural e necessária das experiências encetadas pelas Beneditinas em matéria de trabalho comum e de partilha"»(17).

Logo após a morte repentina do Abade Primaz Theisen, o Comitê Executivo da «Comissão para as Monjas e Irmãs» se deu conta de que não havia ninguém para convocar uma assembléia e nenhuma estrutura para tomar decisões que esclarecessem como se deveria proceder. Tal situação fez com que se acrescentassem modificações suplementares ao projeto do Estatuto, sugerindo a eleição de uma pessoa capaz que tivesse também autoridade para convocar uma reunião do Comitê Executivo, sem continuar dependendo da iniciativa do Abade Primaz(18).

Com o falecimento de Dom Jerome Theisen, o Abade Pró-Primaz, Dom Francis Rossister, convidou os membros da «Comissão para as Monjas e Irmãs» a participarem do Congresso dos Abades de 1996, na condição de observadoras. «Ele realizava o desejo de seu predecessor que queria ver, pela primeira vez, as Beneditinas convidadas fazerem uso da palavra no Congresso. Madre Ildegarde Sutto, Madre Màire Hickey e Madre Edeltrud Weist falaram aos Abades sobre as preocupações das Beneditinas. As porta-vozes sublinharam novamente a falta de um «status» oficial para as mulheres no seio da Confederação. Questionaram mais uma vez a razão de ser das diferenças disciplinares na Igreja com relação aos membros masculinos e femininos da Ordem Beneditina, diferenças de tratamento evidenciadas pelas distinções feitas entre Monjas e Irmãs com uma base que mudou depois do Concílio Vaticano II e da promulgação do novo Código de Direito Canônico:

1) clausura papal estrita;
2) votos solenes;
3) Ofício Divino integralmente em latim, cantado em gregoriano»(19). 

1997-2000: Surgimento da cooperação e da ajuda mútua

Nos dias 16 e 17 de junho de 1997, as Delegadas da «Comissão do Abade Primaz para as Monjas e Irmãs» estiveram em Roma, chamadas que foram pelo novo Abade Primaz, Dom Marcel Rooney, a fim de discutir com ele seus problemas e procurar determinar como poderiam ir mais além, assumindo as diferenças existentes entre elas e consolidando suas relações. «A possibilidade de se criar um Secretariado para as Beneditinas foi mais uma vez estudada, fazendo-se um acordo que permitisse à estrutura de evoluir naturalmente»(20).

Após terem fixado a data do próximo Simpósio, as Monjas e as Irmãs aprovaram também o novo Estatuto, que dava agora uma certa estrutura aos seus sonhos de se encontrarem juntas na mesma unidade. Embora as Delegadas fossem até então nomeadas pelo Abade Primaz, pela primeira vez elas puderam realizar uma eleição para escolher uma Moderadora e uma Substituta entre os membros designados do Comitê Executivo(21). Foi eleita como Moderadora Madre Màire Hickey, Abadessa da Abadia de Santa Escolástica (Abtei St. Scholastika), de Dinklage, Alemanha, para um mandato de quatro anos.

O terceiro Simpósio Internacional das Beneditinas

Em 1998, 120 participantes vieram a Roma para o terceiro Simpósio Internacional, cujo tema foi: «Experiência de Deus e o modo beneditino de abordar a oração».

De novo, a rica partilha que aconteceu aprofundou não apenas a compreensão do «modo beneditino de abordar a oração», mas também os laços entre as Monjas e as Irmãs. Mesmo sendo a oração delas o reflexo da cultura de cada uma e da tradição monástica a que pertencem, descobriu-se que a essência da vida de oração beneditina era a mesma para todas. Qualquer que fosse a língua utilizada, a Liturgia das Horas foi não apenas um sinal de reconhecimento, mas uma experiência orante e uma fonte de unidade para todas as participantes.

cib6Foi depois desse Simpósio que as Delegadas se encontraram e decidiram se reunir cada ano. Antes dessa data, todos os encontros das Delegadas tinham lugar em Roma. Com sua liderança criativa, Madre Màire Hickey propôs que o primeiro encontro anual das Delegadas, em 1999, se realizasse fora de Roma. Depois de muita discussão e até hesitações por parte daquelas que receavam viajar para muito longe de seus Mosteiros, a sugestão foi aceita e essa disposição ocorre a cada dois anos. A escolha do local para o encontro recaiu em um dos Mosteiros das Irmãs Beneditinas da Adoração Perpétua, em Saint Louis, Missouri (Estados Unidos). Monjas e Irmãs fizerem juntas a viagem até Saint Louis, em pleno calor de julho, para realizar seu encontro. Mas, nem tudo foi trabalho! As Delegadas tiveram oportunidade de encontrar as Irmãs norte-americanas de três outras comunidades situadas nas proximidades de Saint Louis. Esses encontros foram reveladores de uma experiência extraordinariamente rica, não somente pela hospitalidade das Irmãs norte-americanas, mas também pelo autêntico espírito beneditino e a impressionante vida de oração testemunhada pelas comunidades visitadas. Estar juntas era um meio informal, fora das reuniões, para fortalecer os laços que se iam criando, não apenas nos Mosteiros visitados, mas também nas viagens feitas em «vans». Não pareceu prejudicial para a vida monástica de quem quer que fosse o fato das Delegadas terem tido oportunidade de participar dos festejos do Independence Day nos Estados Unidos!

O relacionamento entre as Monjas e as Irmãs foi perfeito? Absolutamente não! Dois pontos precisavam ser resolvidos:

1) a relação entre as Beneditinas e a Confederação;
2) a clausura – que dava a impressão de ser uma fonte de grandes dificuldades, falsas interpretações e receios entre elas.

Assembléia especial: um Colóquio

No ano de 2000, o Comitê executivo organizou um Colóquio para cinqüenta monjas e cinqüenta Irmãs, representando todas as Regiões, a fim de tratarem de todas essas questões antes do Congresso dos Abades. Madre Màire Hickey, Moderadora da «Comissão do Abade Primaz para as Monjas e as Irmãs», saudou as participantes sublinhando que «esse encontro é um Colóquio, não um Congresso ou um Simpósio com longas exposições e conferências. Nós estamos aqui para nos comunicarmos umas com as outras, para partilhar com as outras a nossa experiência monástica, e para nos estimularmos reciprocamente em nossa procura comum de meios autênticos para, nesse século XXI, viver a vocação própria da espiritualidade monástica beneditina»(22).

As Monjas e as Irmãs foram acolhidas em Santo Anselmo pelo Abade Primaz, Dom Marcel Rooney. «Ele esperava que esse Colóquio levasse a uma compreensão mais profunda das diferenças existentes entre cada casa beneditina. Uma das características específicas da Ordem Beneditina é a AUTONOMIA de cada casa. Isso implica diferentes maneiras de viver a Regra e torna possível que essas diferenças coexistam como um enriquecimento recíproco. O que conta mais são as estruturas de nossos corações, que conduzem ao amor de Deus e de nosso próximo»(23).

Dom Abade Richard Yeo, OSB, canonista, veio encontrar as participantes do Colóquio para expor o que fora resolvido nos últimos anos a respeito das relações entre as Beneditinas e a Confederação, observando que «a legislação concernente às Beneditinas na Lex Propria de 1985 já estava ultrapassada e necessitava de ajustes»(24). Dom Abade Richard explicou o significado do termo consociatio como sendo a palavra mais adequada para ser empregada no momento atual, no intuito de caracterizar a relação que está se desenvolvendo entre as Beneditinas e a Confederação, termo que implica uma relação de colaboração entre iguais(25). As Monjas e as Irmãs se mostraram favoráveis a que se caminhasse nessa direção, «chamando a atenção para que houvesse o máximo empenho em garantir que todos os Mosteiros se sentissem bastante comprometidos com essa evolução, tanto as comunidades contemplativas – Moniales (Monjas) vivendo no regime de clausura papal e Moniales vivendo no regime de clausura constitucional – quanto as Sorores (Irmãs) comprometidas com os ministérios de vida ativa, e que para tanto houvesse um maior diálogo nos anos vindouros»(26).

No Colóquio, as Monjas e Irmãs passaram também um tempo considerável tratando juntas o tema e os elementos da «clausura». Não houve nenhuma exposição formal. Tudo foi incluído num processo de partilha – algo que as mulheres são naturalmente hábeis para pôr em prática! As participantes saíram dessa experiência reconhecendo melhor os valores comuns que atribuem à clausura, apesar das diferenças nas maneiras como elas a vivem. Puderam assim compreender as palavras de Madre Màire Hickey em sua alocução de abertura: «A maneira como um monge, uma irmã ou uma monja vive sua clausura, dando uma atenção amorosa e sensível para além do espaço em que Deus o/a chamou e que, por conseguinte, só pertence a Ele, é da essência da alma monástica»(27).

Em seguida ao Colóquio, as Delegadas da Comissão foram convidadas a tomar parte como observadoras no Congresso dos Abades. Madre Màire Hickey fez uma exposição sobre a evolução do relacionamento entre as Beneditinas e a Confederação, instando a que os Abades atualizassem o Ius Proprium (Direito Próprio) para que este refletisse com mais exatidão a realidade e a identidade da Comissão no presente, e a direção para a qual ele estava se direcionando.

Dois anos antes daquele Congresso dos Abades, «algumas Prioresas de comunidades africanas informaram às Prioresas norte-americanas responsáveis pelos encontros internacionais das Beneditinas a respeito de atitudes inconvenientes de ordem sexual que estavam ocorrendo entre Padres e algumas Irmãs de suas comunidades, tanto na África como em Roma, onde algumas delas estavam estudando»(28). O Abade Primaz, Dom Marcel Rooney, ficou muito interessado em reservar um tempo para as Beneditinas, na agenda do Congresso, a fim de que elas levassem esses fatos ao conhecimento dos Abades. Irmã Esther Fangman, OSB(29), Doutora em Psicologia, terapeuta e conselheira experiente, foi convidada para expor o assunto aos Abades. Sua apresentação dizia abertamente a verdade sobre «o que estava acontecendo» com algumas de nossas irmãs beneditinas não apenas na África, mas também em outras partes do mundo; «como isto acontece»; uma «explicação psicológica possível»; e «o mal causado à pessoa que é abusada»(30).

No dia 7 de setembro de 2000, o Arquiabade Notker Wolf foi eleito Abade Primaz. Na tarde daquele mesmo dia ele se encontrou com o Comitê Executivo da Comissão para oferecer o seu apoio e insistir com as Beneditinas para que continuassem construindo uma associação de solidariedade entre elas e a Confederação Beneditina. Na reunião de novembro de 2000 com o Comitê Executivo, ele encorajou as Beneditinas a prosseguir no que concerne a evolução da Comissão das Beneditinas para que ela se tornasse autônoma em sua atividade. Também se manifestou de acordo em que se acabasse com o termo «Comissão do Abade Primaz»(31).

2001-2003 – Em busca de uma identidade

logocibDurante o Colóquio de 2000, ficou bastante evidenciado que as Monjas e as Irmãs estavam avançando no caminho da criação de uma identidade comum. Parecia que elas estavam dizendo: «Demos nome ao que somos no momento atual». E assim aconteceu. Na preparação do encontro da Comissão, em 2011, Madre Màire Hickey, em sua condição de Moderadora, e o Abade Primaz Notker Wolf escreveram uma carta conjunta enviada a cada Mosteiro de Beneditinas do mundo inteiro pedindo sugestões para um nome que as designasse. Com base nas respostas enviadas, as Delegadas deveriam tomar uma decisão quanto ao nome a ser dado. Foi assim que as representantes das dezenove Regiões, reunidas no Priorado do Sagrado Coração (Sacred Heart Priory), em Nairóbi, Quênia, no dia 6 de novembro, votaram em favor de COMMUNIO INTERNATIONALIS BENEDICTINARUM - «CIB» como abreviatura – nome que iria identificá-las como religiosas beneditinas através do mundo. Por conseguinte, o ano de 2011 marca o décimo aniversário da CIB! Parabéns! As Beneditinas fizeram juntas uma longa caminhada!

As Delegadas examinaram ainda a questão das relações das Beneditinas com a Confederação. Os trabalhos realizados durante essa reunião tiveram continuidade nos esforços conjuntos empreendidos por Madre Joanna Jamieson, OSB, Abadessa de Stanbrook (Inglaterra), e Dom Richard Yeo com o intuito de apresentar sugestões relativas à revisão de determinados pontos do Ius Proprium (Direito Próprio) das Normæ de Consociatione e elaborar os procedimentos de reconhecimento expresso da CIB na Lex Propria da Confœderatio Benedictina, durante o Congresso dos Abades de 2004. A CIB esperava «ser reconhecida como um corpo próprio não-jurídico das Monjas e Irmãs Beneditinas em consocietas com a Confederação, capaz de dialogar com seus irmãos e trabalhar com eles em projetos comuns»(32).

O quarto Simpósio Internacional das Beneditinas

Em 2002, a CIB organizou sua primeira grande reunião, o quarto Simpósio Internacional, com o seguinte tema: «Capítulo 72 da Regra de São Bento: DO ZELO BOM». O encontro foi presidido por Madre Màire Hickey, eleita Moderadora em 1997. O Abade Primaz Notker Wolf deu as boas-vindas às participantes, em Santo Anselmo, e estimulou as Monjas e Irmãs a continuarem procurando caminhos criativos para se apoiarem mutuamente. Novos documentos foram redigidos conjuntamente por elas e representantes de culturas diversas. Um aspecto singular em seu gênero, nessa reunião, foi que dezenove jovens beneditinas, com menos de cinqüenta anos de idade e tendo cinco anos ou menos de profissão perpétua, faziam parte da assembléia – uma por Região. Essas jovens irmãs trouxeram consigo as próprias energias e entusiasmo. Foi gratificante ouvir seus pensamentos e idéias a respeito do zelo bom; de igual modo, foi importante para elas ouvirem suas Abadessas e Prioresas expor os desafios que devem ser superados quando se vive na vida monástica. Essas jovens irmãs são, de fato, o futuro de nossas comunidades. Pouco a pouco elas foram se ligando umas às outras e várias delas descobriram meios para permanecerem em comunicação e, desse modo, se apoiarem reciprocamente. As diversas regiões puderam se reunir e oferecer às outras maneiras criativas de expressão (cantos, dança, leituras, etc.) que manifestavam a vida monástica na cultura própria de cada uma. Semelhantes atividades deram ao Simpósio uma dimensão mais ampla além e aquém das apresentações formais.

Este Simpósio aconteceu após a reunião das Delegadas e nele, pela primeira vez, houve eleições não apenas para a Moderadora, mas para a Moderadora Assistente e dois membros do Conselho Administrativo. Até então, os membros do Conselho Administrativo bem como as Delegadas das diferentes Regiões eram todas nomeadas pelo Abade Primaz. O Estatuto revisto, votado pelas Delegadas e ratificado pelo Abade Primaz dava testemunho de uma nova compreensão da identidade da estrutura que estava nascendo, realçando em primeiro lugar como objetivo da CIB: Promover o apoio mútuo e o intercâmbio de idéias e de experiência entre as Beneditinas a nível internacional e estimular o desenvolvimento do monaquismo feminino(33).

A versão de 2002 do Estatuto solicitava ainda às Monjas e Irmãs que realizassem nas respectivas Regiões suas próprias eleições a fim de escolherem as Delegadas. Nesse Simpósio, Madre Màire Hickey foi reeleita Moderadora da CIB.

2004 – 20011: Reconhecimento da CIB

Por ocasião de seu encontro em Assis (Itália), entre os dias 16 e 20 de setembro de 2004, as Delegadas da CIB foram informadas dos passos que estavam sendo dados quanto à compreensão do modo de relacionamento entre as Beneditinas e a Confederação. Madre Màire Hickey teve o cuidado de declarar que «a CIB não é uma estrutura de jurisdição e/ou de poder. Cada Mosteiro, Congregação, Federação continua existindo dentro das próprias estruturas canônicas em vigor até agora. Nós somos, sobretudo, uma ramificação de comunicação de inspiração espiritual para os Mosteiros femininos, "associada" à Confederação Beneditina com uma perspectiva mais ampla de promover o monaquismo feminino que vive segundo a Regra de São Bento no século XXI»(34). Quando as Delegadas seguiram para Roma, depois da reunião de Assis, estavam ansiosas e ao mesmo tempo cheias de esperança que seu pleito de serem «associadas» à Confederação Beneditina se tornasse uma realidade. Naquela ocasião, o Secretariado da CIB foi instalado em Assis, no Mosteiro San Giuseppe, gentilmente oferecido pela Madre Abadessa Giacinta Soverino, OSB(35).

Uma circunstância memorável

O Abade Primaz, Dom Notker Wolf, deu as boas-vindas às Delegadas da Conferência CIB no Congresso dos Abades de 2004, em Santo Anselmo, Roma. Garantiu aos Abades que a CIB «não pretendia tornar-se uma entidade jurídica dentro das estruturas canônicas da vida consagrada», mas «tinha, sobretudo, por objetivo promover a vida monástica feminina a nível fraterno e espiritual»(36). Madre Màire Hickey se dirigiu aos Abades para lhes expor a evolução da CIB no decurso dos anos precedentes e pedir «que o Congresso atualizasse, na Lex Propria, as referências às relações entre as comunidades femininas e a Confederação, adaptando o documento às mudanças acontecidas desde que foi redigida a Lex Propria em 1983»(37). Dom Abade Richard Yeo e Madre Abadessa Joanna Jamieson haviam redigido um texto propondo as modificações a serem feitas na Lex Propria, com a intenção de submetê-lo ao Congresso dos Abades para exame. Dom Abade Richard «apresentou esse projeto com muita clareza e habilidade, e os Abades tiveram tempo de fazer perguntas. "A Confederação irá providenciar um guarda-chuva debaixo do qual a CIB poderá existir aos olhos da Igreja", disse ele em sua apresentação»(38).

Em 27 de setembro de 2004, a Communio Internationalis Benedictinarum foi reconhecida e sua relação com a Confederação Beneditina maciçamente aprovada na atualização do texto de 1985 das Normæ de Consociatione cum Confœderatione (Normas da Lex Propria). A CIB representa agora, oficialmente, um corpo de comunidades beneditinas femininas «associadas» à Confederação Beneditina – conforme consta no Catalogus Monasteriorum OSB (1ª edição, 2000; 2ª edição, 2006), quer se trate de Monjas ou Irmãs(39). «O resultado foi um coroamento do trabalho da Comissão da CIB realizado até aqui e foi saudado por todos, homens e mulheres, com uma mesma e grande alegria»(40).

O que é a CIB

Mas, o que é exatamente a Communio Internationalis Benedictinarum? A CIB, «respeitando a autonomia de cada Mosteiro, Congregação e Federação, congrega num vínculo fraterno todas as comunidades femininas» associadas à Confederação Beneditina, e funciona sob a égide do Ius Proprium (Direito Próprio) da Confederação. O objetivo da CIB é:

1. Promover o apoio recíproco e o intercâmbio de idéias e de experiência entre as Beneditinas a nível internacional e estimular o desenvolvimento do monaquismo feminino.

2. Continuar a incrementar a Consociatio entre as comunidades femininas e a Confederação Beneditina.

3. Levar ao conhecimento da Confederação, do Sínodo dos Abades Presidentes e do Congresso dos Abades os assuntos importantes das Beneditinas.

4. Informar o Abade Primaz acerca das questões que dizem respeito às Beneditinas e apresentar-lhe sugestões e propostas a respeito das mesmas(41).

A CIB representa dezenove Regiões no mundo. As Delegadas dessas Regiões constituem a Assembléia da CIB. A Assembléia, composta de trinta e quatro Delegadas e um observador da AIM, se reúne anualmente. Há um Conselho Administrativo composto pela Moderadora, a Assistente da Moderadora e quatro outras pessoas: duas são eleitas e duas podem ser escolhidas. O Conselho Administrativo se reúne duas vezes por ano. A tarefa principal das Delegadas é de representar efetivamente cada Região nas reuniões da Assembléia da CIB e, ao inverso, cada uma delas é responsável por transmitir as informações provenientes da Assembléia às comunidades de suas respectivas Regiões.

Ao longo dos anos, a Assembléia da CIB estabeleceu objetivos para orientar suas atividades por períodos com quatro anos de duração. No que concerne o presente ciclo de quatro anos, o Conselho Administrativo estabeleceu que a Assembléia desenvolvesse a possibilidade de uma ação conjunta em solidariedade com as Beneditinas do país que irá acolhê-la.

O quinto Simpósio Internacional das Beneditinas

A cada quatro anos, realizam-se Simpósios em Santo Anselmo (Roma), reunindo uma centena de Beneditinas representando as dezenove Regiões. O quinto Simpósio Internacional, acontecido entre 7 e 14 de setembro de 2006, teve como tema: Uma liderança sábia: que haja o que os fortes desejam e os fracos não fujam (RB 64, 10). As participantes tiveram a oportunidade de escutar pessoas competentes bem como líderes de comunidades monásticas que, partilhando seu amor pelas próprias comunidades, delinearam para o auditório a maneira com que vêem o desempenho de suas tarefas no exercício do governo. Era a primeira vez que membros recém-eleitos, um por cada Região, tomavam parte no Simpósio e faziam a experiência de como pode ser positiva a partilha e a colaboração entre monjas e irmãs, entre Abadias antigas e fundações novas, entre grandes e pequenas comunidades, entre línguas diferentes e culturas diversas. Olhando-se umas às outras dentro da sala, as participantes puderam realmente ver o mundo inteiro num só raio de sol(42).

Uma experiência bastante enriquecedora aconteceu durante a peregrinação a Núrsia. No meio das ruínas da Igreja de Santa Escolástica, uma centena de Beneditinas, monjas e irmãs, permaneciam de pé, juntas e solidárias, para renovar a profissão monástica em diferentes grupos lingüísticos. Elas se comprometeram novamente na procura de Deus em suas respectivas comunidades, permanecendo, contudo, solidárias para com suas irmãs no mundo inteiro.

No final do Simpósio, a Assembléia realizou sua reunião e elegeu Irmã Judith Ann Heble, OSB, como Moderadora da CIB, visto que Madre Màire Hickey havia completado nove anos nesta função.

Em 2008, as Delegadas da Assembléia da CIB foram convidadas a participar do Congresso dos Abades, em Santo Anselmo, podendo inclusive tomar parte nos grupos de reflexão previstos naquele encontro. Nesse Congresso, Irmã Judith Ann Heble, Moderadora da CIB, apresentou aos Abades um relatório acerca do desenvolvimento e das atividades da CIB desde o último Congresso, em 2004.

O sexto Simpósio Internacional das Beneditinas

De um Simpósio ao outro, a ligação que se estabeleceu entre as participantes vindas do mundo inteiro tornou-se sensivelmente evidente e tornou-se ainda mais durante esse sexto Simpósio Internacional, realizado de 8 a 15 de setembro de 2010, em Santo Anselmo, intitulado: Beneditinas: testemunhas da esperança.

O refrão de Taizé: Bonum est confidere in Domino, bonum est sperare in Dominum, resumia a experiência do Simpósio. «Todos os elementos do Simpósio foram cuidadosamente encaixados uns aos outros para formarem uma única reflexão e um único apelo concernente à ESPERANÇA»(43).

Uma equipe de planejamento, composta de seis membros, foi designada para preparar, com dois anos de antecedência do Simpósio, os detalhes de sua coordenação, organizar as celebrações litúrgicas e a hospedagem, de modo que as diversas atividades transcorreram com tranqüilidade, criando assim uma atmosfera que levava à oração, à reflexão e à partilha de esperanças e sonhos, preocupações e desafios. As conferencistas discorreram com paixão e esperança sobre o porvir da vida beneditina. Membros mais jovens das diversas Regiões também estiveram presentes. A rica diversidade da centena de participantes, proveniente das diversas partes do mundo, fez-se ver e ouvir quando mutuamente elas se instigaram a considerar o significado da esperança para a vida monástica hoje e amanhã. Novas sementes de esperança foram plantadas entre elas. Todas puderam experimentar em uníssono o desejo de São Bento com relação à communio, «...e que ele possa conduzir-nos todas juntas para a vida eterna»(44).

À medida que a CIB foi evoluindo nesses últimos dez anos, ficou mais do que evidente que as estruturas tais como foram elaboradas na primeira versão dos Estatutos, não acompanharam o movimento que foi se desenvolvendo entre as Beneditinas. A 4 de setembro de 2009, os novos Estatutos, definindo mais exatamente o que é a CIB no momento atual, foram unanimemente aprovados pela Assembléia da CIB e ratificados pelo Abade Primaz, Dom Notker Wolf(45).

Conclusão: Unidas na solidariedade

Muita coisa mudou desde minha primeira experiência internacional em 1997. No decurso dos anos, constatei que as relações entre nós cresceram e se aprofundaram à medida que as amizades iam se formando através dos continentes. A decisão de realizar as reuniões das Delegadas a cada dois anos, sempre em uma Região diferente, provocou um impacto enorme no sentido de fazer com que Monjas e Irmãs se encontrem de uma maneira bem fraternal(46).

«A CIB é mais do que um encontro de trabalho de três dias uma vez ao ano. Isso poderia tranqüilamente ser feito por e-mail. Entretanto, nós achamos que a experiência de nos visitarmos umas às outras, de Região em Região, era um intercâmbio maravilhoso sobre a vida e a evolução das Beneditinas nas diferentes partes do mundo. Quanto mais nos conhecíamos mutuamente, melhor podíamos nos compreender e apreciar os dons que cada uma traz ao universo das Beneditinas. Foi algo de extremamente enriquecedor sermos apresentadas às pessoas do país e poder assim conhecer a cultura local»(47). Esses encontros internacionais nos ensinaram que o universo das Beneditinas é mais vasto do que aquele confrontado por cada uma em sua própria Região. As diferentes expressões da vida monástica são integralmente ligadas à beleza com a qual o carisma foi fielmente vivido em países diversos e de culturas diferentes, alguns de formação recente, outros já de vários séculos. Mesmo possuindo diferentes sensibilidades, todas nós falamos realmente a mesma linguagem beneditina. Nossa qualidade de «irmãs» é antiga, embora sempre nova, e nos envolve a todas nós – de todas as raças e línguas – na família beneditina. 

O fato de nos encontrarmos em diferentes Regiões seguramente proporciona às Delegadas informações, mas é também proveitoso para as Regiões que nos acolhem. Em inúmeros casos, a Delegada da Região que convida faz com que as outras comunidades de sua Região se reúnam e tenham contacto com as Delegadas visitantes. As Delegadas da Conferência da CIB já visitaram sete Regiões: Estados Unidos, Região 9; Quênia, Região 16; Austrália, Região 15; Polônia, Região 7; Filipinas, Região 14; Itália, Região 1; Croácia, Região 8. Ocasionalmente, o Conselho Administrativo procura também se reunir em diferentes Regiões onde apenas um pequeno grupo pode ser acomodado. A convite de Madre Henriette Wênd-Bala Kalmogo, OSB, do Burkina Faso, a Conferência da CIB se reunirá em setembro de 2011 na África Ocidental. O Conselho Administrativo da CIB se reunirá no Mosteiro de Notre-Dame de Koubri e a Conferência da CIB fará suas reuniões e experimentará a vida dos Beneditinos, homens e mulheres, no Togo, no Benin e em Gana. Em janeiro de 2012, o Conselho Administrativo da CIB está planejando sua reunião com as Beneditinas de Israel.

Temos feito esforços imensos para estimular o monaquismo feminino. Cada experiência do país e da história da outra nos enriqueceu e alargou os horizontes de nós todas, dando-nos uma visão mais ampla da vida monástica, instigando-nos a ser mais receptivas. Minha esperança é que esse modelo de intercâmbio prossiga entre nós de modo a nos conduzir «unidas pelos laços da fraternidade»(48). Nossa unidade no espírito de São Bento é para nós todas um sinal visível do fato que a vida monástica é um dom para a Igreja e o mundo, uma maneira de viver inteiramente centrada na procura de Deus. 

Neste ano de 2011, a AIM está festejando seus cinqüenta anos. A CIB, consciente de que foram necessários quarenta e cinco anos de penosos esforços para que ela se tornasse uma realidade, celebra alegremente seus dez anos de existência. A CIB é muito grata à AIM por sua ajuda, que permitiu a numerosas Monjas e Irmãs de nações pobres tomarem parte em seus encontros e Simpósios.

Para maiores informações, ver o site da CIB: www.benedictines-cib.org


Traduzido do inglês por Dom Mauro Maia Fragoso, OSB




1) Irmã Ruth Fox é membro da comunidade do Sacred Heart Monastery, Richardton, North Dakota, Estados Unidos. Foi Prioresa de sua comunidade de 1973 a 1981 e de 2000 a 2011. Foi também Presidente da Federação de Santa Gertrudes, entre 1990 e 1999, e membro da Comissão do Abade Primaz para as Monjas e Irmãs, entre 1996 e 1998.
2) Entre 1886 e 1893 o Papa Leão XIII começou a fundação da Confederação Beneditina.
3) Manual da CIB, 2a edição (em inglês), 2010, p. 2.
4) Fox, Irmã Ruth, Simpósio Especial, Relatório para o terceiro Simpósio Internacional das Beneditinas, 9 a 12 de setembro de 1998, p. 1 (da edição em inglês).
5) Weakland, Rembert, OSB, Carta-circular às Beneditinas, 28 de outubro de 1968.
6) Ibid., Fox, Carta do Arcebispo Rembert Weakland a Irmã Ruth Fox, 12 de março de 1998.
7) Ibid., Fox, p. 2.
8) Ibid., Fox, Carta de Irmã Pascaline Coff, OSB, a Irmã Ruth, 14 de fevereiro de 1998.
9) Ibid., Fox, p. 2, citando a Conference Call (Convite à Conferência), dezembro de 1978.
10) Ibid., Fox, Simpósio Especial, p. 2 (da edição em inglês).
11) Ibid., p. 3.
12) Ibid., p. 3, citação de Madre Edeltrud Weist, OSB (documento não publicado entregue no Congresso dos Abades, em setembro de 1996).
13) Ibid., Fox, p. 3.
14) Ibid.
15) Ibid., p. 4 – A petição foi atendida e Madre Edeltrud Weist representou as Beneditinas no Sínodo.
16) Ibid., p. 4.
17) Ibid., Fox, p. 4 – Informação contida em The Conference Call, Inverno, 1996.
18) Hickey, M. Màire, OSB - De um documento dirigido às Abadessas alemãs, 1998.
19) Ibid., Fox, p. 4. Extrato de documentos fornecidos ao Congresso dos Abades, setembro de 1997.
20) Ibid., p.5. A partir de 1996, passou a existir um Secretariado permanente para a Comissão e a CIB.
21) Projeto do Estatuto, 1997, 12a & b.
22) Comissão das Beneditinas, uma Comissão do Abade Primaz: Crônica no 2 – setembro de 2000. Palavras de acolhida de Madre Màire Hickey, Moderadora, p. 1.
23) Ibid., Palavras de acolhida do Abade Primaz Marcel Rooney, p.1.
24) Ibid., p. 5.
25) Manual da CIB, 2a edição (em inglês), p. 2. A palavra latina consociatio é um composto de duas palavras: «socius», que significa «aliado» ou «colega», e cum, que significa «com». A palavra indica uma relação de colaboração entre iguais (R. Yeo).
26) Op. cit., Commission Newsletter, no 2, p. 5.
27)  Ibid., p. 2.
28) The Conference Call, «Dizendo a verdade», Relatório de Esther Fangman, vol. 22, no 2, Inverno, 2001, p.10-11.
29) Irmã Esther Fangman, OSB, é membro da comunidade beneditina de Mount St. Scholastica, em Atchison (Kansas), Estados Unidos. Foi Presidente da Federação de Santa Escolástica, de 1998-2010, e Delegada na Comissão e na CIB, de 1999-2007.
30) Op. cit., Conference Call.
31) Op. cit., Conference Call – Reunião do Comitê Executivo, p. 12, e Carta do Abade Primaz às Abadessas e Prioresas, fevereiro de 2001.
32) Minuta da Comissão das Beneditinas, 5 a 7 de novembro de 2011, p. 4.
33)  Estatuto da CIB, 2002.
34) Relatório da Moderadora no Encontro da CIB, Assis, CIB-Newsletter, Setembro, 2004; vol.  1, no 2, p. 4.
35) Em 2010, o Secretariado foi transferido para a Abadia de Sant’Antonio Abate, em Roma, graças a amabilidade de Madre Abadessa Michaela Porcelatto, OSBCam.
36) Relatório da Moderadora no Congresso dos Abades, CIB-Newsletter, Setembro, 2004; vol.  1, no 2, p. 11.
37) Ibid., p. 10.
38) CIB-Newsletter, Setembro, 2004; vol. 1, no 2, p. 1.
39) Op. cit., Manual da CIB, (em inglês), p. 6.
40) Op. cit., CIB-Newsletter, 2004, p. 1. Comentário do editorial por Irmã Mônica Lewis, OSB, Secretária da CIB.
41) Op. cit., Manual da CIB (em inglês), p. 10-11. Ius Proprium, no 14, 15; Normæ de consociatione cum Confœderatione, præsertim nn. 7-9. O Catalogus Monasteriorum O.S.B. Sororum et Monialium dá a lista de todas as comunidades pertencentes (ou associadas) à Confederação.
42) Papa São Gregório Magno, Vida e Milagres de São Bento, livro II, cap. 35, Ed. Lumen Christi / Ed. Subiaco, Rio de Janeiro / Juiz de Fora, 2009, p. 172.
43) Irmã Judith Ann Heble, OSB – « Relatório da Moderadora da CIB», CIB-Newsletter, no 6, p. 2, Setembro, 2010.
44)  RB 72, 12.
45) Op. cit., Manual da CIB (em inglês), p. 10-18.
46) Em anos alternados, as Delegadas se encontram em Roma como convidadas do Congresso dos Abades ou para seu próprio Simpósio, os dois acontecendo a cada quatro anos.
47) Irmã Judith Ann Heble, OSB – «Relatório da Moderadora da CIB», 8 de setembro de 2010.
48) Op. cit., Manual da CIB (em inglês), p. 10.

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