ALGUMAS REMINISCÊNCIAS DO ENCONTRO MONÁSTICO DE BOUAKÉ

(21 a 26 de maio de 1964)

Irmã Monique Masson, OCSO
é monja trapistina do Mosteiro de L’Étoile Notre-Dame, de Parakou (Benin).


A revista «Rythmes du monde» dedicou um número inteiro à Reunião dos Superiores monásticos realizada no Mosteiro de Bouaké (Costa do Marfim), entre 21 e 26 de maio de 1964 (1965, Tomo XIII, no 1 e 2).

Este encontro, que podemos classificar como histórico, reuniu quase todos os Superiores e Superioras dos Mosteiros da África e Madagascar que vivem sob a Regra de São Bento, aos quais associou-se o P. Daniel-Ange, Superior da Fraternidade da Virgem dos Pobres, no Ruanda. Tanto os de língua francesa como os de língua inglesa haviam sido convidados. No entanto, apenas dois de língua inglesa compareceram. Chamo a atenção, de passagem, que os Superiores presentes eram todos europeus. Uma monja e três monges africanos participaram dos colóquios.

É bom dizer que o Secretariado da Ajuda à Implantação Monástica, tendo à frente o Reverendo Padre Dom Marie-Robert de Floris (presente à reunião), estava na origem desse Encontro, como resposta, parece-me, a um desejo expresso por certo Superior de um Mosteiro africano. Os Mosteiros da África ocidental tinham apenas alguns anos de existência: os primeiros foram fundados em 1960. Alguns Mosteiros da África oriental e do Madagascar tinham uma experiência mais longa, em particular o Mosteiro de Ambositra, fundado em 1934, pelas Beneditinas de Vanves. Este Encontro era uma ocasião para confrontar nossos pontos de vista e partilhar nossas experiências sobre assuntos importantes concernentes ao futuro do monaquismo na África.

Foram propostas cinco questões para serem refletidas por nossas comunidades:

● O que a Igreja espera do monaquismo implantado na África? Que monaquismo queremos implantar?

● Condições de recrutamento: exigências de formação prévia intelectual e religiosa.

● A formação dos Postulantes no Mosteiro.

● Como dar uma formação litúrgica ao Postulante autóctone?

● Problemas econômicos das fundações missionárias.

Redigiram-se relatórios sobre essas cinco questões, que foram enviados às comunidades a fim de ajudá-las em suas reflexões. Por conseguinte, podemos afirmar que as opiniões expressas não foram somente as dos Superiores e Superioras presentes em Bouaké, e sim o fruto das trocas de idéias dos irmãos e irmãs em seus respectivos Mosteiros.

Dom Jean Leclercq(1) abriu o Encontro com uma conferência da qual citarei apenas algumas passagens. «Pediram-me para falar da implantação do monaquismo. "Implantação", essa bela palavra que evoca um crescimento natural... Fazer viver o monaquismo de sempre no homem africano de hoje e de amanhã... E para isso, voltar à fonte, a essa pedra que é Cristo e de onde corre para sempre a vida da Igreja... o monaquismo africano a cuja juventude assistimos o crescimento na base... do Evangelho único e eterno».

Pediram-me que falasse dos resultados dessa reunião a curto e a longo prazo, e quais foram as suas conseqüências.

O primeiro resultado, e não o menor, foi o fato de nos encontrarmos, nos conhecermos. Pois, nossos Mosteiros eram isolados. Cada um seguia seu caminho, conduzido pelo Espírito Santo, é claro. Mas, encontrar-se entre irmãos e irmãs, além de poder dialogar com toda confiança, foi um bem imenso. E também isso foi um fruto do Espírito.

Os debates a respeito das cinco questões propostas alargaram nossos horizontes, permitiram algumas definições e abriram caminhos.

Relativamente à primeira questão: «O que a Igreja da África espera do monaquismo e que monaquismo queremos implantar?» Tínhamos como base para reflexão os relatórios de Dom Bernardin Gantin, Arcebispo de Cotonou(2), e de Dom Jean Leclercq. Ambos estavam de acordo sobre o essencial da vida monástica, mas o pastor espera um pouco mais dos monges, que eles correspondam a determinadas necessidades, hoje vitais na África, e que prestem serviços à Igreja que os acolhe. Esta era também a opinião de Dom André Duirat, Bispo de Bouaké, presente a nossos debates. Dom Jean Leclercq afirmava que a vocação do monge é estar presente, ser monge: trata-se antes e acima de tudo de «de instaurar a realidade de uma vida na caridade, união com Deus, união entre os irmãos, realizando assim um dos carismas essenciais de toda a Igreja para que ela viva integralmente seu papel de esposa e de testemunha de Cristo».

Em todas as intervenções que se seguiram, afirmou-se a necessidade de se manter a dimensão contemplativa da vida monástica, mas alguns acentuaram a separação do mundo e outros a necessidade de abertura às carências espirituais e materiais da cristandade que nos estava acolhendo.

No encerramento dos debates, foi elaborada uma «Declaração sobre a orientação fundamental do monaquismo na África», destinada, sobretudo, aos Bispos, na qual se afirmava:

● Ideal monástico: uma vida humilde e escondida, inteiramente voltada para a procura de Deus.

● Objetivo das fundações: permitir às jovens Igrejas da África realizar o ideal contemplativo num estado de vida consagrado pela Igreja e levar a termo sua implementação no próprio país de origem.

● Mesmo não participando diretamente do trabalho de evangelização, deve necessariamente haver uma irradiação que os Mosteiros, por sua vida de oração e de caridade, não podem deixar de exercer sobre as populações dos arredores.

De fato, depois disso, mesmo os Mosteiros que davam mais importância à separação do mundo, não ficaram indiferentes às necessidades da Igreja e das populações adjacentes.

As trocas de idéias a respeito da liturgia possibilitaram a redação de uma «Declaração comum sobre a promoção de uma Liturgia Africana», declaração especialmente destinada ao episcopado africano.

Em 1964, como em quase toda parte, celebrávamos o Ofício em latim. Pedíamos para celebrá-lo nas línguas vernáculas, a fim de possibilitar «uma participação ativa, compreensível e frutuosa de todos nas ações litúrgicas», de acordo com a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, do Concílio Vaticano II (cf. Sacrosanctum Concilium, n.14).

Ainda era precoce vislumbrar a constituição de uma liturgia africana. Ela só poderia ser obra dos próprios africanos, embora desejássemos ter desde já a possibilidade de assumir os valores das culturas africanas na oração monástica: atitudes, gestos, cantos, danças, instrumentos musicais etc... caminhando no ritmo da Igreja local.

Poderia falar de outros assuntos abordados: a formação dos jovens, a vida econômica. Direi apenas algo sobre a formação. É reconfortante ver como ela produziu, com a graça de Deus, autênticos(as) noviços(as), monges e monjas dentre os quais saíram Superiores(as) à altura de suas tarefas.

A AIM continua a nos ajudar, subvencionando cursos para a formação em todos os níveis. Cursos que reúnem jovens em um ou outro Mosteiro e permitem dessa maneira contatos positivos entre as comunidades. A «Structure Sainte Anne»(3) para a formação de futuros formadores já começou a produzir seus frutos.

A Ajuda à Implantação Monástica tornou-se com o passar dos anos a Aliança Inter-Monástica. Essa Aliança é também vivida por nossas comunidades. A reunião de Bouaké foi a ocasião de nos conhecermos. Foi apenas um ponto de partida. Atualmente existe, cada vez mais, uma bela ajuda mútua em todos os domínios entre nossos Mosteiros.

O Boletim da AIM, que recebemos regularmente, e que muito agradecemos, abre-nos para todos os Mosteiros que surgem através do mundo. A AIM cumpriu muito bem a missão que lhe foi confiada em Bouaké de assegurar a ligação entre os nossos Mosteiros.


Traduzido do francês por Dom Matias Fonseca de Medeiros, OSB

(1) Dom Jean Leclercq, OSB (* 1911 - † 1993), monge da Abadia de Clervaux (Grão-Ducado do Luxemburgo), célebre por sua extraordinária erudição, autor de diversas obras sobre a espiritualidade monástica da Idade Média e sua ativa participação na fundação e posterior desenvolvimento do Diálogo Monástico Inter-Religioso.

(2) Bernardin Gantin (* 1922 – † 2002), Bispo Auxiliar (1957-1960) e Arcebispo de Cotonou, República do Benin (1960-1971). Chamado a Roma pelo Papa Paulo VI, aí desempenhou diversas funções na Cúria Romana. Criado Cardeal em 1977, foi Prefeito da Congregação para os Bispos (1984-1998) e Decano do Sacro Colégio dos Cardeais (1993-2002).

(3) N. do T. A «Estrutura Sant’Ana» é um programa de estudos organizado num ciclo de três anos, para os Mosteiros africanos, que consiste na preparação de formadores para as diversas matérias relativas à formação monástica.

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