Padre Peter Eghwrudjakpor, OSB,

é Prior Conventual do Mosteiro de Ewu-Ishan (Nigéria).

A ASSOCIAÇÃO BENEDITINA E CISTERCIENSE DA NIGÉRIA (BECAN)(1)

Espaço para o diálogo entre o monaquismo ocidental
e a cultura tradicional nigeriana

O africano é, por natureza, um contemplativo. No entanto, o monaquismo ocidental é relativamente recente na Nigéria. Nós só poderemos viver a vocação monástica enquanto africanos e nigerianos, e não como europeus ou americanos. É verdade que essa graça nós a recebemos do Ocidente, contudo não podemos vivê-la como ocidentais. A «BECAN» é um espaço de diálogo contínuo entre semelhanças e diferenças, um fórum de diálogo sobre o modo de ser monges e monjas cistercienses e beneditinos na Nigéria de hoje, e sobre a maneira de alcançar o objetivo comum de toda vida monástica.

No começo

A criação da BECAN (Associação Beneditina e Cisterciense da Nigéria) reflete inúmeros fatores bastante evidentes no ambiente em que ela surgiu e que ainda hoje o são. Nesse país, a vida monástica é, ao mesmo tempo, recente e estrangeira. Por essa razão as lutas e dificuldades são muitas, sobretudo em matéria sócio-econômica, como, aliás, na maioria dos países africanos. Partindo dessa premissa, os pioneiros do monaquismo nigeriano perceberam a necessidade de apoio mútuo e fraterno, bem como a necessidade de laços mais fortes entre as diversas comunidades monásticas.

Embora não se tenha mencionado isso quando de sua formação, a BECAN percebeu como um de seus objetivos a constituição de laços mais fortes entre os Mosteiros nigerianos, para enfrentar com maior confiança os inúmeros desafios com os quais os nigerianos se defrontam.

Os primeiros pais e mães da BECAN reconheceram o fato de que a cultura tradicional do povo e sua própria riqueza estão impregnadas de valores, alguns dos quais correlatos aos valores cristãos e aos valores monásticos. O questionamento que então se fazia era como estabelecer um diálogo entre o monaquismo ocidental, recém chegado, e a cultura africana, a cultura nigeriana.   

A maioria dos pioneiros do monaquismo nigeriano ainda está viva e todos estão de acordo que a idéia de uma Associação que reunisse Beneditinos e Cistercienses, aqui na Nigéria, é obra de duas pessoas: Madre Mary Charles, OSB, do Mosteiro da Páscoa (Paschal Monastery), em Nike, Enugu, e Padre Columba Breen, OSB, do Mosteiro de Saint Benedict, em Eke, Enugu.

Entretanto, «o primeiro acontecimento marcante na história da BECAN foi um seminário monástico que transcorreu no Mosteiro beneditino de Eke, a 17 de abril de 1979. Os participantes desse primeiro encontro foram: Padre Mark, Irmão Paul, Irmão Gerard e Padre Thomas (EUA), do Mosteiro de Awhum; Madre Patrícia, de Umuoji, e Madre Charles, de Nike; Padre Columba Cary-Elwes, Padre Columba Breen, Padre David, Irmão Colman Hingerty, Irmão Vincent Mordy, de Eke, e Irmão Peter, de Igueben»(2).

Desde então, realizam-se regularmente reuniões nos diversos Mosteiros que fazem parte da Associação. Esta se desenvolveu passando dos quatro primeiros membros para os dezesseis atuais, todos unidos pela Regra de São Bento. E a Associação continua sendo uma fonte de enriquecimento e estímulo para todas as comunidades-membros, de acordo com sua intuição original.

A BECAN hoje

Uma das maneiras através das quais os Superiores se informam, partilham e se estimulam reciprocamente, ao participarem das reuniões anuais, é o «Relatório de Casa», habitualmente apresentado por cada comunidade e previamente distribuído a cada Superior. É um momento importante que acontece durante a semana de reunião. O relatório deve abordar os diversos aspectos da comunidade, desde o econômico e financeiro até à vida de oração, o relacionamento entre o Mosteiro e a vizinhança, bem como as tensões internas da comunidade no tocante a suas observâncias. Terminadas as leituras dos relatórios de cada comunidade, há um tempo para observações, reflexões, comentários e eventuais sugestões, se necessário forem. A qualidade desses relatórios é, na maioria das vezes, um indicativo do nível de abertura e confiança que cada um encontra na BECAN como em uma família. Atualmente, há uma confiança e abertura maiores, e os Superiores já não têm mais atitudes de auto-defesa ou de proteção, como era o caso antigamente.

Existe ainda um progresso fundamental no modo como a BECAN percebe o seu papel. Outrora, a Associação se considerava como uma «associação livre». Portanto, nenhuma comunidade interferia nos assuntos ou na vida uma da outra. Os muros ao redor de cada Mosteiro eram então bastante espessos, com bandeiras vermelhas tremulando no alto. Em nossos dias, o conceito é totalmente diferente. O primeiro sinal real de que a BECAN começou a levar-se a sério a si mesma e a seu papel foi a publicação de uma carta circular, no final da reunião da BECAN, em abril de 2008, no Mosteiro da Páscoa, em Nike, assinada por todos os Superiores presentes. Entre outros temas, pode-se ler nesta circular o seguinte:

Os Superiores da BECAN delegam a cada Superior o empenho de levar à consideração dos membros das comunidades o que surgiu a partir do encontro deste ano.

Considerando-se ela própria, doravante, não apenas uma «associação livre», mas sim uma família fortemente unida, a BECAN pode, a partir de agora, ser chamada a intervir quando alguma coisa deva ser corrigida em qualquer uma das casas da Associação. A BECAN pode sempre delegar um Superior como mediador a fim de levar a paz e a harmonia a todas as casas.

Foi um progresso imenso se o compararmos com a situação anterior, onde cada Mosteiro era completamente independente. A conseqüência disso era que, em caso de perturbação ou de correções a serem feitas, ninguém tinha possibilidade de intervir ou de dar conselho. E se assim era, nunca se podia ajudar uma família monástica, até nos darmos contas de que todos somos afetados quando ocorrem terremotos, estrondos ou situações caóticas em qualquer comunidade. Nós partilhamos todas as alegrias, mas partilhamos igualmente todas as feridas uns dos outros.

O último encontro da BECAN, ocorrido em abril de 2011, no Mosteiro de Saint Benedict, em Ewu, deu um passo ainda mais longe no abandono desse conceito de «associação livre». Nessa reunião, os Superiores insistiram no fato de que, futuramente, serão dados mais espaço e mais tempo para a avaliação dos verdadeiros conflitos, dificuldades e desafios nas comunidades, e menos para a análise das atividades econômicas nos relatórios anuais. Os Superiores insistiram também para ser redigido um Estatuto, que possa servir de diretório para a BECAN e precise sua função e seu objetivo. Por fim, ainda nessa reunião, foi designada uma comissão de três membros, com certa autoridade (que será estipulada no Estatuto) e tendo a possibilidade de intervir e agir em nome da BECAN como corpo, no caso de situações que lhes sejam confiadas ou se refiram à Associação.

Fundo comum, terreno de formação comum

Desde 2009, depois da reunião transcorrida na Abadia Cisterciense de Mount Calvary, em Awhum, os Superiores criaram uma bolsa comum. Cada comunidade deve contribuir anualmente para a constituição desse fundo. A idéia é de repartir uma parte dele com a gestão da BECAN e a outra parte com o grupo de formadores da BECAN.

A Associação decidiu também estabelecer um plano comum de formação para monges e monjas. O projeto está em andamento. A programação desse Instituto foi definida para que possa funcionar em um dos Mosteiros da BECAN.

Os formadores da BECAN

A importância da formação na vida de cada comunidade levou a BECAN a criar uma instituição específica para os formadores de suas respectivas comunidades. Seu raio de ação é mais abrangente, pois envolve todas as pessoas que exerçam uma função na formação inicial. Conhecida como «Formadores da BECAN», suas atividades são regulamentadas pelos Superiores, embora de forma indireta. Seu encontro anual, que ocorre sempre na segunda semana de novembro, é ao mesmo tempo uma oportunidade para se buscar apoio recíproco e trocar idéias a respeito da formação, bem como uma oportunidade de interação dos grupos, renovação e atualização para os próprios formadores. A cada cinco anos, os formadores organizam, eles próprios, um Instituto Monástico de Formação, com duração de um mês, ao qual chamam de «Oficina de Formação dos Formadores».


Traduzido do inglês por Eugênio Fonseca de Medeiros

(1) Sigla em inglês da Benedictine and Cistercian Association of Nigeria.
(2) Citação de um capítulo da obra de Padre Andrew Nugent, OSB, intitulado: From Eke to Ewu: Entering the Promised Land, na história do Mosteiro de Ewu: Silver Jubilee Reflections - 2004.

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